Em redes sociais como o Instagram, deparamo-nos diariamente com publicações sobre alimentação, hábitos de vida saudáveis ou de como obter um certo tipo de corpo. Ou é uma celebridade que está a fazer publicidade a um produto para emagrecer, ou uma influencer que diz ter iniciado uma dieta sem glúten e sem lactose (juram que é mais saudável), ou ainda alguém com um corpo “perfeito” que diz ter descoberto um plano alimentar infalível.

A verdade é que muitas destas informações são, na maioria das vezes, transmitidas sem qualquer conhecimento e evidência científica, e por pessoas sem qualquer formação na área. Parece que estamos perante uma espécie de “fake news” da alimentação.

Mas há quem queira contrariar esta tendência. No Instagram têm surgido vários especialistas em nutrição, que criaram perfis com um claro objetivo: quebrar mitos e partilhar conhecimento com validade científica.

Mariana Soares Branco não acredita nos sumos detox, Margarida Santos diz que o óleo de coco no café não faz absolutamente nada e Hugo Amaro garante que comer hidratos a partir das 18 horas não engorda. A MAGG falou com 5 instagramers portugueses que usam as redes sociais para acabar de vez com os mitos.

Não, não vale a pena adicionar óleo de coco ao café

Margarida Santos é médica e tem quase 23 mil seguidores no Instagram

Nasceu na Bélgica onde viveu durante 15 anos, depois foi para Pequim na sequência da mudança de trabalho do pai. Margarida Santos por lá ficou até completar o 12.º ano, altura em que decidiu vir estudar medicina para Portugal, onde ainda tinha família. “Sempre gostei muito da área da saúde e sempre quis ser médica”, diz à MAGG a jovem de 25 anos.

Médica de profissão, e a tirar neste momento o mestrado em Nutrição Clínica, Margarida Santos é da opinião que a alimentação e a saúde são duas áreas que se complementam. Estava no segundo ano da faculdade quando criou a página de Instagram, que conta com quase 23 mil seguidores.

“Na altura queria perder peso e comecei a interessar-me por receitas, por perceber como é que as dietas funcionavam”. Posteriormente criou um blogue onde partilhava as receitas que mais gostava, mas que fossem acessíveis, simples e saudáveis.

“O meu objetivo primário é a literacia na saúde, ou seja, fazer com que as pessoas saibam o suficiente para tomarem escolhas bem fundamentadas. Não é tanto dar dicas e conselhos, mas antes ceder-lhes ferramentas para serem mais saudáveis, com informação fidedigna e baseada em evidência”, afirma a médica.

O que me chateia nestes mitos é que as pessoas se agarram ao mínimo detalhe sem primeiro olharem para aquilo que é realmente importante: comer de uma forma normal e equilibrada”

Margarida Santos admite que durante algum tempo acreditou em muitos dos mitos que circulam nas redes sociais, nomeadamente no Instagram. “Essas dietas milagrosas, o detox, entre outros, que são aliciantes para qualquer pessoa, inclusive para mim”. Quando começou a pesquisar, percebeu que a maioria das informações que lia não era bem fundamentada, nem correspondia à verdade. Optou por tomar uma posição: “Isso começou a fazer-me muita confusão, portanto decidi ir falando das coisas para espalhar a palavra acerca de algumas ideias erradas que nós temos”.

Há muitos mitos nas redes sociais. Margarida Santos dá alguns exemplos: “Todas as dietas para perder peso muito rápido ou o óleo de coco — em que as pessoas pensam que ao adicioná-lo ao café, por exemplo, irá trazer alguma diferença”.

Ainda assim, o “maior mito de todos” é a ideia de que para existir uma perda de peso é necessário passar fome e gastar dinheiro em suplementos. “O que me chateia nestes mitos é que as pessoas se agarram ao mínimo detalhe sem primeiro olharem para aquilo que é realmente importante: comer de uma forma normal e equilibrada”.

“As pessoas não sabem o que devem comer e o que têm de fazer”

Carolina Reis não se considera uma influencer, mas tem uma voz muito ativa no que diz respeito ao desmistificar a alimentação no Instagram

Inicialmente, na sua página de Instagram, Carolina Reis partilhava a alimentação que fazia, os treinos e as receitas. Hoje tem mais de 17 mil seguidores. “Com o meu crescimento pessoal, e principalmente profissional, fui-me apercebendo que havia muitas dúvidas. Foi aí que me tornei mais ativa, porque percebi que existem imensos mitos, medos e partilhas erradas relacionados com a nutrição”, conta à MAGG a lisboeta de 24 anos.

Carolina Reis é enfermeira de profissão e está, neste momento, a terminar o mestrado em Nutrição Clínica. Sempre quis ser enfermeira e a área da nutrição esteve também presente como segunda escolha. As áreas acabaram por se complementar. Através das consultas que fazia ao domicílio enquanto enfermeira notou que existiam algumas lacunas. “Percebi que existe uma grande falha entre os profissionais, seja da área da enfermagem, medicina ou nutrição. As pessoas não sabem o que devem comer e o que têm de fazer”.

A enfermeira não se considera uma influencer, mas tem uma voz muito ativa no que diz respeito a desmistificar a alimentação no Instagram. Por isso, sente também que tem uma grande responsabilidade. “Fui criando uma certa base de confiança porque me esforço para passar boa informação, para poder fundamentar e melhorar a minha opinião e atuação”, refere.

“O meu objetivo [com a página de Instagram] é sempre passar informação fundamentada, mas também descomplicar. Também pretendo passar a ideia de que é possível fazer uma reeducação de bons hábitos de vida saudável sem serem extremistas, sem ser necessário treinar X horas por dia ou gastar rios de dinheiro com suplementação “, acrescenta. O seu grande objetivo é, no fundo, “promover a saúde”.

São muitas as dúvidas que diariamente lhe chegam por seguidores que veem informação incorreta em publicações ou mesmo que é transmitida por profissionais. Questões relacionadas com o consumo de fruta ou com os hidratos de carbono são as mais frequentes por quem confia no seu trabalho online.

Em relação aos mitos que circulam nas redes sociais, a autora do blogue Viver com Sentido não tem dúvidas: “[dizerem que] as calorias não contam; que ser saudável é só comer de forma saudável; que a proteína faz mal ou a utilidade dos detox”.

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É perigoso qualquer pessoa poder falar sobre nutrição

Hugo Amaro é nutricionista e partilha quase diariamente informações sobre alimentação e treino.

Foi por volta dos 15 anos que Hugo Amaro começou a ter interesse pela área da nutrição, numa altura em que também tinha excesso de peso. Porém, antes de se licenciar em Ciências da Nutrição em 2017, ainda passou pelas engenharias. “Passado dois anos percebi claramente que não era o meu desejo e que o meu percurso não passava por ali”, revela à MAGG o jovem de 25 anos.

Com quase dez mil seguidores no Instagram, o nutricionista natural de Lisboa não tinha, inicialmente, nenhum objetivo com a criação da página. Partilhava apenas informação de cariz pessoal. Só depois de conhecer a namorada Carolina Reis é que começou a utilizar o perfil com outras finalidades. “Hoje em dia, o meu objetivo passa por dar a conhecer um pouco das ciências da nutrição de um modo prático e simples para o dia a dia das pessoas e também desmistificar grande parte da informação que vemos em relação à alimentação e ao fitness”.

As pessoas querem simplesmente ter atenção e receber louros por aquilo que não são e temos, neste momento — o que é bastante perigoso —, uma quantidade enorme de informação falsa e que não é credível”

Atualmente, partilha quase diariamente informações sobre alimentação e treino, sendo que foi algo que surgiu naturalmente. “Senti a necessidade de trazer a público o meu conhecimento e de conseguir transformar uma informação complexa em algo mais simples e consumível pelo público”.

O nutricionista considera que a troca de ideias nas redes sociais é “algo positivo”. Por outro lado, nem tudo é bom e o facto de qualquer pessoa poder opinar sobre nutrição é “perigoso”, uma vez que não existe reflexão sobre o que se partilha. “As pessoas não são críticas, não são autocríticas e não refletem, no sentido em que simplesmente só querem opinar. Não pretendem acrescentar informação”.

Comer hidratos de carbono depois das 18 horas, o uso de sumos para o chamado “detox” ao corpo ou o facto de o excesso de proteína fazer mal aos rins — são estes os principais mitos a circular pelo Instagram apontados por Hugo Amaro e que, na sua opinião, são graves.

“Temos boa informação, mas hoje em dia quem está a ganhar é, acima de tudo, e infelizmente, a má informação, os charlatões”, declara. “As pessoas querem simplesmente ter atenção e receber louros por aquilo que não são e temos, neste momento — o que é bastante perigoso —, uma quantidade enorme de informação falsa e que não é credível”.

Há muita informação disponível, mas pouco fundamentada

Margarida Beja é nutricionista e trabalha num hospital em Southampton, Inglaterra.

“A minha ideia é dar a conhecer um outro lado da nutrição com bom-senso e com sentido de humor, de um modo descomplicado e que seja acessível a todos. Acima de tudo, que eu consiga desmistificar alguns mitos, porque hoje em dia toda a gente fala de nutrição e as pessoas ficam confusas”. Quem o diz é Margarida Beja, nutricionista e autora do Instagram Em Banho Maria, que tem mais de cinco mil seguidores.

A jovem de 24 anos gosta de abordar “hot topics” — aqueles temas que suscitam muitas dúvidas nas pessoas. “Gosto de desconstruir e de mostrar que há uma estrutura, uma base a sustentar tudo isso”, explica à MAGG. Os temas surgem de acordo com o feedback que os seguidores lhe vão dando, mas não só. “Gosto muito de falar sobre comportamento alimentar. Também acho que há pouca gente a falar sobre essa vertente e penso que é importante sensibilizar para a importância de que a comida não é só uma forma de nutrição, é uma forma de prazer. Existe uma relação em torno da comida que muitas das vezes não é a mais pacífica”.

E penso que há um certo movimento de extremismos: ou fazes a dieta X, ou fazes a dieta Y. As pessoas não são vistas na sua individualidade”.

Margarida Beja recorda que sempre quis ser nutricionista. Uma situação pessoal — em que teve dificuldades em lidar com o seu peso e com a comida — fez com que o gosto pela área aumentasse. “Apaixonei-me pelo trabalho e pela intervenção, não para me controlar ou para aplicar os conhecimentos em mim, mas sim para aplicar isso nos outros”. Licenciou-se em Dietética e Nutrição na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa e atualmente trabalha como nutricionista num hospital em Southampton, Reino Unido.

Para além de tratar de temas relacionados com o modo como nos relacionamos com a comida, Margarida Beja também se dedica a desmistificar a alimentação no Instagram. “Achei que era uma área onde faltam pessoas que sustentem as suas informações. Vemos muita coisa nas redes sociais, mas vemos pouca coisa fundamentada. E penso que há um certo movimento de extremismos: ou fazes a dieta X, ou fazes a dieta Y. As pessoas não são vistas na sua individualidade”.

A nutricionista não tem dúvidas em afirmar que muitas das informações que são partilhadas nas redes sociais “não são verdade”. Por exemplo: a ideia de que uma dieta sem glúten é mais saudável. Ou a noção de que existem alimentos bons e alimentos maus; que para emagrecer é necessário deixar de comer hidratos de carbono; e ainda que é preciso fazer dietas restritivas ou recorrer a suplementos alimentares para perder peso.

“Se há coisa que gosto de fazer é dar conhecimento às pessoas. Não me considero influencer porque não tenho o patamar que outras pessoas têm, mas independentemente de ter ou não o poder de influenciar a opinião dos outros, dou a cara enquanto Margarida e enquanto profissional. Portanto, tenho de ter cuidado com o que digo”.

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Detox, dietas, “cheat meal” ou água com limão: alguns mitos

Mariana Soares Branco é médica. O perfil de Instagram conta com mais de 31 mil seguidores.

Natural de Lisboa, Mariana Soares Branco sempre colocou a medicina como uma hipótese, uma vez que o pai é médico. A página de Instagram surgiu no seu primeiro ano de faculdade, há sete anos, como um “escape”.

Atualmente o perfil conta com mais de 31 mil seguidores e conteúdos diferenciados. Tanto pode ser o outfit do dia, uma peça de roupa que comprou recentemente ou qualquer tema relacionado com a saúde ou os sumos detox. Foi este assunto sobre o qual falou mais “entusiasticamente” e que lhe valeu vários seguidores. A médica utiliza com mais frequência os Insta Stories para falar sobre estes assuntos.

Tal como muitas outras influencers, também foi abordada por marcas que vendem esse tipo de produtos. “A determinada altura achei que havia demasiada gente a aceitar e a fazê-lo. É algo que não tem lógica nenhuma, mas sobretudo porque não há benefícios provados para este tipo de programas”, conta à MAGG. “Senti-me quase na obrigação moral de, enquanto médica, alertar pelo menos as minhas seguidoras de que não valia a pena gastarem dinheiro nesse género de milagres nutricionais”.

Quando Maria Guedes, autora do blogue Stylista, por exemplo, publicou uma foto com um sumo detox na mão, Mariana Soares Branco reagiu perante os seus seguidores através do Insta Stories. E explicou que nada daquilo fazia sentido.

A médica é da opinião que, atualmente, é muito fácil qualquer pessoa “mandar meia dúzia de informações sobre nutrição”, sem possuir qualquer formação na área, e ter uma base de seguidores que põe em prática o que dizem. “É perigoso se for alguém que não estudou e que não sabe do que está a falar. E algo que acontece muito no Instagram é que as pessoas não aceitam ser minimamente contrariadas e tomam, muitas vezes, reparos que não são opiniões, mas sim evidência científica”.

Acho que a chave é haver, sobretudo, mais educação para a saúde e mais educação para a nutrição”

São muitos mais os mitos que Mariana Soares Branco aponta, para além do detox. No que diz respeito às dietas, considera que é necessário sensibilizar as pessoas de que as dietas não funcionam e, por outro lado, ensiná-las a fazer uma “reeducação alimentar”, algo que não é feito no Instagram.

A “cheat meal”, aquela refeição onde é possível comer sem olhar para as calorias, também é algo que, na sua opinião, não faz sentido. “As pessoas têm de ter noção que uma refeição teoricamente menos saudável pode ser saudável se estiver inserida numa alimentação em que tudo o resto é equilibrado”, explica. Existem ainda mitos relacionados com os benefícios da água com limão ou da “dieta do tipo sanguíneo”.

“Penso que este tipo de falsas informações eram fáceis de combater se existisse, de facto, uma boa educação para a saúde das pessoas. Acho que a chave é haver, sobretudo, mais educação para a saúde e mais educação para a nutrição”.