É um dos métodos contracetivos mais antigos — surgiu nos EUA na década de 60 —, e na era do anel vaginal, implante e DIU, continua a ser o mais popular. No primeiro inquérito português à fecundidade, realizado em 1980, 22% das mulheres usava a pílula. Dez anos depois o número subiu para 60%, em 2015 os dados apontavam para um total de 94%.

Apesar da popularidade, o método contracetivo oral continua a levantar muitas dúvidas. Se por um lado começa a discutir-se o lado negro da pílula, e as suas possíveis desvantagens, por outro surgem cada vez mais mitos associados à sua toma. Afinal, engorda ou não engorda? E a toma prolongada pode dificultar uma futura gravidez?

A MAGG reuniu 15 dúvidas frequentes sobre a pílula. Do que fazer em caso de esquecimento até às vantagens e desvantagens deste método contracetivo, a ginecologista Bercina Candoso responde a todas as questões.

1. Quando nos esquecemos de tomar um comprimido, devemos tomar dois no dia seguinte?

Se se esquecer de tomar o comprimido até 12 horas depois da hora habitual, deve tomar esse comprimido — ou seja, se a sua hora habitual da toma da pílula for às 22 horas, então deve tomar o comprimido às 10 horas, e repetir às 22 horas.

No caso de ultrapassar as 12 horas, deve passar esse comprimido à frente. Ainda assim, alerta a ginecologista Bercina Candoso, isto pode afetar a eficácia do método contracetivo. Deve continuar a tomar os restantes comprimidos até ao fim da embalagem apenas para manter a regularidade menstrual.

“Ao não tomar um comprimido, é possível que tenha pequenas perdas de sangue, ao qual se dá o nome de spotting menstrual — sangue escuro e em poucas quantidades”, explica a especialista.

2. E se se esquecer de tomar dois comprimidos, deve continuar ou parar de tomar a pílula?

Para Bercina Candoso, este é um dos casos que requer mais atenção. A ginecologista julga ser mais indicado “interromper a toma, porque não faz sentido tomar os comprimidos — nestes casos, seguramente que a mulher vai ter uma hemorragia, sendo que essa hemorragia não vai contar, apenas a menstruação que vier no mês seguinte.”

Continuar a tomar a pílula, portanto, “é opcional”, uma vez que vai estar sempre posta em causa a eficácia da mesma.

3. A pílula deve ser tomada todos os dias à mesma hora?

“Preferencialmente, o que se recomenda é que se tome todos os dias à mesma hora”, afirma a ginecologista. No entanto, se for tomada com uma ou duas horas de diferença, não há problema. Desde que nunca se ultrapasse as 12 horas, salienta Bercina Candoso, “a eficácia é a mesma.”

4. Deve utilizar-se outro método contracetivo durante a semana de intervalo da pílula?

“Não, não há necessidade nenhuma”, esclarece a ginecologista. A semana de intervalo existe precisamente porque não há risco de engravidar se a pílula for tomada de forma correta.

5. E tomar a pílula sem parar, ignorando o intervalo semanal, faz mal?

Existem várias opiniões acerca deste assunto, explica Bercina Candoso. Uns acreditam que “as mulheres até podem fazer isso indefinidamente, e há países onde até assim aconselham, para a mulher não menstruar”. No nosso País, é mais ou menos consensual entre todos os ginecologistas que, esporadicamente, fazer isso não tem qualquer contra-indicação.

6. Depois da pausa da pílula, deve retomar-se no 7.º ou 8.º dia?

No 8.º. “Se a pílula for começada a um domingo e tomada todos os dias, vai acabar a um sábado. A partir daí sabemos sempre que devemos começar ao domingo e acabar ao sábado. Se tomar direitinho, vai bater sempre certo.”

7. Quando se deve tomar o primeiro comprimido de sempre? No primeiro dia de menstruação ou no último?

A ideia é que se comece a tomar o primeiro comprimido no primeiro dia da menstruação.

8. É mesmo verdade que a toma prolongada da pílula pode dificultar uma gravidez futura?

Não, é um mito: “Não há evidência clínica que justifique esse tipo de conversa”, diz Bercina Candoso.

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9. Que tipo de medicamentos têm influência na eficácia da pílula?

A maior parte dos antibióticos afeta o efeito da pílula. Existem, esporadicamente, “alguns medicamentos que podem alterar o seu êxito, nomeadamente os antiepilépticos”, explica a ginecologista, acrescentando “mas não todos.”

Bercina Candoso é ginecologista/obstetra do Hospital dos Lusíadas no Porto, e é membro dos corpos diretivos da APNUG (Associação Portuguesa de Neurourologia e Uroginecologia), desde 2007.

10. A toma da pílula pode fazer mal?

Bercina Candoso explica que, na sua perspetiva, “a pílula é o método contracetivo mais aconselhado nas idades jovens, precisamente porque a mulher não tem grande risco cardiovascular.”

Até aos 35-39 anos, a especialista aconselha a toma da pílula. A partir dessa idade, “quando a mulher já cumpriu a sua vida obstétrica, pode utilizar métodos contracetivos que tenham muito menos risco cardiovascular do que a pílula, precisamente porque a partir de determinada idade esse risco aumenta, bem como os níveis de colesterol e tensão.”

Além disso, a ginecologista acrescenta: “Em relação à pílula, é importante dizer que esta diminui a lubrificação”. Mais: é “um comprimido que tem metabolização hepática e, ao tê-la, pode agredir o fígado, embora em raros casos, e ser responsável por alterações hepáticas que podem ir de ligeiras a graves.”

Alternativas à Pílula

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  • Anel Vaginal
  • Implante Hormonal
  • Pílula sem estrogéneos
  • DIU/SIU

11. Deve mudar-se de pílula ao fim de alguns anos porque o organismo se habitua?

Só se deve mudar de pílula quando a mulher começa a apresentar alguns sinais de que o organismo não está a dar-se bem com aqueles comprimidos. Estes sinais podem traduzir-se em “sintomas como perda de sangue no meio da toma da pílula”, bem como “hemorragias que não aparecem e que causam preocupação nas mulheres de uma possível gravidez.”

Nestas circunstâncias, e perante cada doente, “devem tentar-se pílulas de formulações diferentes, para ver se o organismo se adapta melhor.” Se a pessoa se sentir bem com determinada pílula, pode continuar a utilizá-la toda a vida.

12. O que fazer se a menstruação aparecer antes de a pílula terminar?

Este é um dos casos em que se deve mudar de pílula, esclarece a ginecologista. “Quando começa a acontecer, se o padrão for repetitivo”, tem de se alterar o medicamento.

13. É verdade que a pílula engorda?

Este é outro dos grandes mitos relacionados com o método contracetivo. Por si só, a pílula não engorda. No entanto, “determinadas pílulas podem fazer, na segunda metade do ciclo menstrual, alguma retenção líquida, o que faz com que a mulher se sinta mais inchada”, explica a Bercina Candoso.

14. A partir de que mês é que a pílula faz efeito?

Se nunca tiver tomado a pílula, o ideal é tomar os primeiros 21 comprimidos sem correr riscos. A partir daí está perfeitamente segura. No primeiro mês recomenda-se outro método contracetivo, nomeadamente o preservativo.

Sem pílula, preservativo ou DIU. É possível não engravidar de uma forma natural

15. Para além de ser aconselhada como método contracetivo, em que outros casos é benéfico tomar a pílula?

Determinadas pílulas são utilizadas quer para o acne, quer para quistos nos ovários. Para além disso, são aconselhadas para pessoas que têm queda de cabelo e problemas de metabolização de androgéneos.