O planeta Terra está prestes a completar mais uma rotação, preparando-se para mais uma jornada em torno de si mesmo. Nesta transição, lá somos nós arrastados pela gigantesca onda nostálgica de balanços e resoluções importantes, todas para nos tornarem pessoas impecáveis.

Corta para 365 dias depois: grande parte do trabalho de casa ainda está por fazer. Continuamos a não resistir a um processado, a ir menos do que é suposto ao ginásio, a acender um cigarro à mínima tensão e as viagens foram muito menos do que aquelas que tínhamos vislumbrado naquele futuro que entretanto já passou a presente e a passado. Maldito tempo. Toca de transitar as resoluções para o ano seguinte, porque agora é que vai ser e vai, finalmente, valer a pena o sofrimento atroz que é ter de engolir 12 passas seguidas.

As tomadas de decisão não vêm de um sítio estranho e bizarro, e não são necessariamente domadas por uma força maior (quer dizer, até podem). Espiritualidades à parte, a grande maioria dos processos acontecem, claro, no nosso cérebro.

A tomada de decisões define-se como a seleção de uma alternativa dentro de um leque de opções existentes, considerando os possíveis resultados e as consequências no comportamento e no futuro”, explica a neurologista Socorro Piñeiro.

É no cortex pré-frontal (no córtex orbitofrontal, dorsolateral e cingulada anterior) que a parte mais importante deste filme acontece, mas há ainda zonas secundárias, que também são fundamentais para o desenrolar da ação  — as “regiões subcorticais com a amígdala, hipocampo e cerebelo” .

Qualquer dano nesta rede neuronal é grave, pois “limitaria a realização ótima da tomada de decisões, dificultando a adaptação da pessoa ao seu contexto quotidiano, impedindo um funcionamento saudável.”

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Os circuitos das tomadas de decisão

Socorro Piñeiro explica que “estas áreas organizam-se em três circuitos que se relacionam com a tomada de decisões.” Cada peça corresponde a uma parte importante nisto das tomadas de decisão — tanto para o sucesso, como para o seu falhanço.

1. As emoções e o córtex orbitofrontal

Comecemos pelo mais difícil: as emoções, claro. “O córtex orbitofrontal e as conexões límbicas, estão relacionadas com as recompensas e decisões de base emocional”, explica a neurologista. “Pessoas com alteração nesta área são incapazes de alterar as suas decisões em relação com uma tarefa, apesar da aparição de resultados desvantajosos.”

Exemplo: uma pessoa está triste e a ponderar entregar-se a uma caixa de gelado inteira. A recompensa: sentir o aconchego do açúcar, que afaga a dor. Consequências: é mau para a saúde, engorda e possivelmente vai ficar mal disposta, porque j´á aconteceu uma ou duas vezes. Tudo ponderado. Quem é que ganha? Provavelmente, o gelado.

Socorro Piñeiro é neurologista na Clínica de Santo António, do hospital dos Lusiadas

2. A informação

O córtex dorsolateral é uma zona “especializada na integração de múltiplas fontes de informação”, diz a médica.

Exemplo: em vários livros, artigos, livros e consultas médicas ficou a saber que o gelado faz mal à saúde, porque é um processado, com quilos de açúcar, de gordura, muitas calorias e há uma dose que não deve ser ultrapassada. Mas também sabe que existe uma coisa que é comer emocionalmente e que produtos açucarados libertam hormonas que nos fazem — muito momentaneamente — mais felizes e excitados.

3. O feedback e o córtex cingulado anterior

“O córtex cingulado anterior implicada no tratamento da informação conflitiva e no processamento do feedback associado as decisões”, diz a médica. “Esta característica foi comprovada com o uso de ressonância magnética funcional (fMRI) mostrando um aumento da ativação do córtex cingulado nos períodos em que se diminuem as recompensas ou quando se incrementa a retroalimentação negativa associada a seleções incorretas.”

Exemplo: vai ao restaurante de sempre e decide inovar no pedido. Problema: odiou a pizza com anchovas. O feedback daquela decisão é mau e daqui surge uma nova resolução: não mais comerá aquilo e provavelmente demorará algum tempo a voltar a querer arriscar.

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O corpo, o desconhecido e a influência das regiões subcorticais

Entramos agora nos tais cenários secundários. A amígdala, por exemplo, também reage a decisões e a ciência já o provou. “Estudos por tomografía por emissão de positrones (PET) reportaram ativação amigdalina em contextos que implicam recompensas potenciais. Tem um papel importante frente a situações novas que requerem avaliações rápidas que garantam respostas adaptativas em breves períodos, quer dizer, é essencialmente importante nas decisões de forte conteúdo emocional com as quais não se possui familiaridade.

Exemplo: está prestes a entrar numa nova relação, mas tem receio, porque não o conhece bem, porque não sabe o que é que na sua vida vai mudar. Vai ter de decidir se quer arriscar, porque há de facto “recompensas potenciais”, ou se prefere manter-se onde está.

Por último, o cerebelo. Não é tão relevante para as decisões, mas não podia ficar de parte, porque é aqui que decorre “a função sob o controlo motor, a coordenação e a postura”, diz Socorro Piñeiro. É através destas possibilidades que consegue ir treinar mais, cozinhar mais, fumar menos (ou mais). “Tem-se vindo a demonstrar que as áreas posteriores participam em funções de alto nível, como memória de trabalho, processamento linguístico, análise da informação espacial e na regulação emocional.”