A incrível história da dieta cetogénica, que surgiu com um agente funerário

É o plano alimentar da moda, seguido por famosos como as Kardashian e Adriana Lima. A sua origem, porém, é bem mais antiga.

Este regime alimentar consiste em remover leite, pão, massas e açúcares refinados da alimentação

A dieta cetogénica tornou-se extremamente popular nos últimos tempos, muito por culpa das celebridades que juram ter encontrado a forma perfeita de perder peso. Também conhecida como dieta Keto, o plano consiste em ingerir poucos ou nenhuns hidratos de carbono e muita gordura. Kim Kardashian usou-a após a primeira gravidez, Adriana Lima, Vanessa Hudgens, Megan Fox e Halle Berry também já disseram ser fãs.

Até agora, acreditava-se que a dieta cetogénica tinha surgido no início do século XX, para ajudar no tratamento da epilepsia, sobretudo em crianças. O baixo teor de hidratos de carbono ajuda a controlar a doença, tanto que hoje em dia os estudos sugerem uma redução das convulsões em 50%. Tudo graças a este plano alimentar.

Não há dúvida de que a dieta cetogénica pode ajudar na epilepsia. O que se duvida agora é que essa tenha sido a sua verdadeira origem. A história parece ser bem mais antiga, mais precisamente de 1863 — portanto, mais de 40 anos antes de a dieta cetogénica ter sido utilizada, pela primeira vez, como tratamento para a epilepsia.

Carta sobre a Corpulência, dirigida ao Público”. Foi este o nome do texto encontrado. Escrito na primeira pessoa por William Banting, um abastado inglês que tinha um grave problema de obesidade, esta carta aberta ao público fala pela primeira vez numa dieta rica em gordura e baixo teor de hidratos. E os resultados? Brilhantes.

Capa original de “Carta sobre a Corpulência, dirigida ao Público”, 3ª edição

Archive.org

A dieta que surgiu graças a um agente funerário que não conseguia perder peso

William Banting era um agente funerário da elite da sociedade londrina, tanto que até realizou funerais da realeza britânica. Sempre ativo fisicamente, Banting começou a engordar por volta dos 30 anos. O inglês tentou de tudo para reverter esta tendência: consultou vários médicos de várias especialidades, praticou remo, fez banhos turcos, caminhou imenso. Nada resultava. 

Em 1862, tudo mudou. Durante as férias do médico que o acompanhava regularmente, William Banting foi a uma consulta com outro especialista, que o aconselhou a seguir uma dieta inovadora e diferente de tudo o que se fazia até então. William Harvey era otorrinolaringologista, mas durante uma visita a Paris tinha assistido a uma conferência de Claude Bernard, um conceituado fisiologista francês, sobre o funcionamento do fígado. Inspirado por essa conferência, Harvey criou um plano de alimentação inovador para Banting seguir.

William Banting

Domínio Público

Contente com o resultado final, William Banting escreveu uma “Carta sobre a Corpulência, dirigida ao Público”. Nesta, Banting descreveu a sua longa experiência com a obesidade e partilhou, em detalhe, a dieta prescrita pelo médico. O agente funerário retirou o leite, cerveja, batatas, pão, leite e manteiga, alimentos-chave da alimentação tradicional inglesa da época, e passou a seguir este regime alimentar.

  • Pequeno-almoço: 110 a 140 gramas de ou carne de vaca, carne de carneiro, rins, peixe assado, bacon ou qualquer outra carne fria (menos carne de porco); uma chávena de chá (sem leite ou açúcar), um pequeno biscoito ou uma torrada sem nada;
  • Jantar: 140 a 170 gramas de qualquer espécie de peixe (menos salmão) ou de carne (menos carne de porco); vegetais, torradas, pudim de fruta, qualquer carne de aves ou de caça, um copo de xerez, vinho madeira ou vinho tinto. O champanhe, o vinho do Porto e a cerveja estão proibidos;
  • Lanche: 56 a 85 gramas de fruta, um ou dois biscoito e uma chávena de chá sem leite ou açúcar;
  • Ceia:110 a 140 gramas de carne, tal como ao jantar, e um ou dois copos de vinho tinto;
  • Digestivo (se necessário): gin, whiskey ou conhaque (sem açúcar) ou um ou dois copos de vinho ou xerez.

Ao fim de um ano a seguir esta dieta, Banting passou de 92 para 71 quilos. Reconhecendo que este regime alimentar poderia não ser eficaz para toda a gente, o agente funerário sentiu ainda assim que deveria dar a conhecer esta dieta.

Foi por isso que as primeiras duas edições foram distribuídas gratuitamente. A terceira e última teve um custo de 60 pences (cerca de 0,69), para cobrir os custos de impressão. Com a divulgação da carta, a dieta passou a ser conhecida como dieta Banting.

Além deste livro, foram muito poucos os registos de William Banting que chegaram aos dias de hoje. De acordo com o jornal britânico “The Telegraph”, as cartas, os diários e outros documentos foram destruídos pela bisneta Nina Banting, num surto psicótico provocado pela depressão pós-parto, pois acreditava que o bisavô era “um homenzinho horrível”.

Mas afinal o que é a dieta cetogénica?

A dieta cetogénica consiste em reduzir drasticamente o consumo de hidratos de carbono e aumentar o consumo de proteínas e gordura. Com o baixo consumo deste tipo de alimentos, o nosso fígado passa a queimar as proteínas e gorduras ingeridas para a produção de energia, entrando em cetose.

Esta dieta começou a ser implementada no início do século XX, por médicos em França e nos Estados Unidos, para tratar a epilepsia. Após uma observação detalhada, os especialistas concluíram que alguns pacientes deixavam de ter convulsões após um período de jejum.

Começaram então a eliminar, por tentativa erro, diferentes alimentos das refeições diárias dos seus pacientes. Quando retiraram os hidratos de carbono, notaram que havia, nalguns casos, uma redução drástica nas convulsões. Com o avanço da medicina e a criação de novos medicamentos e tratamentos, a dieta caiu em desuso.

Em 1990, porém, voltou a ganhar destaque quando Charlie, um dos filhos do realizador de cinema Jim Abrahams, foi diagnosticado com epilepsia. Após várias tentativas falhadas para controlar a doença, começou a seguir este regime alimentar. O realizador partilhou, no programa norte-americano “Dateline“, como vivenciou tudo isto, e fez ainda um filme baseado na sua experiência. “Juramento do Amor” foi lançado em 1997 e contou com Meryl Streep num dos principais papéis.

O realizador e a mulher criaram também a Fundação Charlie, que tem como objetivo divulgar e apoiar o uso da dieta cetogénica para fins terapêuticos. A dieta encontra-se neste momento a ser alvo de vários estudos científicos, uma vez que há algumas teorias de que possa ser eficaz no combate a vários tipos de cancro ou no tratamento do Alzheimer. Ainda assim, há quem alerte para possíveis riscos na eliminação dos hidratos de carbono e aumento no consumo de gorduras.

Hoje em dia a dieta Keto é uma referência nos planos alimentares ricos em proteínas e gorduras a dieta Banting é conhecida pelas mesmas características, especialmente na África do Sul. Embora tenham nomes diferentes, as duas são semelhantes pois têm objetivos em comum: eliminar o consumo de hidratos de carbono e açúcares refinados e aumentar o consumo de gorduras e proteínas.

No entanto, e de acordo com o site “Nutriseed“, a grande diferença entre a duas é o objetivo final de cada dieta. Se no caso da dieta cetogénica o objetivo final é fazer com que o corpo entre no processo de cetose, já na dieta Banting a cetose é uma consequência do tipo de alimentação que é efetuada. Não há, portanto, obrigatoriedade de estar continuamente nesse processo.

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