Guerra de Séries #2. Como é que alguém gosta de “Friends” quando existe “Seinfeld”?

"Epá, estás mesmo desatualizada". Não. Há coisas que não perdem atualidade, que nunca vão deixar de ter piada, que vão sempre valer a pena.

"My name is George, i'm unemployed and I live with my parents"

Todos temos aquela série que nos prendeu (ou prende) ao ecrã horas infindáveis sem uma ponta de tédio. Aquela que não perdemos por nada deste mundo, que nos faz ansiar pela próxima temporada que demora sempre mais do que é suportável, ou que recordamos com indisfarçável nostalgia enquanto imploramos aos deuses que tenham a ousadia de a retomar. Mas qual é a melhor série de sempre? Aqui, como em várias questões de gosto, o consenso é inatingível. A pensar nisso, a MAGG lançou uma Guerra de Séries, em que os colaboradores da revista defenderão todas as semanas, com todas as armas possíveis, racionais ou nem por isso, a série da sua vida. Passamos a palavra à jornalista Ana Luísa Bernardino.

“The sea was angry that day, my friends”. Acreditem, só de escrever isto já me estou a rir. A citação, que diz “o mar estava zangado nesse dia, meus amigos”, é de George Costanza (Jason Alexander), um dos quatro personagens principais de “Seinfeld“. É o meu preferido, apesar de todos — sem exceção e incluindo os pais dele — serem bons. Bem, o Newman (Wayne Knight) irrita-me um pouco, mas acho que foi esse o objetivo de  Larry David e de Jerry Seinfeld, quando criaram a série em 1989 (foi transmitida até 1998).

Neste episódio da quinta temporada, em mais um engate falhado, George, o maior e melhor aldrabão da história da televisão, faz-se passar um um biólogo marinho — a realidade é que é desempregado e vive com os pais. Azar dos azares: enquanto passeia de mãos dadas na praia com a sua pretendente, alguém grita “há por aí algum biólogo marinho?”. E lá vai ele, careca, baixinho, gordinho, sem sapatos e de calça arregaçada para dentro de água, para salvar uma baleia — e a sua própria pele.

Isto já é bom, mas a parte em que ele relata a bem sucedida aventura (coisa rara) — no Monks, o café onde passam a vida, e onde surgem quase sempre os diálogos mais engraçados — ainda é melhor. “In that moment, I was a marine biologist” (“naquele momento, eu era um biólogo marinho”). A frase ecoou na minha cabeça durante alguns minutos. Fez-me cócegas. Deixou-me feliz.

“Seinfeld” é uma sitcom dos anos 90, que mostra a vida do humorista Jerry Seinfeld (um dos criadores da série, que aqui assume a sua identidade) e dos amigos. É descrita como sendo “sobre nada”, o que é a mesma coisa do que dizer que é sobre tudo. Foi construída com base nas vivências de quem a escreveu — tanto que, por exemplo, Kramer (Michael Richards) é inspirado num vizinho de Larry David que, por sua vez, foi quem inspirou George.

Com Nova Iorque como pano de fundo, em 20 minutos, e ao longo de nove temporadas, os personagens (cujos pormenores de vida nunca são bem explorados — eles simplesmente existem) tocam em questões em que todos pensamos de forma muito abstrata, quase inconsciente, porque o politicamente correto não deixa que ganhem forma. Não tendo sido criado intencionalmente com esse fim, acaba por ser uma sátira hilariante à vida social, amorosa, profissional, familiar. À existência, no geral. 

É uma caricatura dos criadores da série e das pessoas que passaram pela vida deles. Mas também é uma caricatura de nós mesmos. Todos temos um pouco de Costanza, porque ninguém está livre da ansiedade, das neuroses e das trapalhices da vida. Mas também temos de Jerry Seinfled, o germofóbico, obcecado pela lógica e pela limpeza. Também somos um pouco Elaine (a incrível Julia Louis-Dreyfus), impulsiva, honesta, por vezes arrogante ou explosiva. E ainda de Kramer, que parece meio inapto, mas que, no fundo, é do mais relaxado e pragmático que existe (como se vê no vídeo em baixo, a partir do segundo 18). Nós somos o “Seinfeld”, aceitem ou não.

Team George VS. Team Kramer

Todos nos identificamos mais com um personagem. As equipas mais substânciais são o team Kramer ou team George. Eu sou team George. Aqui ficam algumas frases geniais, proferidas pelo mesmo, que guardo no meu telemóvel e que consulto frequentemente porque me fazem sempre rir.

  • “If you look annoyed all the time, people think that you’re busy” (“Se pareceres chateado o tempo todo, as pessoas vão achar que estás ocupado”);
  • “If she can’t find me, she can’t break up with me” (“Se ela não me conseguir encontrar, não consegue acabar comigo”);
  • “My name is George, i’m unemployed and I live with my parents” (Chamo-me George, estou desempregado e vivo com os meus pais);
  • “It’s not a lie, if you believe in it” (Não é uma mentira, se tu acreditares”);
  • “I don’t want hope. Hope is killing me. My dream is to become hopeless. When you ‘re hopeless, you don’t care. And when you don’t care, that indifference makes you look attractive” (Não quero esperança. A esperança está-me a matar. O meu sonho é não ter esperança. Quando nos tornamos sem esperança, não queremos saber. E quando não queremos saber, tornamo-nos mais atraentes”).

Vou levar a coisa mais longe e assumir que um dos meus passatempos preferidos é ver compilações de todos os momentos em que ele se faz passar por arquiteto (a sua profissão de sonho).

Ou a compilação com todos os momentos ao longo da série em que surge a empresa que ele inventa — a Art Vandaley.

E quem é que, num qualquer momento, não pensou que a vida está toda ao contrário? Que tudo aconteceu da forma oposta ao que tínhamos planeado?

“Seinfeld” faz rir alto. Faz esquecer aquilo que nos chateia, mesmo nos dias em que chegamos a casa e só nos apetece chorar. Os 173 episódios dão-nos 20 minutos de puro divertimento, mas daquele que não é uma completa alienação. Mudou a forma como se fazem as sitcoms — apesar de nenhuma chegar aos seus pés. Por tudo isto, e muito mais, “Seinfeld” é a melhor série de sempre, mesmo num mundo onde existem “Os Sopranos”, “The Wire” ou “Six Feet Under”.

E com esta me vou, ‘cause “this pretzels are making me thirsty”.

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