Margaret Drabble: “Considero que o duque de Edimburgo, aos 97 anos, é demasiado velho para conduzir”

Com 50 anos de carreira e 79 de idade, a MAGG falou com a autora inglesa sobre o egoísmo do envelhecimento, e também sobre o medo da morte.

Margaret Drabble coloca muito de si nas suas personagens. Em "Sobe a Maré Negra", partilha com a protagonista a faceta de exploradora

João Martins / MAGG

Aos 79 anos de idade, e com uma carreira literária de cinco décadas, Margaret Drabble faz uma estreia: “Sobe a Maré Negra” (Quetzal Editores, 2019), o último romance da autora britânica, é o primeiro livro publicado em Portugal, País que apesar de ter visitado duas vezes, confessa “não conhecer bem”.

Com mais de 20 romances publicados, para além de contos, biografias e até argumentos de cinema, o último livro de Margaret Drabble é, acima de tudo, uma meditação sobre a morte e sobre o que é o envelhecimento, sem perder o humor — e é provavelmente o último romance a ser escrito pela autora, que confessa já não ter “paciência para escrever tantos caracteres”.

Com uma carreira recheada de numerosos prémios literários, Margaret Drabble tem também o titulo de “Dame Comander of the Order of the British Empire“, condecoração que considera “engraçada” e que a fez preocupar-se com questões mais mundanas: “Não sabia o que vestir e estava preocupada com a ida ao palácio, tinha medo de tropeçar”.

Tropeços à parte, o novo livro chegou à lista de best-sellers nos Estados Unidos, apesar de ter recebido um “não” inicialmente. “Eu sabia que a minha antiga editora não ia querer publicar este romance, ela é mais velha do que eu e odiou. Mas mudei de editora, foi publicado e fez imenso sucesso, o que me deu um gozo enorme”.

A MAGG falou com a autora sobre este lançamento, numa conversa onde a morte foi tema presente, mas também o processo de envelhecimento, a capacidade de resiliência das mulheres e até a eutanásia.

A conversa com a autora decorreu no Eurostar Letras, em Lisboa, um dia antes de Margaret Drabble regressar ao Reino Unido

João Martins / MAGG

O que a levou a abordar o tema do envelhecimento neste livro, “Sobe a Maré Negra”, especificamente o processo de envelhecimento de uma mulher?
Bom, eu sempre escrevi sobre a minha geração. Quando tinha 20 anos, escrevia sobre pessoas nos seus vintes, quando tinha 50, abordava essa faixa etária, e assim sucessivamente. E achei que este era o tópico que mais me rodeava. Fui buscar muita coisa ao que ouvia das conversas dos meus amigos, por isso acabou por ser uma escolha natural.

Vai buscar muita inspiração às pessoas que a rodeiam?
Sim, claro. E também à geração em si, tenho imensas pessoas que me escrevem a descrever os seus problemas, que vão mudando ao longo dos anos, bem como os interesses. Acho que acabo por refletir nos meus livros aquilo que me chega.

Baseada nessa mesma informação que chega a si, quais é que considera serem os maiores problemas das pessoas na faixa dos 60, 70 anos?
Para os homens, é a reforma. Para as mulheres, é aprender a reinventarem-se, conseguirem manter as suas vidas interessantes. Depois claro que existem outros problemas, como doenças e falta de mobilidade. No meu caso, continuo a conseguir movimentar-me, mas tenho amigos que lidam com esse problema.

Acaba por ser interessante abordar como é que as pessoas lidam com as diferentes fases da sua vida, como se adaptam a diferentes realidades ou como lidam com a perda, seja de amigos, dos pais. Mas as coisas são assim.

“As pessoas que têm menos medo [da morte] são aquelas que acreditam que fecham os olhos e tudo acaba”

Falando da morte, como é que se lida com a perda de pessoas do nosso círculo de amigos, com a mesma idade que nós, por vezes até mais novas?
É verdade que quando perdemos pessoas da nossa faixa etária começamos a ver o caminho que se segue, mas eu não me preocupo muito comigo, estou demasiado ocupada a preocupar-me com as pessoas que me são chegadas. Mas acho isso positivo, não creio que seja bom estarmos preocupados connosco próprios. Confesso que o facto de ter estado sempre preocupada com terceiros fez com que nunca pensasse muito na minha saúde ou na minha sobrevivência — e ainda bem.

Isso leva-me a outra questão: porque é que acha que a morte é tão assustadora para a maioria das pessoas?
Tem a ver com o desconhecido, não sabemos para onde é que estamos a ir, é território desconhecido. Acho que algumas pessoas têm simplesmente medo de que chegue o fim, querem continuar a viver.  Tive um amigo ator que, nos últimos tempos de vida, de cada vez que alguém o visitava, dizia sempre: “Estou preparado para ir, mas não quero perder nada”. Eu não penso dessa forma, tive uma vida longa, que foi, no panorama geral, boa.

Poderá ser mais fácil lidar com a morte se formos pessoas crentes, se acreditarmos que existe algo mais?
Acho que sim, mas questiono-me com que intensidade é que mesmo os mais crentes acreditam na ideia de algo mais, porque também os vejo muito assustados com a morte.

Acho que as pessoas que têm menos medo são aquelas que acreditam que fecham os olhos e tudo acaba, sendo que se acreditarem no céu e no inferno, por exemplo — agora já não há muito essa noção, mas em gerações anteriores o inferno era algo muito presente —, isso também lhes causa tormento, a par do conforto.

No livro, pode ler-se a seguinte passagem: “Não se pode dizer que um homem é feliz até que morra”. O que é que esta frase significa para si?
Confesso que não me consigo lembrar de quem foi a pessoa que a disse em primeiro lugar — sei que era alguém grego —, mas resolvi colocá-la no livro devido à ideia que transmite, de que os últimos meses ou anos da tua vida pode anular os efeitos de tudo o que aconteceu até esse momento. Toda a felicidade, ou sucesso e prosperidade de uma vida, que é algo muito mais importante para algumas pessoas, pode desaparecer no final.

Podes ter tido uma vida recheada de sucesso, e depois morres a saltar do teu iate porque ficaste falido. Existem inúmeros casos de pessoas que morreram em circunstâncias terríveis e acabaram com a própria vida porque os seus negócios entraram em colapso  — olhemos para a crise de Wall Street, por exemplo; esse tipo de coisas acontecem. Ou seja, sempre foste feliz, e depois acontece algo de terrível no final e a tua felicidade acaba sem que o tivesses previsto.

As doenças também entram nessa “categoria”.
Sim, as doenças são a mesma situação. És uma pessoa saudável e de repente, do nada, uma doença atinge-te na meia idade, ou mesmo quando és mais novo. Nunca sabes quando uma situação dessas pode chegar.

Também no livro, escreve sobre o processo de envelhecimento ser egoísta. Acredita que, à medida que envelhecemos, nos tornamos pessoas mais egoístas?
Algumas pessoas, não todas, tornam-se egoístas, mais interessadas em se protegerem, fazem questão de não lidarem com coisas desconfortáveis. No fundo, até mais do que egoísmo, acredito que seja um processo de auto-proteção.

Mas muitos tornam-se egoístas com as pequenas coisas: querem comer determinadas coisas, não querem fazer favores para outras pessoas, ficam um pouco absorvidos nos seus pequenos prazeres, digamos assim. Não estou a dizer que isto é uma verdade absoluta ou que acontece a todas as pessoas, mas acontece a algumas, isso é verdade.

Está provado que as mulheres vivem mais anos do que os homens. Para uma mulher, a velhice pode ser encarada um processo libertador?
Para muitas mulheres, penso que sim. Quando uma mulher foi casada, teve filhos e responsabilidades inerentes a esses papéis, a velhice pode ser vista como uma nova oportunidade da vida. Podem viajar, podem fazer as coisas que realmente lhes apetece, podem escolher colocar-se a si em primeiro lugar.

Não acho que seja um processo libertador para todos, mas sem dúvida que o é para algumas mulheres, e para essas pessoas existe a sensação de que podem adaptar-se a um futuro diferente, no qual estão em controlo.

Recordo-me de ouvir uma mulher famosa na rádio, não sei quem ao certo, dizer que agora podia ir para a cama à hora que queria, comer aquilo que mais gostava. Disse que sentia falta do marido, mas que agora tinha a sua própria vida.

Acredita que as mulheres envelhecem melhor do que os homens?
Biologicamente, sim, os homens são mais atacados por doenças, têm mais problemas físicos com que lidar. Mas acho que as mulheres são mais resilientes porque estão habituadas a lidar com várias circunstâncias fora do seu controlo.

É claro que isto é uma generalização, mas acho que os homens estão mais habituados a controlar tudo. E quando o perdem, não sabem como se adaptar. Acredito que as mulheres estão mais habituadas a isso, a mudarem e a adaptarem-se a novas circunstâncias.

Uma frase que achei curiosa no livro foi quando uma das personagens afirma que as pessoas vivem mais do que aquilo que deviam. Partilha desta ideia?
Bem, é verdade que há pessoas que vivem mais anos do que aqueles que têm qualidade de vida, para usar aqui um cliché. E muitas pessoas são mantidas vivas através de processos médicos, todos conhecemos casos de pessoas que continuam vivas porque estão ventiladas, ligadas a máquinas, e muitas nunca recuperam a consciência.

Margaret Drabble casou duas vezes e foi mãe de três filhos. Rebecca, a única filha da autora, faleceu em abril de 2017, vítima de cancro

João Martins / MAGG

Questiono-me se isso é vida. Mas depois ouvem-se falar de casos miraculosos, o que acaba por confundir tudo e faz com que estas decisões sejam muito difíceis para todos os envolvidos. Ninguém quer desligar as máquinas, a família não quer essa responsabilidade.

Tenho muita empatia pelos pais que tentam de tudo para manter os filhos vivos, quando situações destas sucedem com crianças e bebés, e às vezes acontecem recuperações fantásticas. Mas honestamente, quando falamos de alguém com 80 anos, não entendo a ideia de ter estas medidas extraordinárias para que essa pessoa se mantenha viva, a vida não vai melhorar.

A esperança média de vida em Portugal é de 81 anos, em média.
Atenção, não é o número que é importante, mas sim a saúde, se és uma pessoa ativa e saudável. E claro que considero que o duque de Edimburgo, aos 97 anos, é demasiado velho para conduzir — acho que não é uma questão de quão capaz te consideras, mas sim do exemplo que deves dar. Não acho que se deva conduzir após os 90 anos, por exemplo.

Qual é a sua opinião quanto à eutanásia?
Sou a favor da morte assistida, se a tua vida chegou a um ponto em que não consegues retirar o mínimo de prazer em qualquer circunstância, não consegues sequer tirar prazer de uma refeição, não tens mobilidade. Se estiveres a viver com dores constantes, ainda é mais válido que possas decidir-te por uma morte assistida. Nessas condições, acho que deves ter o poder de “desligar a tua máquina”.

Tem de ser uma escolha própria, tem de se ter a certeza que é uma decisão pessoal e que essa pessoa não foi convencida ou influenciada para tal. Tenho muito respeito por esta escolha, mas trata-se de uma escolha ilegal no meu país, e acho que não deveria ser assim.

“Não faço muitos amigos”

Há muito de si nas suas personagens? Neste livro, o que é que partilha com elas?
Sim, coloco muitas características minhas nas personagens. Neste romance em particular, diria que partilho o prazer que a Fran tem em conduzir, conhecer coisas e locais novos, a sua faceta de exploradora. Partilho o amor de Josephine pela literatura e o desejo que sente em ensinar coisas aos outros, mas também em aprender.

Eu própria, agora que estou mais velha, tenho imenso prazer em ter aulas, frequentar cursos de pintura, por exemplo. Gosto de estar rodeada de pessoas com um objetivo comum, de aprender coisas novas.

"Sobe a Maré Negra" (18,80€) é o primeiro grande lançamento da Quetzal em 2019 e está nas livrarias desde 11 de janeiro

João Martins / MAGG

Acha que essa aprendizagem numa idade mais avançada pode ser uma ferramenta para lidar com o envelhecimento?
Certamente que sim. Frequentar aulas é muito satisfatório, conhecer pessoas novas, perceber que algumas são muito inteligentes, outras nem tanto [risos]. Acho essa interação muito interessante, aprendes coisas nas aulas, seja qual for o tópico do curso, mas acabas por aprender muita coisa sobre outros seres humanos também. Não faço muitos amigos, mas conheço muita gente e tenho discussões interessantes. Gosto muito disso.

Isso é curioso: é-lhe difícil fazer amigos?
Com a idade, tornas-te mais criteriosa nas escolhas, e eu sou muito crítica com as pessoas. Preocupo-me muito com o quão dependentes as pessoas podem ficar. Se faço um amigo novo, gosto de saber que essa pessoa é independente e não precisa de mim o tempo todo, já tenho muito com que me preocupar.

Ao longo da sua carreira literária, que já tem 50 anos, escreveu romances, contos, não-ficção e até argumentos para cinema. Consegue eleger um estilo favorito?
Romances, sem dúvida.

Gostava de escrever a sua biografia?
Não.

E se alguém escrevesse um livro sobre a sua vida?
Também não queria, de todo.

Este livro, que é o seu primeiro romance publicado em Portugal, foi editado há dois anos no Reino Unido. Já tem planos para o seu próximo projeto?
Acho que este será o meu último romance, já não tenho a paciência para escrever tantos caracteres. Prefiro fazer coisas mais curtas, contos, também costumo fazer jornalismo literário, e acho esse trabalho muito satisfatório, fico feliz com isso.

Texto de Catarina da Eira Ballestero, fotografia de joaomartins.
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