Acima de tudo, eles gostam de pessoas. Especialistas explicam o que é a pansexualidade

O género e a orientação sexual não são relevantes. A pansexualidade é uma categoria que foge das categorizações. A tónica está na pessoa.

Miley Cyrus já falou abertamente sobre o facto de ser pansexual. Ela não olha para géneros ou orientações — só para pessoas

Damares Alves, a nova ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no Brasil, está muito perturbada por existirem 70 identidades de género catalogadas no país. A pansexualidade é uma das que mais confusão causa à pastora evangélica. Numa entrevista, definiu-a como sendo referente a pessoas “que se relaciona[m] com tudo e com todos”, e dá o exemplo de uma mulher nos Estados Unidos “que se apaixonou por uma árvore e que está pedindo autorização para casar.”

São muitas identidades, muitos conceitos. Entendemos que seja confuso. Ainda que “pan” signifique “tudo”, a pansexualidade não significa que podemos gostar de uma estante, de uma árvore, de uma bicicleta, de um cão ou de um burro. Este é, aliás, um dos maiores mitos associados a esta orientação sexual.

A pansexualidade é antes “a recusa a uma orientação sexual relativa, quer a corpos, quer a identidades ou expressões de género“, como diz à MAGG Carmo Gê Pereira, educadora sexual. A tónica está no individuo: “Esta pessoa sente-se atraída por pessoas particulares”, acrescenta.

É a função destas caixas criadas pelos indivíduos. Não conseguimos fugir das categorias, portanto temos de criar categorias para as não categorias.”

A psicóloga Rosa Amaral corrobora a ideia. “Na pansexualidade temos de alargar o conceito. O que a pessoa que se diz pansexual quer que se entenda é que ela gosta de pessoas.” J.S. Morandini, da Universidade de Sidney, também fala na questão em “Who Adopts Queer and Pansexual Identities?”, publicado no Journal of Sex Research, em 2017. Pode ler-se: “Pansexual é frequentemente conceptualizado como o rótulo que denota atração sexual ou romântica por pessoas, independentemente da expressão de género (masculino ou feminino), identidade de género ou sexo biológico.”

Amor e atração por pessoas. Género e orientação não interessam

Trata-se de uma orientação que rejeita aquelas que são seladas, aquelas em que há balizas que mapeiam o objeto de interesse. A orientação sexual, ou seja, a forma como se caracteriza o desejo sexual do outro, não importa. O género, a maneira como esse mesmo objeto do amor ou da atração se apresenta ao mundo, também não: “É uma paixão, um amor que se desenvolve por uma pessoa. Só que essa pessoa que é alvo do amor não tem necessariamente que ter um género e sexualidade definido e fixo”, acrescenta a psicóloga.

A pansexualidade “é abrangente, mas sempre entre seres humanos, consensual e dentro da lei. Implica uma vivência saudável, só que independentemente do género ou da sexualidade.”

Ritch C. Savin-Williams, psicólogo e professor, que desenvolve trabalho junto de adolescentes — já publicou uma série de trabalhos relacionados com a sexualidade —, entrevistou vários jovens pansexuais. Num artigo da “Psycology Today”, divulga excertos destas conversas que mostram como o ênfase na pansexualidade se coloca no sujeito.

  • Marcos, 19 anos: “O género não é uma questão. É a pessoa, a personalidade.”
  • Charles, 18 anos: “Não me vejo como heterossexual ou só atraído por miúdas. Não me considero homossexual ou bissexual, mas apenas atraído por todas as pessoas da mesma forma. Atraído pela pessoa e não pelo género. Não tem nada a ver com o facto de serem homens ou mulheres.”

Portanto, pansexuais podem gostar de pessoas cisgénero, transgénero, não-binárias. Podem sentir-se atraídas sexualmente ou nutrir amor por homossexuais, heterossexuais, bissexuais ou por indivíduos assexuados. Nenhuma destas rotulagens lhes interessa. Mas, atenção: como disse a sexóloga americana Carol Queen, em entrevista à “Variety”, ser pansexual não significa “desejar toda a gente”. Quer dizer apenas que não se excluem possibilidades tendo como critério o género ou identidade sexual.

“Pode haver pessoas pansexuais que se identifiquem mais com uma pessoa mais feminina, mais queer, mais andrógena”, esclarece Carmo Gê Pereira. “Mas isso diz respeito a questões individuais que qualquer comunidade tem na sua heterogeneidade. Mesmo recusando uma categoria, podem ter preferências.”

Vejamos mais exemplos recolhidos por Ritch C Savin-Williams.

  • Kenworthy, 23 anos: “Pansexual. É mais fácil do que dizer bissexual. Depende da situação. Até posso dizer que sou hetero…  O que quer que seja verdade, de acordo com as atrações sexuais e paixões no momento.”
  • David, 23 anos: “Pansexual, porque depende da pessoa. Eu digo que sou bissexual, mas gosto mais de miúdas, mas também me sinto atraído sexualmente por homens.”

A ministra brasileira levanta ainda outro problema relacionado com esta orientação sexual: se o pansexual se pode apaixonar por todos, significará que uma criança pode ser alvo do seu desejo? A resposta é não, porque aí já entramos no campo do crime e dentro daquilo que é considerado um transtorno de foro psicológico. A pansexualidade “é abrangente, mas sempre entre seres humanos, consensual e dentro da lei. Implica uma vivência saudável, só que independentemente do género ou da sexualidade”, diz Rosa Amaral.

A confusão com a bissexualidade

A base desta identidade é muitas vezes confundida com a bissexualidade. Em entrevista à “Elle“, Miley Cyrus, uma das figuras públicas que se assume como pansexual e que popularizou este conceito (apesar de ele existir desde os tempos de Freud), esclareceu: “Sempre odiei a palavra bissexual, porque é colocar-me numa caixa. Nunca penso em alguém como sendo rapaz ou rapariga”.

Continuou: “Os meus olhos começaram a abrir-se no sexto ano. A minha primeira relação foi com uma miúda… Eu vi um ser humano em particular que não se identificava como masculino ou feminino. Olhando para ele, ele era os dois: bonito e sexy; duro, mas vulnerável; feminino e masculino. Relacionei-me com aquela pessoa mais do que com qualquer outra pessoa na minha vida.”

A confusão com a bissexualidade é recorrente, até porque, objetivamente, pessoas pansexuais podem ter relações bissexuais. O que é importante entender é que nesta identidade “rejeitam-se as atrações baseadas em noções binárias de sexo (masculino Vs. feminino) e de género (homem e mulher)”, como notou também Mondarini.

Sobre isto, no texto “Moving beyond the binary: Exploring the Dimensions of Gender Presentation and Orientation”, publicado em 2009 na revista International Journal of Social Inquiry, Emily Lenning, professora de justiça criminal, que estudou a experiência LGBT no sistema legal americano, disse: ”Enquanto a bissexualidade implica uma dicotomia, a pansexualidade sugere a possibilidade de atração por um espectro de identidades de género.”

Ainda que a pansexualidade acabe por constituir uma categoria, ela é aquela que recusa a categorização estanque. É a orientação sexual para os que não se identificam com aquelas que estipulam preferências, para os que valorizam indivíduos particulares, em prol de uma identidade, sexo ou orientação específicos. “É a função destas caixas criadas pelos indivíduos. Não conseguimos fugir das categorias, portanto temos de criar categorias para as não categorias”, termina Carmo Gê Pereira.

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