O tema de Delbert McClinton, músico de blues dos anos 40, descreve bem a antítese que é comer picante. “It felt so good to hurt so bad” (“soube tão bem doer tanto”). O motivo pelo qual temos prazer neste sofrimento que nos faz ficar com a boca a arder, a testa a pingar e a zona entre o nariz e o lábio a transpirar, ainda não é totalmente conhecido, apesar de alguns especialistas tentarem explorar esta questão. Uma das teses defende que o corpo humano entende que o consumo deste alimento lhe traz vantagens.

Não estando cientificamente comprovado que é isto que nos faz aceder a esta espécie de masoquismo benigno, é precisamente sobre isso que, no Dia Mundial do Picante, que se celebra esta quarta-feira, 16 de janeiro, a MAGG lhe vai falar: os benefícios de passar por esta tortura, tão apreciada por um sem-número de gente.

Primeiro, vamos desmontar esta sensação — de dor. “O picante tem uma substância ativa, que é a capsaicina, a responsável por lhe dar o sabor picante”, explica à MAGG a nutricionista Ana Lúcia Silva. A título de curiosidade: no caso da malagueta, não é nas sementes que este composto se encontra, portanto não é aí que reside o fósforo que origina a combustão bocal. “A maior parte [da capsaicina] concentra-se na membrana branca”, esclarece a especialista, que aponta as seis maiores vantagens no seu consumo.

Este composto já foi associado a poderes anti-cancerígenos, mas, de acordo com a nutricionista as conclusões não são muito esclarecedoras, havendo informações contraditórias. No entanto, há vantagens no seu consumo — a especialista Ana Lúcia Silva dá-nos 6.

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É anti-inflamatório e antioxidante

Há aqui uma espécie de efeito proteção — não é por menos, o ardor dá indícios do potencial de destruição. “Tem benefícios ao nível de evitar o stresse oxidativo e ajuda a proteger contra o envelhecimento celular.”

Em causa está o combate aos radicais livres, aqueles que afetam as nossas células e que entram no nosso organismo por diversas causas externas: fumar, beber, comer mal, até praticar desporto. À partida, o próprio corpo tem armas para batalhar nesta guerra, mas as asneiras cometidas por nós são tantas — não esquecendo que há coisas que não controlamos, como a poluição do ar — que é fundamental apostar em alimentos que nos ajudem a contrariar esta sujidade interna.

É termogénico

Palavra esquisita, não é? Nós explicamos: no fundo, é quando há um aumento da temperatura do corpo, o que obriga o organismo a esforçar-se — logo, a gastar mais energia — para repor os valores normais. Ora, com o picante a subida do calor é rápida e substancial, o que significa que vai haver um gasto extra de calorias. Por isso é que se diz que é amigo de uma “manutenção de peso ideal”, como descreve Ana Lúcia Silva.

Um estudo, realizado pela Pardue University em 2011, mostrou que pessoas queimavam mais calorias e tinham menos apetite ao comerem malaguetas. A investigação provou que este efeito era maior em pessoas que não tinham por hábito consumir picante.

Pode ser bom para as úlceras

Mais uma antítese. Se por um lado não se recomenda a quem tem problemas de intestinos, por outro poderá ser benéfico para a “prevenção de úlceras gástricas”. Além disso, “também há provas de que pode aliviar e evitar a sensação e ardor no esófago, portanto o refluxo gastroesofágico”, explica a nutricionista.

Ana Lúcia Silva aponta também a inibição do ácido clorídrico, um suco gástrico que poderá ser tóxico. Isto “pode favorecer a digestão, ajudando a diminuir a tal sensação de ardor no esófago.”

Alguns estudos sugerem que a capsaicina é capaz de ter um efeito protetor contra as úlceras por matar a bactéria H. Pylori.

Tem sido associado à diminuição do colesterol

“Consequentemente cria uma maior proteção cardiovascular”, diz a nutricionista. Um estudo, realizado em 2017, encontrou uma menor incidência de mortalidade por doenças de coração, ataques cardíacos e enfartes entre aqueles que consumiam malaguetas. Ao mesmo tempo, há a redução do consumo de sal: se é picante, não precisa deste ingrediente nocivo para conseguir sabor.

Uma investigação de 2015, realizada pela Universidade de Vermont, dirigida por Benjamin Litternberg, concluiu que a capsaicina aumenta a esperança média de vida. Depois de acompanhar 500 mil chineses durante sete anos, notou que aqueles que consumiam comida picante viam o risco de morte reduzido em 14%, comparativamente aos que não comiam.

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Evita pedras na vesícula

“O consumo da capsaicina tem sido associada à prevenção de cálculos biliares — a que também se dá o nome de pedras na vesícula”, adianta Ana Lúcia Silva. Estes pequenos cristais de rocha formam-se na vesícula biliar, com tamanhos muito variados — de um grão de areia a uma bola de golfe. Os motivos atrás da sua formação ainda não são claros, mas acredita-se que possam estar relacionados com más secreções do fígado.

Diminui a sensação de dor

Faz sentido. Mas calma, porque pode nem ser preciso comer. A capsaicina pode aliviar “artrites reumatoides ou psoríase na forma tópica, ou seja em gel ou pomada.” O que acontece é que ela é capaz de influenciar um químico do cérebro, chamado substância P.

“A aplicação tópica de capsaicina alivia a dor e o prurido agindo nos nervos sensoriais”, pode ler-se num estudo, que ressalva que “o mecanismo exato de ação da capsaicina tópica não foi totalmente esclarecido”.

Defendendo este composto como sendo “notável”, a mesma investigação, publicada no Journal of Herbal Science em 2013, explica que ela afeta a síntese, armazenamento, transporte e libertação da substância P. “Com o esgotamento da substância P nas terminações nervosas, os impulsos locais da dor não podem ser transmitidos ao cérebro.”