Não, não precisamos de ter filtros nos óculos para estarmos ao computador

"É puro marketing", diz o oftalmologista Eugénio Leite. Mas, calma, há regras de higiene ocular cruciais e importantes que deve adotar.

As lentes já são caras o suficiente — não precisa de acrescentar esta despesa aos seus óculos.

Aqui há uns meses fui a um optometrista, de uma ótica muito conhecida, parte de um determinado grupo, também ele muito popular. Isto porque às vezes tinha de fechar um olho para conseguir ler, sentia os olhos a arder e algumas dores de cabeça ao fim do dia. Soube que ali faziam avaliações gratuitas. No final da consulta, aconselharam-me a incluir nos meus futuros óculos, um filtro anti-tudo-salva-todos: protegia da luz azul, era anti-reflexo e anti-risco. Iam salvar-me e poupar-me de todos os males acima referidos, porque vejo — quase — perfeitamente bem. Iam proteger-me das horas passadas aqui, frente a este computador de onde vos escrevo. Esta película maravilha acrescia aos óculos a modesta quantia de 40€, sendo que as lentes graduadas e armação (da própria marca, não há cá Ray-ban para ninguém) ficariam por 135€. Não são pormenores irrelevantes, já lá vamos.

Pus-me a pesquisar sobre esta luz malvada. O excesso de exposição à luz azul, de forma acumulada, pode gerar stresse oxidativo e danos na parte de fora da retina, pode assassinar células e comprometer a qualidade do sono, caso a contemplação tecnológica preencha as horas que devemos dedicar ao descanso, uma vez que representa um entrave à produção de melatonina, a hormona que nos relaxa e dá sono.

“É verdade, mas tem tudo a ver com uma questão de proporcionalidade”, diz à MAGG Eugénio Leite, oftalmologista, diretor das Clínicas Leite. Ou seja, as consequências são reais, mas a quantidade de luz azul teria de ser imensa.

Estas radiações constituem então um perigo para quem passa muitas horas em frente ao computador? Pouco tempo depois, fui a um oftalmologista para tirar as teimas. No final, perguntei à médica. “Devo então apostar nuns óculos com filtros?”. Olhou para mim, com um sorriso discreto, e disse: “Não. Não servem para nada.”

Eugénio Leite concorda. “Não faz sentido. Faria há uns anos, quando os monitores eram outros. Hoje já têm qualidade suficiente, com filtros incorporados”, diz. “É marketing puro”, acrescenta. Além de não fazerem falta, são mais uma despesa, porque vão começando a descascar da lente — portanto não seriam só mais 40€. “Efetivamente, ao final de algum tempo degradam-se e lá vamos nos a reinvestir em mais outro par de lentes.”

Para o médico, estas lentes fazem mais sentido quando estamos na rua, porque aí há uma série de coisas que nós não controlamos — há radiações de luz por todo o lado, em diferentes comprimentos de onda, que têm diferentes tipos de atuação ao nível da retina. Ainda assim, podemos ficar um pouco mais descansados pelo facto de os nossos olhos serem espertos e de nos protegerem contra o excesso de luz e radiação, porque também têm capacidade de filtragem.

Com as luzes LED a conversa já é outra. Emitem muita radiação e os efeitos em relação à retina começam agora a ser questionados, explica o médico. Ainda assim, Eugénio Leite não acredita que os filtros nos óculos possam neste momento salvaguardar-nos dos potenciais perigos, adiantando, porém, que ainda “não tem uma posição” relativamente a este tema.

O que realmente faz mal à saúde ocular

A luz azul não é o problema ocular mais grave de uma vida frente ao computador. Até hoje, não há provas cientíicas de que esta ferramenta crie doenças oculares. Mas há um lado nocivo e que nasce das posições que este estilo de vida nos obriga a adotar, sobretudo quando é durante horas a fio. “A natureza diz-nos para mantermos os olhos direitos e a focar o infinito”, explica. “No entanto, 80% da nossa atividade diária faz com que os posicionemos num ponto de focagem próximo, o que obriga a um grande esforço“, acrescenta.

A falta de convergência ocular é a consequência mais grave disto, refletindo-se depois numa visão mais desfocada, excesso de esforço na focagem, ardor nos olhos, cansaço visual, redução da capacidade de trabalho ou dores de cabeça. No fundo, aquilo que acontece é que, ao ter de, continuamente, concentrar-se em planos demasiado próximos, o cérebro deixa de conseguir sobrepor as imagens obtidas pelo olho esquerdo e pelo olho direito. Começamos a ver desfocado, ou seja, duas imagens, uma para cada olho. “O cérebro não aceita isto e o que acontece é que começamos a fechar um dos olhos para ver.”

Há uma série de hábitos que devemos adotar, de forma a manter uma boa higiene ocular. É assim que, segundo Eugénio Leite, protegemos a saúde da nossa vista dos malefícios dos computadores — e evitamos o cansaço ao final do dia, falta de concentração, as dores de cabeça, a vermelhidão, comichão e secura dos olhos. “Isto sim é importante, porque de outra forma provoca alterações oculares”, ressalva.

A distância para o monitor e a posição do corpo

“Devemos estar a uma distância que corresponda a entre uma a duas vezes e meia o tamanho de um monitor normal”, explica, o que corresponde a cerca de 60 e 70 centímetros. Além disso, é importante que o computador fique um pouco abaixo do nível dos seus olhos e nunca acima — caso contrário, dá-se um aumento da “fenda palpebral”, o que vai resultar numa maior exposição dos olhos, “fazendo com que as lágrimas evaporem rapidamente.”

Cuidado com os reflexos 

Não trabalhe com luminosidade na sala e “evite os reflexos de luz no monitor”, porque obriga a esforço maior para focar, bem como uma tentativa de compensação de luminosidade por parte dos olhos. Em vez de apostar em filtros anti-reflexo nas lentes, aposte antes neles para o próprio ecrã.

Efetuar pausas

Isto é muito importante, porque permite contrariar a tendência de estarmos demasiado tempo com o olhar dirigido para o ecrã, o que é fundamental para respeitarmos aquilo que a natureza nos diz — manter os olhos direitos e a olhar na direção do infinito, contrariando assim a tal desfocagem e falta de capacidade de convergência.

Devemos fazer pequenos intervalos a “cada 20 ou 30 minutos”, aconselha o oftalmologista. “Estamos a falar de pausas pequenas: um a dois minutos é suficiente.”

Lembre-se de ir piscando os olhos e cuidado com o ar condicionado 

É normal adotarmos a postura zombie quando estamos empenhados numa tarefa ao computador. Mantenha-se concentrado, mas lembre-se de ir piscando os olhos para evitar o ardor e desconforto. Isto vale tanto para o computador como para o telemóvel, cinema ou televisão. Se estiver muito desconfortável, pode optar por fazer compressas de água fria e colocar nos olhos durante dois minutos. Se o caso estiver mesmo mau, recorra a colírios lubrificantes. Por último, um ar condicionado apontado na direção da cara também não é amigo dos olhos, porque os seca e irrita. É de evitar.

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. [email protected]