Continuamos nos assuntos escatológicos. Depois de termos falado sobre a melhor posição para fazer cocó, desta vez vamos aprofundar o tema dos gases, porque no Natal se come muito e é preciso saber em que língua é que o sistema digestivo fala.

Mas como é que temos ar dentro de nós? Como é que o acumulamos? Onde é que ele mora antes de ser expelido? O gastroenterologista António Pinto explica tudo à MAGG.

Muito simples. O gás que acumulamos dentro de nós, tem duas origens: ou entra através da boca — na mastigação rápida, sobretudo de pastilhas elásticas, no consumo de bebidas gaseificadas ou simplesmente quando falamos — ou através da fermentação de alimentos no intestino grosso (há alimentos mais difíceis de metabolizar do que outros e as floras intestinais são todas diferentes, consoante o tipo de bactérias presentes). À partida, os primeiros acumulam-se no estômago e dão origem à eructação, a que popularmente chamamos de arroto. Os segundos dão origem aos puns — ou, agora o nome correto, aos flatos.

Só que às vezes a sensação de que estamos com gases excede aquele desconforto óbvio. Os sinais tornam-se tão confusos que somos capazes de ir parar às urgências porque a dor é muita, porque desmaiamos sem motivo aparente, porque sentimos pontadas ou arritmias. Ora vejamos cada ponto com mais pormenor.

Não há uma forma elegante de dizer isto, por isso cá vai: evitar soltar gases faz muito mal ao seu corpo

1. Aerofagia
“É, essencialmente, gás acumulado ao nível do estômago”, explica o médico. “Sente-se um desconforto muito grande, porque o gás se acumula junto do diafragma, o que gera dores no corpo e pode até dar sintomas de arritmia.”

2. Náuseas
Os milhares de milhões de bactérias presentes na flora intestinal degradam os alimentos para que estes sejam absorvidos pelo organismo ou expulsos. Neste processo, sobretudo com certos alimentos mais difíceis, como couves-de-bruxelas, brócolos, leguminosas ou processados, também se libertam gases que, por ali se vão acumular, podendo provocar distensão abdominal, caso não sejam expelidos. A sensação pode ser tão forte que, além do inchaço, surgem náuseas, sendo possível vomitar.

3. Sensação de desmaio
O intestino distendido, na origem de uma dor muito forte, poderá gerar uma reação vagal. Porquê? Por causa da dor, capaz de baixar a frequência cardíaca. Consequências? Fraqueza e um possível desmaio.

4. Picadas fortes
“É uma dor que vai e vem”, explica António Pinto. Há, segundo o médico, sítios do corpo específicos para esta dor abdominal forte e localizada: na zona do apêndice (por isso é que é tão frequente confundir o sintoma com uma apendicite), ou seja, na parte de baixo do abdómen à direita. No mesmo nível, mas do lado esquerdo, um pouco mais acima, também se sentem dores. As picadas agudas também se podem sentir perto do fígado ou do baço.

A zona dos ângulos, em que o ar não circula com tanta facilidade, também é uma das zonas que mais picadas gera. Ficam por baixo das costelas, à esquerda e à direita. “A dor pode ainda irradiar para as costas, dando a sensação de dores nos rins”, diz.

Como resolver a situação?

Eventualmente, os gases acabarão por sair, quer queira quer não. Mas é possível acelerar o processo de libertação dos flatos. “A melhor forma é rolar em cima da cama, mudando de posição gradualmente, para que o gás circule no organismo e consiga sair.”