“Glass”. 9 erros sobre perturbação dissociativa de identidade (segundo um psicólogo)

De volta ao cinema, James McAvoy, a estrela de "Fragmentado", interpreta uma personagem com 24 personalidades distintas.

A identidade verdadeira de Kevin praticamente não aparece no filme. Isto não é possível na vida real

Em 2016, James McAvoy interpretou o papel de uma homem que tinha várias personalidades em “Fragmentado“. Eram 24 no total, cada uma mais assustadora do que a outra. A trama de suspense e terror psicológico desenvolve-se em torno de três raparigas, raptadas pelo perturbado Kevin, e as pessoas que vivem na sua mente.

Agora está de volta. “Glass” chegou as cinemas a 17 de janeiro e assinala o regresso de Kevin e das suas múltiplas personalidades ao cinema. A última parte da trilogia “Eastrail 177”, que inclui os filmes “O Protegido” e “Fragmentado”, acompanha também a história de David Dunn (Bruce Willis), o único sobrevivente de um devastador acidente ferroviário. Já Elijah Price, interpretado por Samuel L. Jackson, também aparece com uma teoria sobre o sucedido.

Kevin é um homem normal que tenta lidar com a sua doença. Só que há alturas em que as suas personalidades assumem o poder, e ele não consegue fazer nada para as controlar. Há Patricia, que se veste como uma mulher, ou Hedwig, um menino de 9 anos. Mas nenhum deles é tão assustador como a Besta, a 24.ª personalidade que é verdadeiramente demoníaca.

“O filme é toda uma maravilhosa hipérbole algo desconectada da realidade clínica”, explica à MAGG o psicólogo da Oficina de Psicologia, Nuno Mendes Duarte. “Toda a história serve, naturalmente, para um excelente filme e argumento interessante.”

Mas pouco mais. A chamada Perturbação Dissociativa de Identidade (PDI), antigamente conhecida por Perturbação de Personalidades Múltiplas, consiste numa “disfunção da identidade caracterizada por dois ou mais estados de personalidade”. Num estado em que um das personalidades assume o controlo, verifica-se uma descontinuação da experiência de self.

Vamos simplificar: há “alguém” que assume o poder. Regra geral, esse “alguém” tem comportamentos que diferem daquilo que é habitual. “Isto conduz a momentos em que existem falhas na memória do que se passou nalguns momentos do dia, ou de informação pessoal importante — que não são consistentes com os nossos esquecimentos do dia a dia.”

No que é que o filme erra

Quando chegou aos cinemas, “Fragmentado” foi altamente contestado. A norte-americana Amelia Joubert começou uma petição, pedindo que os atores alertassem o público para o facto de atos de violência serem muito raros. A produção nunca chegou a comentar o assunto.

Joubert também vive com esta doença que, estima-se, afeta entre 1% a 3% da população mundial. No YouTube relata como é viver com PDI, e também sente que o filme contribuiu para uma imagem negativa do transtorno. Segundo a jovem, “Fragmentado” fez com que muitas pessoas lhe perguntassem se ela era perigosa.

A Sociedade Internacional para o Estudo do Trauma e da Dissociação também se pronunciou sobre o assunto. Em comunicado, afirmaram que as pessoas que sofrem de PDI não são mais perigosas do que a população em geral. Um estudo realizado em 2017 com 173 indivíduos concluiu que apenas 3% tinha sido acusado de cometer um delito nos últimos seis meses, sendo que 1,8% tinha sido multado e apenas 0,6% preso.

Mostramos-lhe de seguida os principais erros de “Fragmentado” sobre PDI.

No que é que o filme acerta

Se “Fragmentado” falha em vários aspetos quando apresenta Kevin e a sua doença, não falha noutro: de facto, este transtorno está geralmente associado a uma experiência traumática. No caso da personagem, abusos durante a infância.

“De facto, o modelo mais aceite para a presença da dissociação é que esta funciona como mecanismo de proteção do organismo perante stressores traumáticos extraordinariamente intensos ou prolongados no tempo”, explica o psicólogo. “Ou seja, normalmente a existência de trauma é um fator causal para a presença de dissociação.”

No início, a dissociação começa por ser um mecanismo para lidar com o sofrimento, e não necessariamente uma perturbação. No entanto, torna-se disfuncional quando o ambiente já não é traumático e ainda assim a pessoa, e as suas identidades/partes dissociadas, agem e vivem como se o trauma estivesse a ocorrer.

“Um estudo recente indica que 86% de uma amostra de pacientes com PDI tinham sido sexualmente abusados em crianças.”

Como é feito o tratamento

A medicação pode ajudar a regular alguns sintomas, caso o funcionamento social ou profissional seja posto em causa. Já a terapia é fundamental.

“A terapia com estes casos é de longo prazo e implica uma relação de segurança que permita lidar com os diversos desafios que vão surgindo. O que procuramos é que as diversas partes se vão permitindo a ter consciência umas das outras aumentando o sentido de eficácia e auto-controlo do cliente com PDI.”

“É muito importante perceber que estas ‘partes’ que a pessoa apresenta não são identidades ou personalidades separadas a viverem num só corpo”, explica Nuno Mendes Duarte.

“Se mantivermos presente que estes indivíduos são uma pessoa com muitas partes, não vamos alimentar a ideia de que existe uma autonomia de cada uma das identidades, e focamo-nos em acelerar a integração das memórias, emoções e comportamentos que estavam desconectados devolvendo um sentido de identidade.”

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