Guerra de Séries #01. Ainda há dúvidas de que “Os Sopranos” é a melhor série de sempre?

Sem clichés e com crueldade atípica, a série da HBO não tem rivais para o jornalista Fábio Martins. Assim começa a nossa Guerra de Séries.

O final da série levou fãs ao desespero e ainda hoje é um dos mais comentados das redes sociais

HBO

Todos temos aquela série que nos prendeu (ou prende) ao ecrã horas infindáveis sem uma ponta de tédio. Aquela que não perdemos por nada deste mundo, que nos faz ansiar pela próxima temporada que demora sempre mais do que é suportável, ou que recordamos com indisfarçável nostalgia enquanto imploramos aos deuses que tenham a ousadia de a retomar. Mas qual é a melhor série de sempre? Aqui, como em várias questões de gosto, o consenso é inatingível. A pensar nisso, a MAGG lançou uma Guerra de Séries, em que os colaboradores da revista defenderão todas as quintas-feiras, com todas as armas possíveis, racionais ou nem por isso, a série da sua vida. Começamos com o jornalista Fábio Martins:

Uma psiquiatra e um mafioso inconformado entram num consultório e falam sobre a vida. Podia ser o início de uma piada mas é o ponto de partida de “Os Sopranos”, a série de culto da HBO que celebra esta quinta-feira, 10 de janeiro, 20 anos desde que estreou.

No primeiro episódio descobre-se que esse mesmo mafioso é um homem de família perturbado pelos recorrentes ataques de pânico cuja origem não compreende. Os desmaios são vistos como uma demonstração de fraqueza e a sua posição enquanto chefe da organização criminosa é posta em causa.

As hipóteses que vão sendo lançadas para justificar os males de que Tony Soprano, interpretado por James Gandolfini, se queixa são várias e todas elas vão dar ao mesmo lugar: a relação conturbada que mantém com a mãe e com o tio desde a infância.

Mais do que uma série sobre a máfia, “Os Sopranos” explora a nossa relação com nós próprios ao colocar um gangster no divã. É aí que assumimos as suas fragilidades, os seus defeitos e a sua mágoa. Precisamente porque percebemos que numa outra vida e num outro contexto completamente diferentes, Tony Soprano poderia ter sido outra pessoa que não o criminoso violento e sem escrúpulos por que ficou conhecido.

Além de servir de inspiração a todas as outras grandes séries que se seguiram, como “Breaking Bad” ou “Mad Men”, a produção da HBO marcou a diferença ao fugir à forma convencional de se fazer televisão. Grande parte das personagens principais são falsas, desonestas, interesseiras, violentas e vivem à margem da lei. Não há ali nada que se aproveite.

Mesmo os criminosos do grupo de Tony, ainda que assentem em estereótipos (como o do criminoso labrego e descuidado) e cheguem mesmo a roçar o ridículo, têm o propósito de dar corpo a uma história crua sem clichés. Prova disso foi um dos episódios mais importantes da série em que a psiquiatra de Tony é violada no meio das escadas de acesso ao parque de estacionamento do seu escritório.

Seria expectável que a psiquiatra, interpretada por Lorraine Bracco, satisfizesse o desejo de vingança dos espectadores e contasse a Tony o que lhe tinha acontecido — sabendo, de antemão, que ele teria todos os meios de fazer o violador sofrer horrores pelo que lhe fez. Mas isso nunca aconteceu.

No meio de toda a negatividade vinda do mundo feio e duro de Tony Soprano e companhia, a decisão da psiquiatra foi como uma luz no meio do caos para relembrar que há sempre escolhas e, com elas, alternativas à violência e ao medo.

Mas aquilo que a série evita em clichés, ganha em ambiguidade. O episódio final é o exemplo mais claro e ainda hoje é motivo de grande discussão nas redes sociais. Durante um jantar onde toda a família Soprano está reunida, os planos da câmara vão alternando consoante o toque da campainha da porta do restaurante.

Quando a campainha toca pela última vez, Tony levanta a cabeça e o ecrã assume tons de negro, em que se supõe que a cor represente o campo de visão de Tony. De repente, sem estar à espera e sem ouvir nada, Tony deixa de ver e é remetido à escuridão.

Passados poucos segundos, rolaram os créditos finais e foram vários os espectadores que, na altura, ligaram furiosos para a HBO a exigir o dinheiro de volta. Mal sabiam que, naqueles últimos instantes, estava o resumo de toda a série que estava repleta de presságios de morte e de desfechos inconclusivos — tal como na vida real, fora dos ecrãs.

Teria Tony Soprano sido assassinado à frente da família ou havia um outro qualquer significado? Não se sabe e talvez nunca se venha a saber. E a beleza de “Os Sopranos” está aí: no facto de fazer perguntas para as quais sabe que nunca encontrará respostas.

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