“Ó Joãozinho, mas ainda estás solteiro? Olha que o tempo passa e nem dás por ela.” Pobre Joãozinho, há dez anos a ter de responder à mesma pergunta da Tia Laura. A família forma teias longas e complexas, de onde saltam perguntas incómodas e repetitivas. Nela temos pessoas mais chegadas, outras mais afastadas, elementos com quem nos identificamos mais, outros com quem não temos tanta sintonia. As dinâmicas são todas diferentes — e nem todas são fáceis.

Natal significa para muita gente reunião familiar. E se, por um lado, isto pode dar aso a encontros felizes, pode também significar termos de encarar quem não queremos ver, sermos confrontados com perguntas a que não nos apetece responder, a termos de ouvir o mesmo comentário de todos os anos, aquele que odiamos e sempre nos irritou.

O “Christmas Blues”, tristeza natalícia em inglês, é real e um dos motivos pode estar relacionado com más relações familiares. Por isso, a MAGG pediu à psicóloga Inês Chiote Rodrigues que deixasse seis dicas para conseguir aproveitar a época, o mais longe possível do stresse e da ansiedade.

Porque é que sentimos “Christmas Blues”?

1. Pensamentos VS Realidade

Uma coisa são as ideias, outra é a realidade. Aquilo que criamos na nossa mente é apenas uma representação nossa. Sejamos objetivos. De acordo com a psicóloga, “tentar olhar para os pensamentos negativos que surgem associados às situações, como apenas pensamentos e não como factos”, pode ajudar.

2. Criar imagens positivas

“Experimentar fazer um ensaio mental, ou seja, imaginar a situação temida — como a ceia de natal, por exemplo — a acontecer de uma forma minimamente normal, adequada à realidade”, sugere. Quando imaginamos situações positivas, sentimo-nos mais calmos. “De cada vez que a mente imaginar um cenário de terror, o melhor é parar o filme, respirar e voltar ao ensaio mental, assim que se estiver mais calmo, partindo de onde se estava.”

3. Crie estratégias. Respire

Quando há situações que se repetem todos os anos, o melhor é criar estratégias que ajudem a regular a ansiedade e mal-estar que esses “gatilhos” provocam. Inês Rodrigues deixa alguns exemplos: “Uma respiração lenta e profunda ou utilizar o raciocínio numérico — contar de 100 para trás, contar os objetos de várias cores.” Isto ajuda a “tirar o foco da ansiedade, cansando-nos, e reduzindo a possibilidade de cedermos a um impulso mais agressivo”

4. Leve o mindfulness para a ceia

Dê prioridade aos seus sentidos e aproveite o que está à sua volta. No fundo, aprecie e aplique as regras do mindfulness. “Devemos estar mais no aqui-e-agora, explorando tudo o que está à nossa volta com todos os sentidos — o que ouve, o que se cheira, o que se vê, aquilo em que se toca e saboreia“, explica. Isto ajuda a estar mais focado no momento presente, contrariando pensamentos negativos que geram tensão.

5. Agradeça

Continuamos no mindfulness. “Tudo é uma questão de foco, quanto mais nos focarmos em algo, mais isso vai ganhar dimensão”, lembra a especialista. Se tentarmos focar-nos naquilo que temos e pelo qual estamos agradecidos — ao invés de nos concentrarmos naquilo que nos deixa zangados — vamos sentir-nos melhor e mais positivos.

6. Agressividade, nunca

Por mais irritado e aborrecido que se possa sentir, lembre-se que “agressividade gera agressividade.” O impulso pode ser difícil de controlar, mas as consequências serão muito melhores se fizer o esforço — vai evitar conflitos e não acumula mais um problema para o Natal seguinte. “Quando estamos sob uma emoção intensa, com certeza que não tomaremos boas decisões”, lembra. “O melhor é levantarmo-nos, irmos à casa de banho, por exemplo, e, ao regressar, mais calmos, devemos tentar usar uma linguagem assertiva”, que respeite e não prejudique ninguém, tentando chegar a um acordo saudável.