Descemos a calçada sempre com o Tejo na mira. Nada no cenário faz crer que ali há um restaurante e temos mesmo que recorrer ao Google Maps para confirmar a morada. Calçada do Livramento n.º 17. Está certo.

Na parede branca e comprida vemos finalmente o nome que nos levou para uma zona de Lisboa raramente percorrida. “ISO”, escrito em letras metálicas confirma que afinal estamos onde queríamos, ainda que o cenário continue longe do convencional para um almoço a meio da semana.

ISO

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Morada: Calçada do Livramento, 17, Lisboa

Horário: terça a sábado 12h30-15h 19h30-23h (fecha domingo e segunda)

Ao passarmos as portas pisamos relva, envolvemo-nos em plantas e, aos nossos olhos, chegam-nos o rio e parte da zona ribeirinha da cidade. Quase que dá pena perceber, segundos a seguir, que para entrar no restaurante temos que deixar o sol de Lisboa para descer para um piso subterrâneo. É que o ISO, restaurante de comida internacional acabado de inaugurar em Lisboa, ocupa um dos espaços da Casa de Goa, rodeada por uma das muralhas que em tempos protegeu Lisboa.

Parte da muralha continua intacta e o ISO aproveitou-a bem. Deixou as paredes envidraçadas para que, além de luz, entrasse também a sensação de estarmos a comer rodeados de história. História essa que também não foi esquecida na criação de uma ementa que, ainda que inovadora, não esqueceu os sabores goeses a fazer jus à casa mãe.

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Nas entradas há uma cavala com chacuti, um caril goês, dos pratos de peixe faz parte o filé de dourada com molho de caril e legumes massala e nas carnes, o toque indiano percebe-se no carré de borrego com crosta de coentros e puré de açafrão.

A partir daí, tudo é inovação. Na cozinha está a chef Joana Dinis, que já passou pela Fortaleza do Guincho, Eleven e 100 Maneiras e agora, no ISO, teve carta aberta aberta para criar a sua.

Não são muitos pratos, mas nota-se o cuidado com a elaboração de cada um. Basta ver que, num simples prato do couvert (3€/pessoa), vêm três tipos de pão da Gleba, com três tipos de manteiga diferentes: tradicional, trufada e de alecrim.

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Das entradas, além da tal de inspiração goesa, fazem parte as vieiras salteadas (12€), carpaccio de lombo (10€) e canelones de truta (9€). Na secção do peixe, as opções recaem sobre o tamboril sobre molho de caldeirada (17,50€), o salmonete com molho holandês de estragão (19,50€) e o bacalhau confit sobre grelos, puré de nabo e ovo codorniz em baixa temperatura  (19,50€). Nas carnes, há filé de vitela com molho de manteiga e alecrim (17,50€), filé de lombo maturado em redução de vinho do Alentejo (19,50€) e lombinhos de porco curado, puré de castanhas e cogumelos enoki (16,50€).

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As doses, ainda que generosas, são pensadas para deixar espaço para as sobremesas, também da criação de Joana Dinis. Também aqui a escolha é curta, mas certeira: crocante de chocolate com mascarpone e lima (6€), tarte de limão desconstruída com merengue crocante (6€), creme brûlée (6€) e tarte tatin (6€).

Trazer luz a uma cave

Todo o edifício é sui generis. Além de termos que descer uma longa rampa até a um piso subterrâneo para entrar no restaurante, assim que entramos percebemos que estão ali vários metros quadrados de pé alto, paredes envidraçadas e um jogo de colunas ao estilo industrial que fazem com que cada mesa seja um recanto privado.

Marina Duarte foi a responsável por trazer ao espaço um toque de modernidade sem que nunca a história ficasse esquecida. “Pode ser estranho estar a comer virado para uma parede, mas nunca nos passou pela cabeça tapar as paredes envidraçadas. Afinal, a tal parede que vemos é uma muralha  do século XVII“, explica à MAGG.

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Trocou as mesas quadradas e retangulares pelas redondas, de modo a que todas encaixassem num espaço que, ainda que não tenha divisões, tira partido das colunas gigantes que sustentam a estrutura para dar a privacidade necessária a uma refeição, sem que nunca deixemos de ver as mesas do lado.

A equipa não ficou assustada com a possibilidade de estar numa cave e até escolheu ISO — palavra que se refere à sensibilidade do sensor da máquina fotográfica à luz — para nome do restaurante. Todo o edifício é envidraçado e em cima de cada mesa estão cinco lâmpadas com luz quente a ajudar aos dias mais nublados.

A equipa por detrás do projeto, liderada por Nuno Marques Ribeiro, da Brand New Life, tem noção de que a localização não é favorável e, por isso, querem que a viagem até à Calçada do Livramento valha a pena. Para a Primavera está prevista a abertura do rooftop, onde vai funcionar um bar para uma bebida antes ou depois da refeição. “Queremos que o ISO não seja apenas um restaurante, mas sim toda uma experiência”, acrescenta Marina.