O festival falhado que cobrava 65 mil euros de entrada e que agora é um documentário da Netflix

O Fyre foi apresentado em Lisboa mas na altura tinha um conceito diferente. Um ano depois do evento, há dívidas e pessoas presas.

As vilas eram, na verdade, tendas sem eletricidade e com colchões totalmente encharcados

Tinha tudo para ser o evento da década mas acabou em fracasso, dívidas e vários processos judiciais. Falamos do Fyre Festival, um luxuoso festival de música que estava marcado para meados de abril e maio de 2017 numa ilha paradisíaca das Bahamas, que os promotores diziam ter pertencido a Pablo Escobar. O festival prometia uma experiência única com a presença de várias celebridades, como Kendall Jenner ou Drake, várias opções de comida gourmet e alojamento de luxo. Tudo isto parecia justificar o preço do bilhete, que podia chegar aos 65 mil euros.

Toda a publicidade ao evento foi feita nas redes sociais quando várias influenciadoras digitais utilizaram o Instagram para remeter os seus seguidores à página de compra de bilhetes do evento. No pequeno vídeo promocional, a organização prometia passeios de iate, concertos imersivos e a possibilidade de os festivaleiros pertencerem a uma espécie de elite. Afinal, o acesso à ilha era feito através de aviões privados.

Os bilhetes esgotaram em poucas horas mas, na verdade, nada daquilo era real. A suposta ilha nunca pertenceu ao traficante colombiano, as vilas luxuosas foram substituídas por tendas, Drake nunca foi contactado pela organização e a comida gourmet consistiu apenas em sandes de queijo com alface — tal como um dos lesados demonstrou na sua página de Twitter depois de ter chegado ao recinto.

No primeiro dia do festival estavam previstas as atuações de Blink-182, Major Lazer e Disclosure. Nenhum deles subiu ao palco. Um grupo de músicos locais tentou acalmar os ânimos. Mas era impossível: os 65 mil euros do bilhete não dava acesso a nenhuma experiência única como o vídeo promocional fazia antever.

As tendas não tinham eletricidade, os colchões estavam completamente encharcados devido às chuva intensas da noite anterior e ninguém podia sair da ilha a meio da noite. Na manhã seguinte, o festival organizado pelo rapper Ja Rule e pelo empresário Billy McFarland, foi adiado para uma data ainda por definir.

A explicação para o fracasso parecia óbvia para todos aqueles que já tinham lidado com McFarland: ninguém da equipa tinha qualquer tipo de experiência na organização de um festival de música.

E a verdade é que, quando o empresário e o rapper subiram ao palco da Web Summit em 2016, em Portugal, tinham apenas como objetivo apresentar a sua nova aplicação. Chamava-se Fyre e era uma espécie de Booking para contratar músicos para eventos privados. Nunca, em momento algum, o festival megalómano foi mencionado.

Além daqueles que compraram os bilhetes, outras pessoas também se sentiram enganadas. É que Billy McFarland conseguiu enganar e manipular vários investidores com o único objetivo de os levar a injetar dinheiro numa ideia que nunca teria pernas para andar. Para trás ficaram milhares e milhares de euros em dívida, vários funcionários e empresas ainda à espera do dinheiro que lhes foi prometido e um silêncio constrangedor que não parecia oferecer qualquer desfecho às vítimas.

O que mudou desde 2017?

Tudo mudou na passada sexta-feira, 18 de janeiro, quando a Netflix disponibilizou o seu novo documentário chamado “Fyre: The Greatest Party That Never Happened” que conta como todo o processo se desenrolou. Dois dias antes, no entanto, estava disponível na Hulu, que não funciona em Portugal, uma outra produção sobre o evento.

A diferença entre os dois é só uma: no da Hulu, os produtores tiveram a oportunidade de entrevistar o empresário responsável por todo o caos em que se viu envolvido. Mas também isso teve um preço.

Em entrevista à plataforma “The Ringer”, Chris Smith (“The Pool”), realizador da produção para a Netflix, referiu que sempre soube que a Hulu estaria a produzir um documentário semelhante ao seu e que até teriam uma entrevista a McFarland.

“Estávamos a par do documentário da Hulu porque era suposto filmarmos uma entrevista com Billy McFarland. Ele disse-nos que lhe tinham oferecido 250 mil dólares [cerca de 219 mil euros] e perguntou-nos se lhe pagaríamos 125 mil. Depois de passarmos tanto tempo com várias pessoas que foram afetadas negativamente pela experiência no Festival Fyre, pareceu-nos errado tirar proveito do dinheiro dele”, revelou.

À mesma publicação, Jenner Furst (“Houses”), realizador do documentário da Hulu, revelou que o valor citado por Chris Smith não corresponde à verdade, mas não esconde ter pago pela entrevista.

“Não vou dizer o valor mas aquele que ele [Chris Smith] disse não é real. Não percebo porque é que o Chris o cita dessa forma. Ambos fizemos um filme sobre a mesma pessoa que sabemos ser um mentiroso compulsivo.”

Ja Rule, uma das caras do festival, recorreu as redes sociais para criticar os dois documentários que, diz, deram uma imagem errada da sua participação no escândalo quando, na verdade, também ele foi enganado pelo empresário.

“Tinha uma visão incrível para criar um festival como nunca existiu. Nunca roubaria ou enganaria alguém. Que sentido é que isso faria?”, escreveu no Twitter.

Apesar de nunca ter sido preso, o rapper norte-americano está neste momento a enfrentar mais de uma dúzia de processos judiciais iniciados por vários investidores.

Já Billy McFarland foi acusado em 2017 por fraude fiscal e recebeu a sentença de prisão domiciliária. Em 2018, porém, foi acusado de forjar documentos para atrair investidores e de vender bilhetes falsos para outros eventos norte-americanos de renome, como o Burning Man ou o Coachella. Desde 11 de outubro de 2018 que está a cumprir uma pena de seis anos em Nova Iorque.

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