Há perda de memória, de capacidade intelectual. O raciocínio deteriora-se, assim como as competências sociais e alterações das reações emocionais. É esta a descrição da demência, explicada pela Associação Alzheimer Portugal. Esta doença afeta cerca de 47,5 milhões de pessoas no mundo e as previsões estão longe de ser otimistas. Estima-se que em 2030 o número de casos suba para 47,5 milhões e que, em 2050, triplique para 135,5 milhões de habitantes afetados.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, o Alzheimer representa entre 60% a 70% destes casos. Em Portugal, não houve ainda estudos epidemiológicos que retratem a realidade do problema. Mas segundo o relatório do Projeto de Apoio Domiciliário à Demência, os casos estão a aumentar.

Dados do relatório de 2017 “Health at a Glance 17”, da OCDE, sugerem que Portugal é o quarto país com mais casos desta doença: “No caso da prevalência da demência, em que a média da OCDE é de 14,8 por mil habitantes, em Portugal este valor atinge 19,9 por mil habitantes, surgindo assim no quarto lugar com mais casos, atrás de Alemanha, Itália e Japão.”

Um estudo publicado em novembro na JCI Insight, realizado pela University of Rochester Medical Center, em ratos, sugere que é possível restaurar a memória de doentes com Alzheimer através de um novo ultrassom capaz de entregar de forma mais eficiente os medicamentos ao sistema nervoso central. Isto poderá mudar também o tratamento de outras doenças como Parkinson, ALS ou cancro no cérebro.

Maiken Nedergaard, autor principal do estudo, disse à “Forbes” que “melhorar a entrega da terapêutica ao sistema nervoso central é uma mudança considerável”, uma vez que tratamentos para diferentes tipos de doenças falharam precisamente por isto — incluindo aquele que pretende eliminar as placas beta amiloides, presentes no cérebro de pessoas com Alzheimer. Esta dificuldade nasce, paradoxalmente, do mecanismo de defesa do próprio cérebro, que tem aquilo a que se chama a barreira sangue-cérebro, uma estrutura que protege o sistema nervoso central de substâncias potencialmente tóxicas, que estão no sangue.

Segundo o “New York Times”, já foram realizados mais de 200 ensaios clínicos desde 2001 com o objetivo de solucionar e melhorar o problema do Alzheimer. Nenhum surtiu efeito. Não foi possível descobrir uma cura, uma forma de retardar os efeitos da doença ou de reverter os danos no cérebro. Não há também maneira de identificar grupos de risco (exceto aqueles que têm herança genética), nem são claros os mecanismos que desencadeiam a doença. Duas décadas depois, e apesar da dedicação da comunidade cientifica, porque é que ainda é assim? O que é que está a ser feito? Onde é que estão as maiores dificuldades?

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Um dos grandes desafios prende-se, precisamente, com o teste em animais, por ser muito difícil replicar neles os sintomas da demência humana. Tanto assim é que a neurologista Socorro Piñeiro, sobre a descoberta, diz à MAGG que “falta percorrer um longo caminho até se provar eficaz em humanos com a doença.”

Por outro lado, assumindo que desconhece “a funcionalidade e segurança” desta nova tecnologia, levanta uma questão relacionada com o tamanho da área cerebral afetada, porque os sistemas ultrassónicos costumam ser aplicadas sobre um ponto fixo, “que, a depender do momento da evolução da doença, deverá atingir uma zona cerebral mais ou menos ampla.”

Porém, caso se verifique que o sistema tem capacidade para assegurar as diferentes amplitudes, então a nova tecnologia “poderia melhorar o rendimento cognitivo dos doentes com doença de Alzheimer.”

O que acontece no cérebro com o Alzheimer

“Na doença do Alzheimer existe um processo de neurodegeneração, com perda irreversível de neurónios por acumulação de substâncias tóxicas que impossibilitam a comunicação entre as diferentes áreas cerebrais”, explica Socorro Piñeiro. “Conforme a doença vai afetando as diferentes áreas cerebrais, vão-se perdendo certas funções ou capacidades.”

Estas substâncias tóxicas formam-se pela acumulação da proteína amiloide, que forma placas entre os neurónios. Isto faz com que as proteínas tau formem emaranhados neurofibrilares dentro dos neurónios, que vedam a comunicação entre eles. Um é o fósforo e o outro o fogo. Falta descobrir a caixa que possibilita a combustão.

“Este campo está desesperado e todos queremos que alguma coisa funcione”, disse ao “New York Times” Reisa Sperling, diretora do Center for Alzheimer Research and Treatment at Brigham and Women’s Hospital, em Boston.

O que é que existe a nível farmacológico para se tratar a doença? “Existem os chamados antidemenciais ou anticolinesterasicos, que são utilizados para evitar a evolução e reduzir o grau de dependência, pelo menos momentaneamente”, explica a neurologista.

“Os inibidores da acetil-colinesterada [donepezilo, a rivastigmina e a galantamina] inibem a enzima que destrói a acetilcolina, neutrotransmisor essencial para os processos de cognição. Existe também a memantina, que é um antagonista dos recetores NMDA, que bloqueia os recetores que se ligam ao glutamato, substância que atua como mediador do aprendizagem e da memória. Segundo a hipótese glutamatérgica, o excesso de glutamato tem como efeito final a neurotoxicidade que leva a perturbações cognitivas”, acrescenta.

No entanto, os resultados das terapêuticas existentes estão longe de ser positivos. Tanto assim é que os medicamentos disponíveis no mercado são os mesmos desde há 15 anos. E nem estes são capazes de melhorar de forma substancial a vida destes doentes.

De acordo com Samuel Gandy, diretor associado do Mount Sinai Alzheimer’s disease Research Center, em Nova Iorque, nada do que existe conseguiu até agora, melhorar a habilidade funcional dos pacientes, fator que iria permitir que se mantivessem independentes durante mais tempo.

“Os esforços na investigação para descobrir a cura para do Alzheimer estão a ser muitos ao longo dos anos, mas com poucos resultados”, diz Socorro Piñeiro.

Há estudos em curso, muitos ensaios clínicos e muitos médicos dedicados à descoberta da cura para esta doença. No entanto, são realizados, maioritariamente em animais, sem resultados confirmados nos seres humanos. “Os resultados são prometedores, embora ainda em numa fase muito precoce de desenvolvimento.”

O que é que já foi feito?

Em julho foi apresentado um estudo promissor, mas ainda com lacunas importantes por preencher. Um novo medicamento — o BAN2401 — demonstrou, por um lado, ser capaz de reduzir os níveis de beta-amiloide no cérebro; por outro, retardar a progressão do declínio da memória e de outros problemas cognitivos em pessoas nas fases iniciais da redução das capacidades cognitivas.

Os resultados do ensaio clínico (que inclui 856 pacientes americanos, japoneses e europeus) estava, por esta altura, na segunda fase de teste, a intermédia. A terceira, mais extensa e determinante para as conclusões, aguarda aprovação da Food and Drug Administration.

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Mas esta não é a única barreira da investigação. Há pormenores que precisam de ser corrigidos — como, por exemplo, aquele que está relacionado com o facto de pessoas com um gene conhecido por aumentar o risco de Alzheimer terem sido retiradas do grupo que recebeu a dose mais alta do medicamento (aquela que mostrou os resultados mais satisfatórios).

Os cientistas também já descobriram que o cérebro de pessoas com Alzheimer mostram a doença décadas antes de os sintomas começarem a aparecer, o que faz levantar uma questão: não estará o problema das falhas terapêuticas sucessivas no facto de se tentar corrigir o mal quando já é tarde demais? “Há muitas células danificadas e estamos a tentar corrigir cérebros já muito danificados”, disse John C. Morris, um especialista em Alzheimer na Washington University, em St. Louis, nos Estados Unidos.

Se o problema for encontrado de início, talvez as soluções existentes — e futuras — surtam efeitos mais significativos, sendo que se tornará também possível personalizar os tratamentos, consoante os danos existentes. De modo a perceber isto, uma investigação gigante conduzida pela National Institute of Health começou a testar a terapêutica anti-amiloide numa família colombiana, cujos membros sofrem de uma mutação genética que garante que venham a desenvolver demência. Porém, são necessários anos de testes para que se formem conclusões sólidas.

Muitas investigações têm-se concentrado na diminuição e no atraso da evolução das placas amiloides e nos emaranhados neurofibrilares, mas os resultados têm sido pouco satisfatórios. É preciso chegar até ao gatilho que a desencadeia. Há investigadores empenhados nesta tarefa. A comunidade cientifica está pronta para considerar outras teorias.

Tanto assim é que, duas equipas de investigadores, independentes uma da outra, publicaram estudos (este e este) com resultados que sugerem que vírus — com principal destaque para dois tipos de herpes — é capaz de dar o pontapé inicial à resposta imunitária que, por conseguinte, poderá estar na origem da acumulação de amiloide no cérebro. Há ainda cientistas a pesquisar sobre a restauração das sinapses perdidas, bem como outros focados na microglia, as células de limpeza presentes no sistema imunitário do cérebro.

Até lá, é apostar na prevenção, por mais genérica que seja: ter um estilo de vida saudável, portanto, comer bem, dormir as horas necessárias para um sono restaurador, não fumar e praticar exercício físico.