Quando Susan Boyle entrou no palco, os aplausos duraram pouco tempo. “Tenho 47 anos”, respondeu quando lhe perguntaram a idade. Simon Cowell revirou os olhos, a audiência — três mil pessoas estavam sentadas no auditório Clyde, em Glasgow — desatou às gargalhas. Piorou quando a escocesa abanou a anca e disse: “Esta é só uma parte de mim”.

Os jurados do programa “Britain’s Got Talent” arregalaram os olhos, o público olhou com descrédito quando Susan Boyle disse que queria ser cantora profissional. Escárnio talvez seja a palavra mais adequada. Aquela mulher de vestido dos anos 70, cabelo grisalho descabelado e a cara cheia de manchas? Cantora?

Tinha tudo para correr mal. Susan Boyle parecia a personagem perfeita para entrar na rubrica dos cromos, até que abriu a boca e começou a cantar “I Dreamed a Dream”, de “Os Miseráveis”. Em poucos segundos, a audiência explodiu em aplausos e gritos. Antes mesmo de chegar ao refrão, já havia pessoas de pé e jurados a chorar.

Susan Boyle tornou-se conhecida em todo o mundo. O vídeo da audição bateu recordes, a imprensa enlouqueceu. Estávamos em janeiro de 2009 e a vida daquela mulher desempregada nunca mais seria a mesma. Ainda no final desse ano lançou o álbum de estreia, “I Dreamed a Dream”, e a partir daí foi somar recordes.

Quatro anos, cinco discos, 30 países. A mulher que admitiu em entrevistas que nunca tinha beijado na boca e vivia com um gato chamado Pebbles deixou para trás uma vida marcada pela pobreza, bullying e solidão, e transformou-se numa estrela.

Dez anos depois de alcançar a fama, Susan Boyle voltou aos jornais e revistas com a participação no “America’s Got Talent: The Champions“, que junta os maiores sucessos que passaram pelas várias edições. A música “Wild Horses” conquistou os jurados, em particular Mel B que carregou no botão dourado, transportando a escocesa diretamente para as galas ao vivo.

Susan Boyle estava afastada da música desde o final de 2016. Na última década, porém, quase tudo mudou na sua vida — quase, reforçamos, porque a escocesa agora com 57 anos continua a viver na casa onde cresceu e a ter medo de não conseguir pagar as contas, apesar dos muitos milhões que tem na conta.

Da “Simple Susan” à tentativa de suicídio, da morte da mãe à esperança por um futuro melhor

Mas já lá vamos. Vale a pena recordar como tudo começou, caso contrário não estaríamos a fazer justiça à sua história. Susan Boyle tinha apenas 12 anos quando decidiu que queria ser cantora. “Venho de uma família de músicos”, contou ao “The Guardian”, em abril de 2009. “Esteve sempre lá [a música], do meu pai até mim. Cantar foi algo que sempre fiz. Está no meu sangue”.

Infelizmente, o bullying e a crueldade das crianças roubaram-lhe a auto-estima. Susan Boyle cresceu com a alcunha “Simple Susan”, e a confiança — ou falta dela — meteram-se no seu caminho.

“Quanto tinha 17 anos, pensei em acabar com tudo, acabar com a minha vida. Era tudo psicológico, eu estava muito magoada”, contou ao “News of the World”, conforme cita o “Daily Mail”. “Tive que ter a ajuda de um profissional.”

Na altura, um pequeno grupo de adolescentes levaram Susan Boyle a este estado devido às perseguições constantes. “É o pior tipo de bullying [o bullying emocional]”, disse.

Apesar de tudo, Susan Boyle entrou para a Edinburgh Acting School, e em 1999 até gravou um CD solidário chamado “Cry Me a River”. Também participou no programa “My Kind of People“, mas nada mudou.

No início dos anos 2000, Susan Boyle afastou-se da música para tomar conta da mãe. A mais nova de três irmãos e cinco irmãs, a escocesa sabia bem o que era perder alguém importante — o pai tinha morrido em 1999, a irmã Kathleen em 2000. Mas a mãe era uma pessoa extremamente importante na sua vida. Susan decidiu abdicar de tudo para cuidar da progenitora até à sua morte, em 2007. “Senti como se uma parte de mim tivesse morrido com ela”, disse ao “The Guardian”.

O Paul Potts era mesmo muito bom. Foi uma inspiração para muitas pessoas e pensei que devia arriscar”

A mãe Bridget era a sua maior protetora. E uma inspiração artística, ou não estivéssemos a falar de uma mulher que decidiu começar a pintar aos 70 anos. Na pequena cidade industrial de Blackburn, entre Glasgow e Edimburgo, Bridget era respeitada por todos. Tanto que ninguém se referia a ela pelo nome, mas sim por Senhora Boyle.

“Prometi à minha mãe que ia fazer algo com a minha vida”, contou ao “The Guardian” em 2013. A forma de o fazer surgiu quando viu a história de Paul Potts, o vencedor da primeira temporada de “Britain’s Got Talent”. Paul trabalhava em vendas até subir ao palco e se tornar numa estrela de ópera.

“O Paul Potts era mesmo muito bom. Foi uma inspiração para muitas pessoas e pensei que devia arriscar”, revelou ao jornal britânico. Se ele conseguiu, talvez ela também conseguisse.

Toda a gente sabe o que aconteceu a seguir. Susan Boyle ficou em segundo lugar do programa (apesar de ter sido apontada como a grande favorita desde o início da terceira temporada, acabou por perder para o grupo de dança Diversity), mas já era conhecida em todo o mundo.

Na verdade, bastou a primeira audição para isso acontecer. Horas depois de Susan Boyle aparecer pela primeira vez no “Britain’s Got Talent”, já estava na internet. O vídeo foi visto 120 milhões de vezes esse ano, tornando-se no mais popular em 2009 no YouTube. Bateu o vídeo “David After Dentist” (37 milhões) e o trailer de “A Saga Twilight: Lua Nova” (31 milhões).

Um ano depois do programa, Susan Boyle era uma mulher milionária. E do primeiro namorado ao diagnóstico de síndrome de Asperger, mudou quase tudo na sua vida. Quase. Contamos-lhe tudo o que mudou (e não mudou) na vida da cantora desde o programa — e o que é que anda ela a fazer agora.

Susan Boyle continua a viver na mesma casa

A morada manteve-se intacta: apesar de milionária, Susan Boyle recusou-se a sair da casa de família onde viveu toda a vida.

O único grande investimento que fez foi em 2015, quando decidiu comprar a propriedade ao lado. Mais nada. “Adoro a minha casa, foi onde cresci”, explicou ao “The Daily Mail”. A escocesa comprou uma outra casa que lhe custou 340 mil euros, mas recusou-se a ir viver para lá. Não era o seu lar.

Susan Boyle continua a viver na casa onde cresceu

Apesar de ter uma conta bancária com muitos milhões de euros — de acordo com a imprensa britânica, são mais de 29 milhões —, Susan Boyle nunca esqueceu o sítio de onde veio. Tanto que ainda não superou o medo de um dia não ser capaz de pagar as contas.

“Eu estive ali, sentada no escuro, incapaz de pagar as contas após a morte da minha mãe”, recordou ao “The Sunday Post”. “O meu maior medo é voltar aí”.

A cantora aprendeu a tocar piano

Em 2012, Susan Boyle contratou um professor de piano da sua terra, Blackburn, para aprender a tocar piano. As suas novas habilidades foram apresentadas pela primeira vez em 2014, num espetáculo em Leicester. Infelizmente não há um vídeo da atuação mas, conforme escreveu na altura o “Edinburgh News“, a forma como tocou piano e interpretou “Who I Was Born to Be Read” enlouqueceu o público. “A reação dos fãs tem sido incrível”, contou o porta-voz da cantora ao jornal.

O diagnóstico de Asperger

Apesar de continuar uma mulher modesta, a verdade é que as suas rotinas alteraram-se completamente — nem que seja porque se tornou numa cantora profissional, como era o seu sonho, agora com um total de sete álbuns, 13 singles e seis videoclipes.

Mas nem tudo foi fácil. Os problemas de ansiedade continuaram a impedi-la de ser a artista que desejava. Na verdade, os seus ataques foram (e ainda são) tão frequentes e arrebatadores que foram poucas as vezes em que conseguiu atuar sozinha.

Em 2012, um diagnóstico veio explicar o porquê de isto acontecer. “Eu tenho Asperger”, contou ao jornal “The Guardian” um ano depois, confessando que sentiu um enorme “alívio” por saber finalmente o que se passava. Com um QI acima da média, esta forma de autismo era a grande responsável pela sua dificuldade em interagir socialmente e ausência de competências de comunicação.

Em criança, Susan Boyle procurou ajuda médica devido à sua dificuldade de aprendizagem. Os especialistas disseram-lhe que deveria ter sofrido danos no cérebro por falta de oxigénio durante o nascimento, mas aquela explicação nunca a convenceu. Agora sim, fazia tudo sentido.

“O Asperger não me define. É uma condição com a qual tenho de viver e trabalhar, mas sinto-me mais relaxada. As pessoas vão perceber melhor quem sou e porque é que faço as coisas que faço”.

Os ataques de ansiedade em público

Nem sempre foi fácil lidar com a doença. Nos anos seguintes, Susan Boyle teve vários surtos derivado da doença e ansiedade, alguns públicos. Em 2016 teve mesmo que ser retirada de ambulância do terminal do aeroporto de Heathrow, em Londres, depois de um incidente no terminal 5.

As autoridades foram chamadas na sequência de relatos de uma mulher angustiada. No início desse ano tinha acontecido exatamente a mesma coisa no aeroporto de Derry, na Irlanda do Norte, onde a cantora foi vista aos gritos. Na altura, um amigo explicou que Susan se sentia perturbada por viajar sozinha.

O primeiro amor aos 53 anos, a diabetes e a perda de peso

Em 2014, Susan Boyle encontrou finalmente o amor. A mulher que admitiu publicamente nunca ter sido beijada apaixonou-se, e aos 53 anos, estava na sua primeira relação. É verdade que quando tinha cerca de 20 anos teve um namorado mas, como a própria admite, não contou — o casal terminou antes mesmo de começar, uma vez que o pai achava que a filha não estava preparada.

“Ela pensava que eu não tinha maturidade para estar numa relação, e eu penso que não tinha, de facto”, recordou ao “The Daily Mail”.

Boyle apaixonou-se por um médico norte-americano. Nesse ano também foi diagnosticada com diabetes tipo 2, o que a obrigou a mudar radicalmente a sua alimentação. “Tenho de parar de comer doces e bolos”, disse ao jornal “The Sun”. “Estão banidos da minha vida”.

A cantora escocesa seguiu as indicações dos médicos e perdeu peso

E foram mesmo. Susan Boyle adotou um estilo de vida mais saudável e perdeu quase 14 quilos. Em jeito de brincadeira, a escocesa disse que ia enviar uma foto da sua perda de peso ao médico norte-americano. “Se ele se portar bem!”, salientou ao tablóide, acrescentando: “Aprecio bastante a companhia masculina”.

Os problemas familiares

Em 2015, a morte voltou a afetar a família Boyle. Aos 73 anos, a irmã de Susan, Birdie, morreu de cancro. Apesar da idade, a cantora sentiu-se devastada com uma morte que, disse na altura, a apanhou de surpresa. “Ela era honesta e ajudava-me na minha vida e carreira”, revelou ao “The Mirror”. “Ela não tinha medo de me dizer se eu estava a ser arrogante”.

Um ano antes, Susan Boyle tinha tido uma desavença com o irmão, Gerry, que tinha ameaçado matar-se se ela não lhe desse cerca de 68 mil euros. Em 2016, porém, no dia em que teve um ataque no aeroporto de Heathrow, a cantora ligou-lhe. Não falavam há dois anos. Gerry não atendeu, mas retribuiu a chamada no dia seguinte. Voltaram a encontrar-se, e Susan até conheceu o neto do irmão. “Tem sido ótimo apanhar os cacos”, disse Gerry ao “The Mirror”.

Susan Boyle foi atacada por 15 jovens

Em junho de 2017, a cantora foi atacada nas ruas de West Lothian, na Escócia. Um grupo de 15 adolescentes, com idades compreendidas entre os 16 e 18 anos, atirou pedras e papéis em chamas contra o autocarro onde viajava.

“Estavam a atirar coisas. Acenderam um pedaço de papel e atiraram ao rosto dela. A Susan estava a sair e eles estavam de pé, à entrada. Chamaram-lhe feia, velha e cabra. Foi horrível”, contou uma das pessoas que assistiu à cena ao jornal “The Mirror”.

O que anda Susan Boyle a fazer agora

Desde o lançamento do último álbum, “A Wonderful World”, em novembro de 2016, que Susan Boyle tem andando afastada do mundo da música. A sua última tour aconteceu entre julho de 2013 e novembro de 2014. Até das redes sociais manteve a distância.

Numa altura em que toda a gente se perguntava quando é que Susan Boyle regressaria à música, chegaram as novidades através do Twitter: a escocesa ia participar no “America’s Got Talent: The Champions”. O programa estreou a 7 de janeiro, e é esperado que tenha um total de sete episódios.

O que acontecerá durante o talent show depende de Simon Cowell, Heidi Klum, Mel B e Howie Mandel. Depois disso, é esperar — aos 57 anos, se há coisa que Susan Boyle já conseguiu provar é que a idade é mesmo um número.