É uma questão comum a muitos pais: existe uma idade a partir da qual podemos começar a deixar as crianças sozinhas em casa? É certo que cada família tem diferentes necessidades e sistemas de suporte e, algumas pessoas, nomeadamente por motivos familiares ou incontornáveis, acabam por facilitar esta questão, começando desde cedo a habituar os filhos a ficarem sozinhos.

No entanto, e apesar de tudo depender de vários contextos e do próprio desenvolvimento dos mais pequenos, o pediatra Sérgio Neves, coordenador da unidade de pediatria da Clínica de Santo António, conta à MAGG que, antes do início da adolescência, as crianças não devem ser deixadas sozinhas, fora situações muito pontuais.

“Abaixo dos 10, 11 anos, a capacidade de uma criança de gerir situações inesperadas ou que não controlam é muito limitada, e existe um conjunto de riscos associados ao ficarem em casa sem a supervisão de um adulto”, explica Sérgio Neves. “Não recomendo que fiquem sozinhos, a não ser que se trate de uma exceção e de um período curto nunca superior a duas horas, como os pais darem um salto ao supermercado. E, claro, desde que não existam riscos envolvidos”.

O pediatra Sérgio Neves recomenda que as crianças sejam ensinadas desde cedo a lidar com situações inesperadas

A sua casa pode estar recheada de perigos para os miúdos

Recorda-se da época em que os seus filhos eram pequenos e colocou a casa inteira à prova de bebés, desde os protetores de tomadas até aos de cantos de mesa? Pois. Não é por já serem bem mais crescidos que o seu lar deixou de ser perigoso, principalmente quando as crianças são deixadas sozinhas.

Telemóvel: perigo para as crianças ou uma ferramenta útil para os pais?

“Podem ligar um aparelho eletrónico e apanhar um choque, acender o fogão e provocar um pequeno incêndio, escorregarem na banheira enquanto tomam banho, sem contar que existe o risco de abrirem a porta de casa a estranhos ou consultarem conteúdos impróprios na internet”, relata Sérgio Neves.

E são exatamente estes riscos que devem ser contornados o mais cedo possível, educando as crianças a lidar com estes perigos. “Por volta da idade escolar, a partir dos 6 anos, é importante começar a alertar os miúdos para situações inesperadas: o que fazer em caso de acidente ou queda, ensiná-los a ligar para o 112, para os pais ou para um vizinho ou familiar que possa prestar apoio, bem como não abrir a porta enquanto estão sozinhos em casa; e definir regras para aquilo que lhes é permitido, como mexer apenas no micro-ondas para aquecer refeições e afastarem-se dos restantes eletrodomésticos, por exemplo”, esclarece o pediatra.

A partir dos 11 anos, pode começar a dar mais autonomia aos miúdos

Desde que as crianças estejam bem cientes daquilo que podem ou não fazer em casa durante a ausência dos adultos, Sérgio Neves explica que a partir do inicio da adolescência, por volta dos 11 anos, os pais podem começar a testar os filhos nesta nova fase.

“Por volta desta idade, as crianças vão ganhando mais autonomia. Algumas até já têm chave de casa, dado que podem ter necessidade de chegar antes dos pais a seguir à escola ou ao período que passam no centro de estudos”, explica o pediatra.

No entanto, Sérgio Neves alerta que cada criança é um caso individual: “Os pais devem ir trabalhando o grau de autonomia progressivamente com os filhos e devem estar atentos às suas especificidades. Para uma criança com défice de atenção, por exemplo, a capacidade de gerir situações inesperadas pode ser mais difícil”.

Os períodos sozinhos em casa devem começar por ser curtos e sempre de dia, e fora do horário das refeições, para que não exista a necessidade de as crianças mexerem com eletrodomésticos. Progressivamente, e à medida que vão ganhado mais autonomia, o pediatra explica que os períodos de tempo podem ir aumentando e que “os pais podem deixar refeições cozinhadas, sendo apenas necessário aquecê-las no micro-ondas”.

O abrir a porta de casa a estranhos é um dos maiores perigos desta situação e, assim que os seus filhos começarem a ficar sozinhos em casa, o especialista recomenda que faça testes: “Os pais podem voltar atrás e tocar à campainha para ver se os filhos abrem a porta”. Durante os períodos de ausência dos adultos, também é recomendado que estes façam chamadas regulares para os miúdos para verificar se está tudo bem.

Sozinhos à noite? Nunca antes dos 16 anos

Por mais que os seus filhos sejam responsáveis e confie neles para ficarem sozinhos em casa, Sérgio Neves adverte que tal nunca deve acontecer durante a noite antes dos 16 anos, “até devido à questão da Lei de Proteção de Menores, que dita que estes não podem ficar sozinhos sem supervisão”.

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No entanto, mesmo durante o dia, e para além dos perigos previamente referidos, o mundo online também tem os seus riscos. “É importante que os pais bloqueiem o acesso a determinados sites não apropriados para menores, e devem também elucidá-los sobre os perigos de partilhar dados pessoais na internet e nas redes sociais: nunca partilhar nomes, morados, telefones, etc.”, adverte Sérgio Neves.

“As compras online são um problema, e os adultos não devem deixar dados de pagamento gravados no histórico. Também poderá ser útil bloquear as chamadas internacionais e de valor acrescentado nos telefones”, conclui o pediatra.