Há 59 anos, Lisboa amanheceu fria e com um nevoeiro cerrado, cenário que “dava um atmosfera europeia” à cidade, escreve o “Diário de Lisboa”.

A reportagem não era sobre o tempo, nem tão pouco sobre a tentativa de uma Lisboa salazarista querer suplantar uma Europa também ela feita de Francos e de alemanhas divididas em dois. O destaque do “Diário de Lisboa” de dia 29 de dezembro de 1959 que, por ser vespertino, conseguia aglomerar os primeiros acontecimentos do dia, era mesmo a abertura do Metro de Lisboa, a funcionar desde as 11 da manhã. Aliás, 11h07 se quisermos ser mais precisos. Foi exatamente a essa hora que as primeiras carruagens saíram da estação dos Restauradores.

“Um minuto depois, o comboio detinha-se na estação da Avenida da Liberdade. Mais um minuto e o comboio inaugural, conduzido pelo maquinista Sr. Joaquim Ramos da Cuz Madaleno, atingia a estação da Rotunda”, continua a descrever o matutino.

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A rede tinha na altura 6,5 quilómetros e 11 estações, com terminais em Sete Rios, hoje Jardim Zoológico, e em Entrecampos, que convergiam na Rotunda num troço comum até aos Restauradores. Atualmente, o Metro de Lisboa dispõe de uma rede de quatro linhas independentes, com 44,2 quilómetros e 56 estações (seis destas de correspondência entre linhas) e 21 estações de interface entre outros operadores públicos e privados de transporte.

O contraste entre 1959 e 2018 nota-se na diferença na rede, mas também no feedback dos utilizadores. Numa altura em que tudo era novidade, a possibilidade de viajar sem trânsito e por baixo de terra trazia nada mais do que elogios, ainda que as obras para a construção do metro tivessem causado “inúmeros incómodos”, como enumera o diário: alterações de trânsito, menor velocidade de escoamento de tráfego, ocupação de passeios, poeira e lama. Tudo pormenores esquecidos num dia de “festiva alegria”, durante o qual se ouviam “incontidos e calorosos elogios quer à qualidade do material e comodidade e beleza das estações, quer à sensação de rigorosa segurança oferecida pelo novo meio de transporte.

O primeiro dia foi de festa, o segundo de festa foi

A viagem inaugural terminou com um copo d’água servido a todos os convidados no átrio da estação da Rotunda, atual Marquês de Pombal. Nesse dia, circulação ficou-se pela pompa e circunstância das individualidades, com o anúncio que o verdadeiro teste começava na manhã seguinte, logo às 6 horas, com encerramento marcado apenas para a uma da manhã.

E não é que às 6 da manhã já havia gente à espera para entrar na primeira carruagem do dia? Entre elas, “algumas artistas espanholas que se exibem numa ‘boite’ de Lisboa, acompanhadas dos seus músicos privativos que cantaram e dançaram entre os aplausos dos passageiros”.

A partir das oito da manhã, o público constituía já “autênticas vagas humanas”, descreve o “Diário de Lisboa”, e por volta das 10 horas, “formavam-se já ‘bichas’ com alguns metros de comprimento”.

A verdade é que nem toda a gente sabia usar o metro. “Com a violência de um alto-falante, vozes sonoras pediam serenidade. ‘Deixem os passageiros sair’ ou ‘Pedimos aos passageiros o favor de não fumarem neste comboio”.

O aglomerado de gente, naquele dia, procurava não só chegar mais cedo ao seu destino, como também aproveitar ao máximo aquele brinquedo que a cidade oferecia. “As centenas de pessoas não se limitavam a um trajeto, viajando turisticamente, de visita a todas as estações, subindo e descendo as escadas rolantes”.

Foi mesmo produzido um filme pela Tóbis, uma curta-metragem de divulgação, emitida não só na televisão como também nos cinemas de Lisboa. O filme era narrado por Artur Agostinho, que simulava ser o guia turístico que mostrava a dois outros lisboetas como funcionava a grande novidade da cidade.

Um metro com história

Ainda que a inauguração tenha acontecido em 1959, a primeira vez que se ouviu falar na ideia de andar debaixo de terra remonta aos tempos da Monarquia Constitucional quando, no reinado de D. Luís, em 1885, surgiu a ideia de construir um caminho de ferro metropolitano em Lisboa.

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No entanto, o primeiro plano foi apresentado apenas em 1888, pelos engenheiros Costa Lima e Benjamim Cabral, ainda que nunca tivesse saído do papel. Nesta altura, as ideias eram inovadoras. Imaginava-se uma linha com 14 estações percorrida em vinte minutos e comboios expresso que parariam apenas em algumas.

O projeto mais palpável chegou apenas em 1948, quando o governo de Salazar aprovou os estatutos de uma sociedade anónima que tinha como objetivo “o estudo técnico e económico, em regime exclusivo, de um sistema de transportes coletivos fundado no aproveitamento do subsolo da cidade”.

A construção começou em 1955 e, quatro anos depois, Lisboa aproxima-se finalmente das outras capitais europeias, onde já há muito se circulava de metropolitano. O de Londres foi inaugurado em 1863, o de Madrid em 1919 e Paris em 1900.

Até 2018, os anos foram de crescimento, com uma exploração feita por partes e sempre com um forte sentido estético. Não esquecer que, inicialmente, todas as estações, à exceção do nó da Avenida, assinada por Rogério Ribeiro, tinham intervenções plásticas de Maria Keil.

Em 1960 inaugurou-se a estação do Rossio e em 1978 o troço Anjos–Alvalade, com cinco novas estações: Arroios, Alameda, Areeiro, Roma e Alvalade.

Depois do 25 de Abril e com a nacionalização do Metro, viram-se nascer comboios com mais carruagens e, 1998, com a Expo, tornou-se o ano da mudança. Nasce a linha vermelha e a verde e algumas estações ganham novas designações: Sete Rios passou a Jardim Zoológico; Palhavã fica conhecida como Praça de Espanha, a Rotunda passa a Marquês de Pombal e Martim Moniz substitui o Socorro.

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Desde aí, o metro já chega a Telheiras desde 2002 e a Odivelas e Amadora desde 2004 e, mais recentemente, até ao aeroporto, com perspetiva de chegar nos próximos anos até à Estrela e a Santos.