“Tenho uma paixão gigante pelo Papa”. Os relatos de quem já participou no maior evento da Igreja Católica

Em 2022, Portugal recebe as Jornadas Mundiais da Juventude. A MAGG falou com cinco portugueses que participaram em edições anteriores.

O Papa Francisco regressa a Portugal em 2022, para as Jornadas Mundiais da Juventude

Célia Gonçalves tinha 18 anos quando rumou a Roma, em Itália, para as Jornadas Mundiais da Juventude de 2000. Impulsionada pelo grupo de jovens a que pertencia, a agora bancária de 36 anos embarcou nesta caminhada movida pela fé.

“Era uma forma de manifestarmos a nossa fé na companhia de amigos, mas a oportunidade de ver o Papa era algo que nos movia muito. Na época, ia muito na expectativa de saber qual era a mensagem que o Papa João Paulo II nos ia passar”, conta Célia Gonçalves, que enaltece o ambiente de muita “euforia, boa disposição, companheirismo e ajuda ao próximo” que se sentia durante essa semana nas ruas de Roma.

“Cruzávamos-nos com outros grupos de jovens, de diferentes nacionalidades, fazíamos uma espécie de grito de guerra e empunhávamos as bandeiras dos nossos respetivos países. Partilhávamos uma crença com pessoas que não conhecíamos, mas que são nossos irmãos, logo estávamos disponíveis para partilhar experiências, mas também roupa, comida”, afirma Célia Gonçalves, que, devido a um imprevisto, acabou por experienciar na primeira pessoa a verdadeira essência da ajuda ao próximo.

A meio das jornadas, Célia Gonçalves ficou doente e teve de ser assistida num hospital local. “Acabei por ser acolhida por uma família italiana, um voluntário das jornadas levou-me para casa para ter ajuda. Estive afastada do meu grupo durante dois dias, mas foi a experiência mais próxima do que é o espírito das jornadas: um voluntário italiano e a sua família, bem como um peregrino português que eu não conhecia, tomaram conta de mim durante aquele período”, recorda a bancária, que acrescenta que o voluntário e a esposa acabaram mesmo por dormir no chão da sala para lhe cederem o quarto e a cama. “Nunca vou esquecer este momento, foi o verdadeiro sacrifício pelo próximo e o amor pelo irmão”.

O que leva os jovens às Jornadas Mundiais da Juventude?

Tal como em tudo na vida, existem diferentes motivações para cada indivíduo. Mas quando falamos das Jornadas Mundiais da Juventude, é inegável que a partilha de experiências com pessoas de todo o mundo, unidas pela mesma fé, é um dos grande motivos que leva milhares de jovens a participarem neste evento.

Miguel Costa, 25 anos, participou nas jornadas de Madrid em 2011. Na época com 18 anos, o hoje rececionista de hotel juntou-se a um grupo de jovens da paróquia onde residia e viajou até Espanha, onde conviveu com pessoas de todo o mundo.

Miguel Costa (à esquerda, escondido pela bandeira) participou nas jornadas de Madrid com 18 anos

“Foi uma experiência muito boa. Conhecemos pessoas de muitos países diferentes, a cidade estava cheia de malta jovem e, para nós, foi a melhor forma de aproveitar as jornadas. Hoje em dia estou mais afastado da Igreja, mas acredito que esta experiência é espetacular e recomendo a qualquer pessoa”, conta Miguel Costa.

Também para Paulo Pinheiro, 35 anos, as Jornadas Mundiais da Juventude foram um momento ideal para partilhar experiências com pessoas de diferentes realidades. O advogado e gestor também participou nas jornadas de Madrid, em 2011, algo que desejava fazer há muito tempo mas que não tinha tido oportunidade até então.

“Encontrei aquilo que procurava, que era o contacto com realidades diferentes das nossas. Apesar de muita coisa na Igreja ser uniforme, de certeza que a maneira de ver e viver determinadas coisas difere de cultura para cultura”, salienta Paulo Pinheiro, que assume que participou neste evento movido pela vontade de conhecer as diferentes formas de lidar com a fé. “Queria saber como é que os jovens da minha idade vivenciavam as suas crenças, e também fui em busca das respostas da Igreja aos problemas e necessidades dos jovens.”

Naquilo que considera ter sido uma experiência enriquecedora, Paulo Pinheiro conviveu com diferentes realidades, estreitou laços de amizade com a comunidade que o acompanhou (viajou com um grupo de amigos da sua paróquia) e participou de vários momentos de união, algo que acredita ser um dos grandes chamarizes das Jornadas Mundiais da Juventude.

O que já se sabe sobre a edição em Portugal

Fora a confirmação oficial de que Portugal vai ser o País anfitrião das próximas Jornadas Mundiais da Juventude, mais precisamente a cidade de Lisboa, ainda pouco se sabe sobre a realização do evento.

Em relação a datas, embora exista uma tendência para a realização das jornadas durante os meses de julho e agosto, tal não é regra. Em Madrid (2011), o evento decorreu entre os dias 16 e 21 de agosto, no Rio de Janeiro (2013), entre 23 e 28 de julho, e, mais recentemente em 2016, as jornadas da Polónia arrancaram a 26 de julho. No entanto, as Jornadas Mundiais da Juventude de 2019, no Panamá, decorreram entre 22 e 27 de janeiro, sendo assim impossível prever quais as datas portuguesas.

No que diz respeito ao local, existem rumores de que o Parque do Tejo e do Trancão pode ser o eleito para a realização do evento. De acordo com o jornal “Público”, que avançou a notícia, o encontro em Portugal já estava decidido desde dezembro, quando fontes eclesiásticas garantiam ao mesmo jornal a realização das Jornadas Mundiais da Juventude no nosso País, numa das zonas limítrofes da cidade de Lisboa.

“Acho que todos procuramos a comunhão, vivemos todos esse espírito. As jornadas acabam por ser um momento de renovação de fé e da missão que temos neste mundo”, afirma o advogado e gestor.

Também Célia Gonçalves enaltece a importância da comunhão e união: “São milhares de jovens que se unem para mostrar ao mundo que acreditam em Deus, em Cristo, e que estão ali todos para o mesmo propósito, para manifestar a sua fé”.

“Sou completamente viciada no Papa”. A figura papal chama milhares de jovens

A 23 de março de 1986, em Roma, aconteceu a primeira edição de sempre das Jornadas Mundiais da Juventude, presididas por João Paulo II. O Papa polaco era conhecido pela sua grande ligação aos jovens, ligação essa que Bento XVI não quis perder e que Francisco, o Papa das edições de 2013, 2016 e 2019, fez aumentar ainda mais devido à sua postura próxima, humana e até irreverente em relação ao que era habitual na Igreja Católica.

Para além da união e da convivência com pessoas de todo o mundo, também a presença próxima do Papa neste evento é algo muito procurado pelos jovens. Para Isabel Bastos, 22 anos, mais conhecida como Binha, a proximidade com esta figura foi algo que a levou a participar já em duas edições das Jornadas Mundiais da Juventude — a estudante esteve presente em Madrid, em 2011, com apenas 15 anos, e voltou às jornadas na edição de 2016, realizadas em Cracóvia, na Polónia.

“Tenho uma paixão gigante pelo Papa e em 2011, mesmo sendo muito jovem, atirei-me de cabeça para esta oportunidade e adorei, é uma experiência que não se vive em mais lado nenhum. É como se estivéssemos numa bolha da qual não apetece sair e, quando terminaram as jornadas de Madrid, pensei logo que tinha de voltar”, conta Binha, que faz parte de um grupo católico desde os 15 anos.

E voltou. Em 2016, a estudante repetiu a experiência com o seu grupo de amigas, e admite que esta segunda vez as coisas foram diferentes. “Tenho outra idade, mais consciência, mais experiência e vivi as coisas ainda com mais força. Ao contrário da edição de Madrid, já fui à procura de certas respostas”, conta. Uma coisa não se alterou: a vontade de estar próxima do Papa.

“É o representante da Igreja e vê-lo ali tão perto, a falar diretamente para nós, jovens, é indescritível. Há um sentimento de união gigante, o sentimento de que Jesus está ali. Sentimos que somos o presente de Deus e que temos mesmo de viver tudo isto com muita força. Milhares de jovens, todos a gritar e a fazer barulho pelo Papa, por Deus e para Deus. É uma união com o céu fora do normal”, recorda Binha. “Sou completamente viciada no Papa, venho sempre das jornadas a ver imensos vídeos, homilias que o Papa deu, quero sempre procurar e conhecer ainda mais Jesus”.

A rotina difere muito, mas as missas com o Papa são imperdíveis

O dia a dia de cada participante das Jornadas Mundiais da Juventude pode diferir muito. Estão previstas várias atividades pela organização do evento, mas ninguém é obrigado a seguir um plano restrito. Existem missas, muitos momentos de oração e partilha, sem esquecer as refeições e as dormidas (que podem ser em paróquias, colégios e até casas privadas, sendo tudo gerido pela organização), passeios e visitas a locais históricos e pontos de interesse, principalmente pela sua ligação à religião católica.

No entanto, as missas ou momentos de oração com o Papa são, para grande parte dos jovens, imperdíveis e muito antecipados. “Queremos sempre estar com o Papa, é para isso que lá vamos”, explica Binha, que acrescenta que nem todos os momentos com esta figura têm de ser especialmente longos.

“Na Polónia, tínhamos um dia no programa em que não estava prevista nenhuma missa com o Papa, mas ele veio à janela do local onde estava alojado e fez uma oração com os jovens. Essa oração da manhã foi fundamental para nós, sentimos que tínhamos o Papa todos os dias connosco e, para mim, isso é essencial para o espírito das jornadas”, salienta a estudante.

Também as vigílias, algo constante em qualquer edição das Jornadas Mundiais da Juventude, são um momento muito antecipado pelos jovens. “Depois de uma missa com o Papa, ficámos a noite inteira em vigília. Estávamos todos ali a rezar, íamos dormindo e acordando”, recorda Binha, que explica que esta é uma atividade essencial e proposta pelo próprio Papa.

E depois das jornadas, qual é o sentimento que estes jovens trazem para casa? “Voltamos pessoas completamente diferentes, queremos mudar tudo na nossa rotina, regressamos de alma lavada. No meu caso, sinto que volto diferente comigo mesma, com objetivos diferentes, e quero trazer muito Jesus para o meu dia a dia, mostrá-lo aos amigos e à família”, afirma Binha.

Em 2022, as jornadas são em Portugal

Depois de muita antecipação e rumores, a confirmação oficial chegou domingo, 27 de janeiro, no último dia das Jornadas Mundiais da Juventude no Panamá: a próxima edição, em 2022, vai realizar-se em Portugal.

O cenário que se seguiu foi digno de uma vitória da seleção portuguesa numa qualquer competição oficial e não faltaram imagens a rechear os noticiários de dezenas de pessoas aos pulos, a sorrir, com bandeiras de Portugal a esvoaçar, a reagirem com extrema felicidade ao momento.

“Foi um momento de muita alegria, e acredito que mesmo os não crentes veem com bons olhos esta escolha”, afirma Paulo Pinheiro, que recorda que Portugal tem uma grande tradição católica, e também tem feito “uma forte aposta na área da juventude nos últimos anos”.

Maria Ribeiro Telles, 21 anos, administrativa, que participou na edição de 2016 na Polónia, também recebeu a notícia com muita alegria. “Fiquei logo com muita vontade de ajudar, de querer estar presente. Gostava muito de participar na organização mas, caso não seja possível, vou fazer parte das jornadas na mesma”, afirma a administrativa.

Maria Ribeiro Telles (na segunda posição, a contar da direita) foi à Polónia e já tem planos para a edição de 2022

Mas não está sozinha. Apesar de assumir que a edição de 2022 será vivida de outra forma aos 40 anos, Célia Gonçalves quer estar presente de forma ativa nas jornadas em Portugal. “20 anos depois, vou ter oportunidade de reviver esta experiência. É um momento de extrema felicidade que vai certamente trazer pessoas de todo o mundo e dar ainda mais notoriedade a Portugal, para além de também ser bom em termos económicos”, afirma Célia Gonçalves.

Também Binha recebeu a notícia de que Portugal, mais precisamente Lisboa, iria receber as próximas Jornadas Mundiais da Juventude, com muito ânimo: “É uma alegria gigante poder receber o Papa cá, com a dimensão que as jornadas têm hoje em dia. É uma graça gigante que Jesus nos está a dar e uma oportunidade de termos tudo aqui. Não é preciso fazer grande coisa para ver o Papa, é só apanhar um metro. Passou-me logo pela cabeça agarrar nas minhas amigas e fazer alguma coisa, seja participar em todas as atividades das jornadas ou estar mesmo envolvida na organização”.

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