Era uma vez. A loja onde o lixo ganha nova vida

Alexandra Arnóbio e Susana Leite abriram um atelier para recuperar material em fim de vida. Em fevereiro, abrem uma loja.

A oficina da Era uma Vez fica na rua Miguel Bombarda, no chamado Bairro das Artes do Porto

“Peço desculpa pelo cheiro, mas acabamos de receber material novo”, começa por dizer Alexandra Arnóbio, assim que nos abre a porta. O “material novo” a que esta artista se refere não são madeiras embaladas, tintas frescas ou parafusos milimetricamente arrumados em caixinhas. O que enche este atelier da Rua Miguel Bombarda, no Porto, tanto pode ser madeiras antigas, como cadeiras sem uma perna ou caixas que um dia serviram para embalar vinho ou frutas, mas que agora são lixo. Porque é exatamente disso que falamos aqui, lixo. Ainda que depois de passar pelas mãos desta dupla já ninguém lhe consiga chamar isso.

Era uma Vez Upcycling Project

Morada da oficina: Rua de Miguel Bombarda, 124, 2.º B, Porto

Morada da loja: Rua do Heroismo, 111, Porto

Telefone: 925321447

Alexandra Arnóbio e Susana Leite uniram-se em volta de uma palavra que ainda poucos conhecem: upcycling. “Uma vez até me perguntaram se tinham que trazer fato de treino para um wowrkshop que organizamos, por pensarem que estava ligado a bicicletas”, lembra Alexandra Arnóbio, 42 anos.

Então comecemos exatamente por aí. Upcycling não é mais do que o processo de transformação de subprodutos, materiais residuais ou produtos já sem uso em novos materiais, normalmente até de melhor qualidade.

Alexandra Arnóbio começou a fazer upcycling ainda nem ela sabia que essa palavra existia. “Tive uma loja de coisas em segunda mão e fazia questão de transformar algumas delas ao meu gosto. Pelo meio, ainda me aventurava a eletrificar peças para fazer candeeiros”, conta.

Em 2014, a loja fechou e Alexandra Arnóbio viu-se, além de desempregada, com uma garagem atulhada de material.

A necessidade fez com que mudasse de área durante uns tempos mas, assim que conheceu Susana Leite, 45 anos, à porta da escola que os filhos de ambas frequentam, percebeu que tinha ali uma aliada para finalmente voltar ao negócio que tanto gozo lhe dava.

Susana Leite é designer de produto e, por isso, trazia o know-how. Alexandra Arnóbio, licenciada em História, trazia com ela a vontade de aprender e uma cabeça a fervilhar de ideias. Juntas, as portuenses ocuparam o segundo piso de uma das ruas mais concorridas do Porto, e é naquela sala de poucos metros quadrados que viram nascer a Era Uma Vez, uma oficina de upcycling.

A arte de transformar lixo

Não foi difícil escolher o sítio que lhes ia servir de oficina. “Entrámos aqui e estava esta luz incrível”, lembra Susana Leite, a apontar para as janelas altas que, também no dia da nossa visita, deixavam entrar o sol. Aquele espaço já foi uma escola de música e tinha ainda um piano no meio da sala. “Estão a imaginar? Claro que nem pensamos duas vezes”, conclui Alexandra Arnóbio, ainda que só mais tarde tenham percebido que um segundo andar sem elevador não seja assim tão prático quando têm que trabalhar com matérias primas mais pesadas. “A vantagem é que não temos vizinhos, o que é bom tendo em conta o barulho que fazemos com as ferramentas e o arrastar de materiais mais pesados”.

Pela oficina estão espalhadas ferramentas, peças já feitas e outras que ainda são lixo. É que além da vontade de fazer peças originais, estas duas empreendedoras uniram-se no desejo de evitar o desperdício e dar nova vida àquilo que, de outra forma, acabaria no meio de toneladas de resíduos.

A matéria-prima chega-lhes de visitas à Lipor (serviço de gestão de resíduos do Porto), de amigos que querem limpar garagens e do olho clínico das duas que conseguem ver arte onde todos vêm lixo.

Já transformaram caixas de vinho em mochilas, máquinas fotográficas antigas em candeeiros, caixas de fruta em teatros de fantoches, mesas de cabeceira em cozinhas de brincar e gavetas antigas em mesas, com pés feitos de cruzetas. Parece estranho, mas funciona. “E o melhor é que são sempre peças únicas”, comenta Alexandra Arnóbio. Essa particularidade traz apenas o entrave a um dia abrirem uma loja em nome próprio, uma vez que, como cada peça é única, não vai haver o stock a que as pessoas estão habituadas.

Preferem para já ter peças à venda em lojas, como é o caso da Cru, da Almada 13 e da Olá Breyner, e estão abertas a encomendas personalizadas que os clientes lhes façam diretamente. Mesmo assim, a partir de fevereiro vai ser possível um contacto mais direto com o público com a abertura de uma loja, partilhada com outras marcas também elas ligadas ao reaproveitamento de materiais.

“E aí também vamos ter mais espaço para workshops”, comenta Alexandra Arnóbio, “até porque a ideia é passar a palavra, até que o upcycling deixe de ser uma palavra estranha”.

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