Super K é o herói do jogo. Ele está em dois sítios ao mesmo tempo: atrás do ecrã e dentro do jogo, num corpo humano doente que precisa de ajuda. A missão nos dois universos é essa: lutar contra os vírus, bactérias e tumores, de forma a que o cancro desapareça permanentemente.

O “Super K VS Cancer”, que está disponível para sistema operativo Android e, mais recentemente, iOS, foi desenhado a pensar nas crianças que sofrem desta doença. Nesta batalha, os jogadores têm uma ajuda que lhes vai dando vidas: os medicamento, seja em forma de comprimidos, injeções ou soro.

“As crianças não entendem os pormenores de um tratamento ou a forma como os remédios funcionam. Usar a lógica, infelizmente, não ajuda muito as crianças a colaborarem com o tratamento. No entanto, todas as crianças gostam de jogar e se, ao jogar, elas entenderem que há uma luta dentro do corpo contra células vilãs, elas terão uma motivação maior para colaborar com o tratamento, uma vez que passam a estar emocionalmente conectada através do jogo, sendo o herói desta luta”, explica à MAGG Revelino Montenegro, químico na área da biomédica, e um dos investidores do jogo.

“Durante os jogos, o herói, além de destruir os inimigos, tem de tomar os remédios para ganhar energias ou armas extra, de forma a continuar a lutar. Assim, a criança percebe a importância dos medicamentos”, acrescenta.

Cada fase do jogo corresponde a uma parte diferente do corpo, desde os rins, aos pulmões ou ao cérebro — o derradeiro desafio. Sempre que o jogador passa uma etapa, recebe informações gerais sobre a doença, desde os sintomas, às causas ou tratamentos. “É tudo muito simples, mas valioso”, diz.

Super K é o herói do jogo. É careca numa alusão a todas as crianças que ficam sem cabelo nos tratamentos contra o cancro

De acordo com Revelino Montenegro, o objetivo é tornar o tratamento mais interessante ou, pelo menos, “amenizar um pouco a carga emocional que existe em torno do dele”, diz. “O jogo não é o tratamento, mas uma forma de consciencializar, tanto as crianças, como fãs dos jogos, que é possível colaborar mesmo brincando.”

A ideia para o jogo e o problema do cancro infantil

A ideia para a criação do “Super K VS Cancer” não nasce na cabeça de Revelino. Foi Paulo Paiva, brasileiro, da mesma cidade que o químico — Mossoró, no Brasil —, que pensou nesta estratégia para ajudar os miúdos. Conheceram-se numa palestra de empreendedorismo. “Durante as aulas do curso de enfermagem, o Paulo visitou o departamento de oncologia infantil de um hospital e percebeu o quão difícil era fazer com que as crianças ficassem calmas e aceitassem tomar a medicação durante um tratamento contra o cancro“, relata. “Foi com isto que teve a ideia de criar um jogo de telemóvel para que as crianças que enfrentam o cancro possam se identificar e entender que são elas as protagonistas nesta luta.”

Patrizia Bréchot. “O cancro mata-nos porque lhe damos tempo para o fazer”

Mas o passo da concretização e implementação da ideia não foi fácil. Houve obstáculos. “Poucos dias depois do evento, descobri que Paulo Paiva tinha desistido da ideia e do curso universitário, porque, como vem de uma família muito pobre, precisava ir para as ruas vender garrafas de água mineral para ajudar a pagar as contas.”

É nesta altura que o químico se envolve no projeto: “Telefonei-lhe e ofereci-me para ser investidor, colocando dinheiro na ideia para que ele tivesse um salário e condições de se concentrar no projeto.” Contactou mais dois amigos empresários no Brasil — Ricardo e Gustavo Rocha — com quem dividiu os custo. “E, assim, com a ajuda da designer portuguesa Joana Areosa, o jogo tomou forma e foi lançado inicialmente no formato Android.”

De acordo com a Acreditar, são diagnosticadas com cancro cerca de 400 crianças com cancro. “No mundo inteiro vamos ter 200 mil novos casos em 2019. Depois de acidentes, esta é a segunda principal causa de morte infantil.” Mas há boas notícias. “80% das crianças tratadas sobrevivem pelo menos cinco anos depois do tratamento. Esta taxa é muito melhor do que os resultados que temos com adultos. Infelizmente estes 80% caem para 20% em países pobres. Uma clara indicação que um tratamento bem feito é crucial para a cura.”

O jogo está disponível na AppStore e no GooglePlay. As receitas revertem para instituições que tratam e fazem investigação na área da oncologia infantil.