Montadas nas suas bicicletas, duas crianças saem de casa para brincar sabendo que têm de respeitar a única regra imposta pelos pais: estarem em casa às 17h30. Os ponteiros do relógio vão girando, o dia vai dando lugar à noite e não há sinal dos miúdos ou das bicicletas. Teme-se o pior: quem os levou e por que motivo? É este o ponto de partida da nova temporada de “True Detective”, a série sobre crime e investigação da HBO que regressou à televisão a 13 de janeiro depois de uma pausa de quatro anos.

A história passa-se em Ozarks, no Estados Unidos, ano de 1980, e tudo muda quando um desaparecimento depressa se transforma num homicídio. É que uma das crianças desaparecidas aparece morta no meio da floresta com as mãos juntas em forma de prece.

O crime, aparentemente aleatório, parece estar ligado a um qualquer ritual religioso (um pouco à semelhança do que aconteceu na primeira temporada), a julgar pelas figuras encontradas junto ao corpo.

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É nos restantes episódios que os detetives Wayne Hays (Mahershala Ali) e Roland West (Stephen Dorff) tentam resolver o mistério de uma investigação que é apresentada em três linhas temporais: em 1980, quando tudo acontece; em 1990, quando o caso é reaberto por surgirem novas provas; e, finalmente, em 2015, quando Hays é entrevistado para um documentário de crime — dando a entender que este foi um caso muito mediático na região.

Apesar de ser uma série de televisão, há vários detalhes na nova temporada que parecem ter sido inspirados em crimes reais que aconteceram entre a década de 80 e 90. Mostramos-lhe quais.

O desaparecimento de uma criança causou o pânico em 1989

Jacob Wetterling, o irmão e um amigo foram sequestrados em 1989 enquanto andavam de bicicleta pelas ruas do bairro onde viviam, em Minnesota. Embora dois dos miúdos acabassem por ser libertados pouco tempo depois, Jacob continuaria desaparecido e a sua morte só viria a ser confirmada cerca de 27 anos depois, quando um dos maiores suspeitos do crime a confessou.

Mas o seu desaparecimento causou o pânico em Minnesota, o suficiente para instaurar a ideia de que todos os estranhos eram ou podiam ser perigosos. Os pais limitavam o tempo que os seus filhos andavam na rua e, quando isso acontecia, muito raramente se encontravam sozinhos e sem supervisão.

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Danny Heirinch, o autor confesso do crime, foi condenado a 20 anos de prisão por um crime que demorou várias décadas a ser resolvido. Na série, as duas crianças são raptadas depois de saírem de casa de bicicleta e, 35 anos depois, parece não haver um desfecho à vista.

Um crime difícil de explicar que parece ter acontecido noutro local

Quando, em 1987, dois adolescentes foram encontrados sem vida nas linhas ferroviárias em Arkansas, nada fazia prever que se pudesse tratar de um crime macabro e difícil de explicar.

Ao início, a polícia desconfiava de uma overdose mas depois de várias investigações, a conclusão era óbvia: aqueles rapazes tinham sido assassinados num outro local que não aquele onde foram encontrados — tal como Will, a primeira vítima da nova temporada da série.

Os paralelismos com “True Detective” são vários. O crime aconteceu em Arkansas, a vítima foi mudada de local e a investigação foi feita, não só pela polícia, mas também por uma figura que acabou a lançar um livro sobre todo o caso polémico.

Na série, essa figura é encarnada por Amelia Reardon (Carmen Ejogo), que conhece Hays durante as investigações (e com quem casa vários anos depois), e que publica um livro sobre o desaparecimento das duas crianças. Tal como em “True Detective”, ainda hoje não há desfecho para o crime e não foram encontrados quaisquer suspeitos.

A morte de três adolescentes e o “pânico satânico”

Em 1993, três adolescentes do estado do Arkansas foram acusados de matar três crianças de 8 anos. O crime recebeu a atenção dos meios de comunicação na década de 80 e 90, à boleia de outros crimes similares orquestrados por Charles Manson ou Ted Bundy.

A polícia, os media e os norte-americanos começaram a acusar aquilo que hoje se conhece como sendo o fenómeno do “pânico satânico” — em que a ansiedade e o medo da violência originou uma espécie de crítica ou desdém face a vários elementos da cultura popular, como o heavy metal ou os jogos de roleplaying muito famosos entre os adolescentes.

Este pânico também existe na série, mais especificamente no primeiro episódio quando os detetives interrogam um suspeito por ter vestida uma camisola de Black Sabbath (que pode ser traduzido para missa negra), uma das bandas mais conhecidas e importantes de heavy metal enquanto género musical

“Isso tem alguma coisa a ver com o satanismo?”, pergunta um dos detetives que parece não ficar convencido com a resposta que recebe. “Não, é só uma banda. É só música.”

Os crimes e a relação com a Igreja e o oculto

Quando Will Parcell, na série, é encontrado sem vida com as mãos em forma de prece e rodeado de figuras religiosas, o instinto imediato é o de associar a sua morte a um qualquer ritual religioso.

Tal como na primeira temporada, Nic Pizzolatto (“Os Sete Magníficos”), o realizador, parece querer demonstrar o seu ceticismo face à religião — muito devido ao facto de crescido numa família crente e conservadora, tal como contou ao “The Daily Beast”.

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“Não sou religioso mas cresci numa família muito religiosa. O tipo de família que acreditava que o Apocalipse ia acontecer antes de 1990 e em visões da Virgem Maria. Lembro-me de ver os meus pais e o seu grupo de crentes a rezar. E cada vez que fechavam os olhos diziam ter uma visão do arcanjo Miguel e a sua espada flamejante”, revelou.

“Em criança, assustou-me imenso ver como aqueles adultos que controlavam o meu mundo pareciam não conhecer a diferença entre imaginar coisas e ter visões. Não sabiam a diferença entre pensar em alguma coisa e ouvir uma voz.”

Resta saber se o assassino da terceira temporada de “True Detective” também será um fanático religioso motivado pela sua crença e por uma ideia distorcida do mundo.