Aveia em vez de Chocapic, brócolos em vez de batatas fritas, pão em vez de bolos. Não é preciso um curso de nutrição para chegarmos à conclusão de que estas substituições são suficientes para fazer a diferença num dia alimentar de uma criança. Bom, de uma criança e de um adulto, que quando o assunto é ser mais saudável não há cá restrições de idades.

Mas se com um adulto é mais fácil falar das vitamina A e C, do potássio e do ferro dos brócolos, com uma criança o processo de valorização deste legume pode ter que obrigar a estratégias mais meticulosas. Há quem os disfarce na sopa, quem faça do prato um quadro e dos brócolos pequenas árvorezinhas ou quem, simplesmente, insista em dar a provar à criança o sabor deste novo alimento, na esperança que a cara feia um dia dê sinais de mudança. Mas são muitas as vezes em que não há mais nada a fazer a não ser aceitar a recusa.

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“Os miúdos podem por vezes apresentar aquilo a que denominamos como neofobia alimentar, um comportamento que se caracteriza pela rejeição ou recusa de determinados alimentos, entre eles os legumes e fruta”, explica Sandra Santos, atriz, nutricionista e autora do blogue Papinhas da Xica e do livro com o mesmo nome. Nestes casos, acrescenta, estamos perante crianças com uma hipersensibilidade ao gosto amargo.

Sandra Santos acredita que, nestes casos, fazer desenhos divertidos com os alimentos pode ser uma estratégia. Quanto à camuflagem dos alimentos, em sopas ou purés, por exemplo, “pode ser produtivo associar o alimento alvo de recusa a sabores que a criança goste, para aumentar a sua aceitação”. Mas é importante que isso não seja prática recorrente e que os alimentos sejam apresentados na sua forma original, ainda que cozinhados de formas diferentes.

“Vários estudos referem que por vezes são necessárias cerca de dez a 15 tentativas para que a criança se adapte a um novo sabor”, lembra a especialista, “mas estas novas tentativas devem ser espaçadas no tempo, isto é, não se deve insistir de imediato, já que irá criar um ambiente negativo que vai tornar a aceitação do alimento mais difícil”.

Já para Leonor Cício, autora do blogue Na Cadeira da Papa, e do livro “Mãe, quero mais!“— no qual partilha receitas saudáveis para crianças — o truque é dar o exemplo. “As crianças fazem tudo por imitação, logo vão ter as preferências alimentares de acordo com o veem os pais comer. Se queremos que eles comam bem, temos que comer bem” explica à MAGG.

Mãe de três crianças, de 6, 4 e 2 anos, acredita que comer em família a mesma comida, à mesa, é a base para que a criança cresça a não rejeitar certos alimentos. “Elas sentem-se mais seguras se a comida delas for igual ou o mais parecida possível com a nossa. Por isso, desde sempre deve imperar a ideia de partilha de refeição: comer os mesmos alimentos, da mesma forma, à mesma hora, no mesmo local”.

Além disso, acredita que o contacto direto com a comida é fundamental, seja a cultivá-los, a comprá-los no supermercado e até na sua preparação. “Um bebé de 6 meses pode tocar na comida, amassando-a e percebendo o que é pelo tato, cheiro e paladar. E uma criança com 18 meses já consegue fazer coisas simples como lavar alimentos, separá-los e fazer pequenas transferências de alimentos de um sítio para outro”, explica. Além deste trabalho prévio à refeição, é bom que a criança coma a comida inteira, para que se habitue a novos sabores e texturas. “A não ser que a família coma tudo em purés, não faz sentido triturar a comida de um bebé e criança. Eles conseguem comer pedaços desde cedo (pelo menos a partir dos 6 meses), se estes forem oferecidos em forma e consistências seguras às suas aptidões”, acrescenta.

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Também Rui Marques, autor do blogue A Pitada do Pai e do livro com o mesmo nome, é adepto do “dar o exemplo” de maneira a que o filho não rejeite alimentos que não conhece. “Eu não posso querer que ele coma espinafres se eu, sentado ao seu lado, estou a comer batatas fritas”, salienta. É por isso que lá em casa, e ainda que a maior parte das receitas que faz sejam pensadas nas crianças, todos comem de forma saudável.

Mas para descanso de todos os pais que estão a ler isto e a pensar que têm um terror gastronómico em casa, calma. Rui Marques garante que nem todos os dias são bons e que também ele recorre a truques. Faz desenhos com fruta, disfarça as lentilhas numa bolonhesa e mistura curgete espiralizada ao esparguete normal.

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Além disso, os poucos cereais que vão parar lá a casa são retirados das caixa para que Lourenço, com 3 anos, não se deixe levar pelos nomes e as cores apelativas. “Outro dia pediu-me um bocadinho ‘daqueles cereais pretos’, porque nem sequer sabe que se chamam Chocapic”, explica o pai. Nesses casos, Rui põe três ou quatro cereais nas papas, até porque acredita que proibir pode atiçar a curiosidade da criança pelo alimento proibido.

Rui faz questão que Lourenço participe nas compras e na preparação das refeições e, para isso, ofereceu ao filho uma cozinha de brincar. “Volta e meia vem com a panela cheia de legumes de brincar e pergunta ‘Pai, hoje queres sopa de espinafres ou sopa de beterraba?'”.

Ainda que nada disto seja uma ciência exata, deixamos aqui algumas técnicas e receitas usadas por estes pais para tornarem os pratos dos filhos mais apelativos.

Pizza de couve flor, receita do blogue A Pitada do Pai

Ingredientes para a base:
1 couve flor pequena (cozida)
1 ovo
Queijo ralado (a gosto)
Sal q.b.
Pimenta q.b.

Ingredientes para o topping:
Molho de tomate caseiro (receita aqui)
Queijo ralado (a gosto)
Cebola roxa
Mozzarela fresca
Tomate fresco
Pimento
Oregãos

Pré-aqueça o forno a 180ºC. Comece por triturar a couve flor cozida.
Adicione um ovo e o queijo ralado, e mexa até obter uma consistência homogénea.
Forre um tabuleiro com papel vegetal, e disponha/estique a massa. Leve ao forno por cerca de dez minutos.
Depois da base pronta, deitar o molho de tomate, os orégãos e o queijo ralado.
Disponha os restantes ingredientes a gosto e leve ao forno por 10 a 15 minutos.

Pastéis de brócolos, receita do blogue Papinhas da Xica

Ingredientes:
3/4 de caneca de brócolos cozidos e finamente picados
meia cebola pequena picada
4 colheres de sopa de pão ralado
1 ovo
50g de queijo flamengo ralado
1 raminho de salsa picada
1 pitada de pimenta preta
1 pitada de sal (+12 meses)

Coza os brócolos a vapor durante cerca de 10 minutos.
Quando estiverem macios pique-os muito bem. Pode também triturá-los durante breves segundos, com o cuidado para que não fiquem tipo puré. A textura deve ficar semelhante a grãos de arroz. Coloque-os numa taça e junte todos os outros ingredientes.
Ligue a massa muito bem e molde-a em forma de pastéis ou bolinhas.
Leve ao forno, durante cerca de 20 minutos, a 180º.

Esparguete à bolonhesa (vegan e com noodles de vegetais), receita do blogue A Pitada do Pai

Ingredientes:
1 chávena de soja fina
½ chávena de trigo sarraceno
1 cebola
2 dentes de alho
1 folha de louro
Molho de tomate bio (ou passata)
Orégãos
Queijo ralado vegan ou “normal” (opcional)
Fio de azeite
Água
Cenoura (para o esparguete)
Curgete (para o esparguete)
esparguete integral
flor de sal q.b.
pimenta q.b.

Num tacho comece por colocar um fio de azeite, a cebola picada e o louro. Deixe alourar e junte o alho picado.
Adicione o molho de tomate e o trigo sarraceno e junte água.
Deixe cozinhar uns 10 minutos e adicione a soja e deixe cozinhar por mais 5 minutos. Vá mexendo e se necessário junte um pouco mais de água.
No final retifique os temperos (sal, pimenta e orégãos).
Silva esta bolonhesa com zoodles de curgete e cenoura, envolvidos com esparguete integral.

Monstrinhos de Halloween, receita do blogue A Pitada do Pai

Ingredientes:
3 ovos
3 colher de sopa de polvilho doce (bem generosa) (pode usar amido de milho)
8 colheres de sopa de leite vegetal (usámos de arroz)
1 colher de sopa de farinha de alfarroba
1 colher de café de fermento (cheia)

Coloque no copo os ovos, o polvilho, a farinha de alfarroba e o leite vegetal, com a ajuda da varinha mágica misture tudo. Adicione o fermento e volte a misturar.
Coloque ao lume uma frigideira antiaderente ao lume e vá colocando quantidades a gosto, para ficar mais fino ou mais grosso.
Quando começarem a aparecer bolhinhas é só virar.
Sugestão de empratamento: rechear a crepioca com compota de banana (basta num tachinho colocar banana, um pouco de água, gengibre e canela e deixar cozer) e fazer os olhos e boca com pêra, kiwi e mirtilos

Gelado de morango e kiwi, receita do blogue As Papinhas da Xica

Ingredientes:
Combinação de morango: 8 morangos, 1 folha de hortelã, 1 colher de chá de sumo de limão
Combinação de kiwi: 2 kiwis, 1 colher de café de mel
Combinação de iogurte: 3 colheres de sopa bem cheias de iogurte grego natural (não açucarado), 3 colheres de sopa de leite de coco, 1 colher de sopa de coco ralado, 1 colher de chá de mel
Elementos adicionais e opcionais: kiwi desidratado, muesli ou granola, pepitas de cacau

Combinação de morango: misture todos os ingredientes, triture e reserve.
Combinação de kiwi: misture todos os ingredientes, triture e reserve.
Combinação de iogurte: misture todos os ingredientes, triture e reserve.
Distribua as diferentes combinações de fruta pelos moldes de gelado e leve ao congelador durante uma a duas horas.
Retire do congelador e verta a mistura de iogurte. Espete os pauzinhos e adicione um dos elementos adicionais. Leve novamente ao congelador por mais umas horas.