Porque é que sentimos “Christmas Blues”?

Propaga-se a ideia da felicidade, com música, luzes e presentes. Mas por vezes a tristeza instala-se, apesar da festa.

O problema está nas comparações. Os outros estão felizes, o mundo está feliz, mas nós não, explica uma psicóloga

As tristezas não dependem de datas especiais, mas há ocasiões que as aumentam. O Natal pode ser uma época vivida com muita felicidade, mas pode também relembrar, desenterrar ou potenciar algumas dores.

A expressão inglesa “Christmas Blues” refere-se a uma tristeza natalícia, um problema que, podendo soar a mais uma fantasia da época, é real e acontece mesmo. Pode ser desencadeado perante determinados contextos de vida, memórias negativas associadas ao Natal e até a certos tipos de dinâmica familiar — é uma altura relacionada com a ideia de família —, os quais podem contribuir para uma data vivida com sofrimento”, explica a psicóloga clínica Inês Chiote Rodrigues.

O contexto de perfeição — com luzes, presentes, músicas, anúncios de televisão — com que se ilustra esta época não ajuda. “A imagem associada ao Natal como perfeita, alegre e em paz pode agravar estas sensações”, diz. O problema está nas comparações. Os outros estão felizes, o mundo está feliz, mas nós não. “Sabemos que é sobretudo quando estamos mais frágeis que a comparação com os outros surge, exacerbando os sentimentos de inferioridade, tristeza, angústia e ou ansiedade.”

Soma-se a isto a ideia de exclusão. “A sensação de não pertencer ou de ser diferente pode também aumentar nesta época comercializada como perfeita, como se a pessoa sentisse que é a única que a vive de uma forma triste ou ansiosa.”

Há contextos de vida que nos tornam mais frágeis

Ines Chiote Rodrigues dá algumas circunstâncias que nos tornam mais suscetíveis ao “Christmas Blues”. “Estes contextos de vida podem passar por perdas recentes de pessoas significativas, divórcio, desemprego ou doença, assim como dinâmicas familiares mais conflituosas ou desligadas também estão relacionadas.”

Mas há mais fatores que potenciam isto. Primeiro, há quem já esteja a sofrer de quadros de ansiedade, depressão e tristeza, que ficam piornesta altura. “Dadas as exigências relacionadas com esta época, o estado de depressão e ansiedade podem até agravar.” Depois, há ainda o problema da distância, que separa familiares, que vivem em cidades ou países diferentes, seja por motivos profissionais ou outros, o que leva a sensações de “desânimo e vazio”.

A pressão social, para outros, poderá ser grande, porque o consumo parece quase obrigatório e nem todas as vidas o conseguem suportar. “Isto pode levar as pessoas a sentirem-se inferiores ou desiludidas.”

Há ainda a acumulação de memórias relativas ao Natal — quem já passou períodos de festas mais tristes, tenderá a lembrar-se disso. A psicóloga indica ainda quem tem problemas alimentares. “Pessoas com problemas relacionados com perturbações alimentares podem sentir-se mais tensas nesta época, quer seja pelo descontrolo alimentar e culpa associados, quer seja pela restrição completa e a irritação e a ansiedade” relacionados com essa dieta.”

E, claro, as perdas recentes. “As perdas recentes de entes queridos ou separações obrigam a uma mudança no ritual e dinâmica familiares nesta época, para além da saudade e tristeza que ficam.”

Como resolver? Nisto das emoções nada é fácil e linear. Mas as tristezas podem ser bons pontos de partida para reflexões determinantes. É a sugestão da psicóloga: “Parar e refletir sobre aquilo que realmente é importante no Natal, descobrindo aquele que é o seu próprio sentido (e não o dos outros) e agindo em conformidade com ele”, diz. “Assim, mais facilmente se sentirá paz.”

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