“O Meu Escritório é lá Fora”. Quase foi atropelado por uma vaca, temeu pela vida na Índia e agora ganhou um prémio

Carlos Bernardo desistiu do curso e meteu a mochila às costas. Pelo segundo ano consecutivo, venceu os prémios FITUR de Blogue Mais Popular.

Carlos Bernardo é o autor do blogue "O Meu Escritório é lá Fora" e diz que a viagem mais marcante foi à Índia — onde pensa ter corrido perigo de vida

Carlos Bernardo

A história de Carlos Bernardo, 34 anos, começou em 1984, em Abrantes, mas só agora é que começou a ser contada. Viveu quase toda a sua vida com os pais em Rossio ao Sul do Tejo (província do Ribatejo) e a sua vida tinha tudo para ser “normal” — que é como quem diz, aborrecida. Tudo mudou quando, em 2012, desistiu do curso de Engenharia Civil quando só lhe faltavam duas disciplinas para terminar, meteu a mochila às costas e saiu de casa sem saber para onde ia ou quando regressaria.

Foi aí que fez a sua primeira viagem. Andou perdido até chegar a Vila Real de Santo António, no Algarve, mas descobriu histórias e pessoas incríveis que depois relatou no seu blogue pessoal, chamado “O Meu Escritório é lá Fora”, que venceu este domingo, 27 de janeiro, o prémio de Blogue Mais Popular da Feira de Turismo de Madrid. Éa segunda vitória consecutiva.

Desde então que já correu Portugal e o mundo: passou pelos Açores, deixou-se encantar por Marrocos e considera a viagem à Índia uma das mais marcantes da sua vida — onde, segundou contou à MAGG, a certa altura sentiu perigo de vida.

É no seu blogue que, através de textos e fotografias das suas viagens, pretende contar histórias de lugares improváveis e de pessoas que à partida nada teriam para lhe dizer, mas que o têm feito crescer a cada ano que passa.

Carlos considera-se um criativo, um sonhador, e desde o verão de 2018 que tem de conciliar a sua paixão por conhecer o mundo com o nascimento de Alice, que faz 6 meses já no início de fevereiro. À MAGG, diz que mais do que um brinquedo, quer deixar à filha o mundo e uma perspetiva geral do que é a vida.

Se a vantagem de fazer o que faz passa por conhecer novas culturas e novas pessoas, identifica alguma desvantagem?
Sinceramente, não encontro nenhuma. Mais do que qualquer outra coisa, “O Meu Escritório é lá Fora” é uma espécie de folha em branco — não é uma folha em branco cheia de nada, mas sim repleta de possibilidades. É como se transbordasse de ideias e, neste momento, encontro-me na fase de criação de outros modelos complementares àquilo que é o meu blogue.

E como é que o projeto nasceu?
Sempre fui muito sonhador e muito criativo. Acho que tenho uma característica muito particular em que acredito que todos os meus sonhos se podem concretizar, mas a verdade é que tudo começou com um projeto falhado. A minha formação foi em Engenharia Civil, curso esse que nunca cheguei a acabar.

Faltavam apenas duas ou três disciplinas quando desisti, em 2012. Decidi que não queria ter um escritório físico ou aborrecido, mas sim um escritório lá fora e totalmente abstrato. Queria poder seguir os meus sonhos, e é muito isso que o blogue representa: mais do que um negócio, é uma plataforma de concretização de sonhos.

Encaro o blogue como uma simples plataforma onde exponho o meu trabalho. Na verdade, aquilo que eu sou e aquilo que eu me considero é um criativo

E nunca se arrependeu de desistir do curso?
Apesar de ter sido a decisão mais difícil que alguma vez tomei, foi talvez a melhor e nunca me arrependi. É daquelas que levanto os braços ao céu e agradeço tê-la tomado naquela altura. Ia ser um engenheiro civil muito mau [risos] e estou muito feliz com o rumo que a minha vida levou.

A partir de que altura é que começou a ser um projeto inteiramente profissional?
O blogue nasceu algures em 2012 e muito depressa tomou outras proporções. Eu tinha o meu trabalho enquanto consultor de turismo de natureza e, em 2016, decidi despedir-me, formar a empresa e tornar-me 100% profissional. Tem sido um processo gigantesco e, muito em breve, vou abrir um espaço físico.

Será uma espécie de ateliê de “O Meu Escritório é lá Fora” com uma proporção tal que, provavelmente, terei de começar a contratar pessoas. Não para escrever no blogue, claro, mas para todas as tarefas inerentes como a parte comercial e a produção de conteúdos em vídeo.

Gosta que lhe chamem blogger ou tem alguma aversão ao termo?
Não tenho qualquer problema com isso, mas ser blogger não é a minha profissão. Encaro o blogue como uma simples plataforma onde exponho o meu trabalho. Na verdade, aquilo que sou, aquilo que me considero, é um criativo.

Em que é que consiste o seu dia a dia?
Quando estou em viagem, o que acontece frequentemente, procuro não fazer mais nada a não ser viajar. Quero viver, fotografar e criar memórias.

(…) no que toca ao equilíbrio pessoal e emocional, procuro não fazer viagens muito longas ou sem tempo definido. Não viajo mais do que 20 dias seguidos

No dia de escritório, digamos assim, procuro diferenciar os dias da semana para diferentes tarefas que se desdobram entre produção de conteúdos, procurar estratégias de desenvolvimento de novos produtos e muitas reuniões. Procuro também estabelecer limites no meu horário de trabalho para poder ter tempo para a minha família.

Quando decide o próximo destino a visitar, tem sempre em mente o tempo que vai estar fora?
Comparo-me muitas vezes a um pintor da Idade Média, na medida em que todos os meus trabalhos são pagos por alguém e têm sempre um propósito. Por isso, o trabalho tem de ser todo organizado — inclusive o tempo de viagem. Mas tenho toda a liberdade criativa para escolher os conteúdos e traçar o meu perfil ao nível das experiências que pretendo contar.

Claro que no que toca ao equilíbrio pessoal e emocional, procuro não fazer viagens muito longas ou sem tempo definido. Não viajo mais do que 20 dias seguidos, por exemplo.

As viagens são uma espécie de parceria?
Sim, um pouco à semelhança do que acontecia na Idade Média quando um rei contratava um pintor para pintar um quadro para o seu castelo. À partida, o rei não lhe vai dizer como pintar o retrato, dando-lhe liberdade total. Eu sei que vou pintar esse quadro que terá sempre o meu traço, a minha visão e a minha interpretação.

Os meus pais sempre tiveram grandes expectativas para mim e estavam constantemente preocupados com a minha felicidade. Nessa altura, quando lhes disse que não iria ser engenheiro civil, a resposta imediata foi perguntarem-me o que é que eu queria ser, afinal

Nos blogues existem duas formas formas de trabalhar: esta, através do chamado branded content, em que não funciono com marcas mas sim com destinos e onde trabalho maioritariamente com municípios, regiões de turismo e comunidades intermunicipais. Ou outra, através de publicidade, com links afiliados e pagamentos por cliques — o que não corresponde, de todo, ao meu perfil.

Como foi a primeira viagem que fez?
Foi muito simples mas continua a ser a mais especial de todas. Aconteceu em meados de 2012 em que, basicamente, saí de Rossio ao Sul do Tejo, em Abrantes, com a mochila às costas e montado na minha bicicleta. Não tinha destino programado nem sabia que tempo iria estar fora de casa.

A viagem terminou uma semana depois quando cheguei a Vila Real de Santo António, no Algarve. Andei perdido pelo meio do Alentejo mas foi uma viagem muito simples, na medida em que não fui à China, por exemplo. Com essa viagem descobri que havia muitas histórias que mereciam ser contadas, que gostava de contar essas histórias e, mais importante ainda, que havia quem tinha interesse em ouvi-las ou lê-las.

Foi com a premissa de querer contar histórias sobre lugares improváveis que nasceu o blogue.

Em que fase da sua vida foi essa viagem?
Nessa altura vivia com os meus pais e tinha acabado de desistir do meu curso de Engenharia Civil.

E como foi dizer-lhes que ia sair de casa sem saber muito bem para onde ia?
Não foi fácil, até porque sou filho único e sempre fui muito bem comportado. Os meus pais sempre tiveram grandes expectativas em relação a mim e estavam constantemente preocupados com a minha felicidade. Nessa altura, quando lhes disse que não iria ser engenheiro civil, a resposta imediata foi perguntarem-me o que é que eu queria ser, afinal.

Não soube responder, até porque era um tema muito complexo para mim, mas sempre me apoiaram. Sempre perceberam que queria uma coisa diferente para a minha vida, tanto o é que acabei por inventar aquilo que é a minha profissão hoje em dia.

Para mim não há um destino bom ou mau. Lisboa, por exemplo, tem um lado turístico, que possivelmente não me agrada, mas se calhar os bairros mais criativos ou tradicionais já me enchem as medidas

Fora essa viagem, houve outras que o tenham marcado?
Cada viagem, de uma maneira ou de outra, inspirou-me. Seja de que maneira for. Ir à Índia, por exemplo, mudou por completo a minha forma de trabalhar e de ver o mundo e foi uma viagem que mexeu muito comigo. Pelas diferenças culturais, pelas pessoas, por tudo.

Por mais ideias que pudesse ter sobre a Índia, quer por influência da literatura, do cinema ou do feedback de amigos que já lá tivessem estado, cinco minutos depois de chegar esqueci tudo aquilo que achava que sabia sobre aquele país. Aquilo é uma espécie de rolo compressor ou máquina de lavar que nos envolve e nos transforma. Foi isso que senti.

Tem algum destino de sonho?
Fazem-me essa pergunta várias vezes. Talvez por ser um sonhador e achar que quase tudo é possível desde que acreditemos e lutemos por isso, não tenho um destino ou uma viagem de sonho. Tenho, sim, viagens que quero concretizar a curto prazo e que mexem um bocadinho comigo.

A Patagónia é um exemplo claro, mas não é um destino de sonho porque não o associo a algo inatingível. Até porque, provavelmente, conseguirei ir lá este ano. É um destino que quero muito visitar por toda a paisagem, e por inspirar algumas das histórias e um dos meus livros favoritos chamado “Na Patagónia”, de Bruce Chatwin.

Que sítios gostaria de mostrar à sua filha?
A Alice vai fazer vai fazer 6 meses na próxima segunda-feira [4 de fevereiro]. Já temos programadas algumas viagens para quando ela fizer 1 ano, mas de uma maneira geral gostaria de lhe mostrar o mundo, e acho que é uma das melhores coisas que lhe posso dar — mais do que um brinquedo ou qualquer outra coisa material.

Carlos Bernardo é casado com Liliana, psicóloga, e juntos tiveram Alice que vai fazer seis meses em fevereiro

Carlos Bernardo

Podia dizer que lhe quero mostrar a Índia, o Brasil ou a Nova Zelândia, mas na verdade o que quero é dar-lhe uma perspetiva geral de como é o mundo e a vida.

Houve algum destino que tenha gostado menos de visitar? Isso é possível para quem faz disto vida?
É inteiramente possível, mas fui mudando a forma de ver o mundo à medida que fui crescendo. Para mim não há um destino bom ou mau. Lisboa, por exemplo, tem um lado turístico, que possivelmente não me agrada, mas se calhar os bairros mais criativos ou tradicionais já me enchem as medidas.

Logo na primeira viagem que fiz encontrei uma situação insólita. Estava de bicicleta e a tentar seguir o caminho que estava marcado quando quase fui atropelado por uma vaca brava

Há sempre um lado A e um lado B, e todos os lugares têm essa dualidade que corresponde aos vários objetivos de uma viagem. É por isso que não consigo identificar nenhum lugar que tenha visitado como muito, muito mau.

A viagem que mais gostou de fazer?
A primeira viagem que fiz, de bicicleta e com a mochila às costas, foi a mais importante. A viagem à Índia foi talvez a mais marcante, e outra que faço muito regularmente é aos Açores — que acho ser o destino mais fabuloso e que mais me encantou.

De certo que já terá várias histórias incríveis para contar à sua filha quando ela crescer. Há alguma que o tenha marcado?
Muitas, mesmo. Logo na primeira viagem que fiz deparei-me com uma situação insólita. Estava de bicicleta e a tentar seguir o caminho que estava marcado quando quase fui atropelado por uma vaca brava. A lógica dessa viagem passava por seguir o rio Guadiana, só que no Alentejo há muito o hábito de fechar os caminhos municipais e meterem grades com portões pelo meio.

Cheguei mesmo a entrar por um deles e dei de caras com um conjunto de vacas bravas. Apanhei provavelmente o maior susto da minha vida quando uma delas se virou para mim, encarou-me de frente e correu na minha direção a toda a velocidade. A sorte é que ela teve mais medo do que eu e acabou por me passar ao lado.

Nesse momento fui a correr para ao pé deles com a máquina fotográfica pronta  e assim que me aproximei reparei que todos eles tinham uma espécie de meia na cabeça — como aquelas usadas pelos ladrões de bancos nos filmes

Quando estive em Jerusalém, visitei o bairro dos judeus ultra-ortodoxos e foi uma experiência surreal, na medida em que fui ameaçado de morte por andar por ali a tirar fotografias. Foi constrangedor, mas de resto tem sido tudo muito tranquilo. Nunca tive problemas com voos atrasados ou perdas de bagagem, felizmente.

Viaja sozinho?
Em contexto de trabalho procuro ir sozinho, sim. Perguntam-me sempre se tenho medo ou se, com o tempo, não acaba por se tornar monótono, mas a verdade é que se for com pessoas que conheça o mais certo é acabarmos a falar dos mesmos temas que falaríamos em qualquer parte do mundo.

Ao ir sozinho acabo por me embrulhar muito mais no destino e conhecer mais gente.

Mas quando é confrontado com algumas dessas situações mais constrangedoras, não se sente mais vulnerável?
Faz parte, e já cheguei mesmo a pensar que ia morrer. Estava na Índia, numa praia totalmente deserta, quando de repente vejo um conjunto de canoas a chegar que me pareceram ser de pescadores. Nesse momento fui a correr para eles com a máquina fotográfica pronta e assim que me aproximei reparei que tinham uma espécie de meia na cabeça — como aquelas usadas pelos ladrões de bancos nos filmes.

Quando vi aquilo achei que aqueles pescadores eram, na verdade, traficantes de droga que me iam matar naquele momento sem que alguém alguma vez viesse a descobrir o que tinha acontecido. Congelei durante uns segundos até que um deles me viu, levantou o braço e acenou-me. Não demorou muito até perceber que aquelas pessoas eram mesmo pescadores que usavam aquelas meias para se proteger do sol e do sal.

Por acaso deu para este caminho, mas na verdade podiam ser traficantes de droga e estar ali sozinho deixava-me numa posição muito vulnerável. É uma questão de controlar os perigos e fazer decisões ponderadas, especialmente para quem, como eu, é casado e tem filhos. Não conseguimos controlar todas as situações e vai sempre haver imprevistos — estejamos ou não com alguém ao lado.

No seu blogue fala muito de séries, filmes e livros que o marcaram. Também fizeram crescer a vontade de querer conhecer o mundo?
Digo com muita verdade que sou muito cinematográfico em tudo o que faço. Ao viajar, quase que me coloco dentro do filme e até muitas vezes com banda sonora. Procuro inspiração em todas as formas de arte. “Os Sopranos”, por exemplo, é para mim a melhor série de sempre. E serve de inspiração para quase tudo aquilo que faço, apesar de nada na história estar diretamente relacionada com a minha vida e profissão. É uma espécie de linguagem que adapto.

Há um destino aconselhável a novos viajantes ou todos eles são acessíveis?
Há pouco tempo tive uma conversa com amigo meu que é enófilo (apreciador de vinho) e que me disse que não estava preparado para beber um vinho Barca Velha, e nada tinha a ver com a questão do dinheiro. Quando o fosse beber, disse-me, gostaria de estar preparado para o aproveitar e saborear da melhor forma.

Com as viagens é um bocadinho isso. Sinto que a minha primeira viagem podia ter sido à Índia, mas talvez não a iria aproveitar da mesma forma. Aconselho todos aqueles que queiram começar a viajar a fazer o Caminho de Santiago. É extremamente simples, absorvente e capaz de nos dar uma perspetiva diferente do mundo.

É um caminho milenar, feito por pessoas de várias partes do mundo. É estarmos num sítio que não é de Espanha nem de Portugal, mas sim do mundo. E não é assim tão fora daquilo que é a nossa zona de conforto.

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