A história de “Bohemian Rhapsody”, a música do século XX mais ouvida em streaming

Toda a gente achava a música demasiado longa (incluindo um membro da banda) mas um radialista tocou-a 14 vezes em dois dias.

Segundo o guitarrista Brian May, "Bohemian Rhapsody” "foi o bebé de Freddie desde o início"

Lançada a 31 de outubro de 1975, “Bohemian Rhapsody” não foi um sucesso imediato. Na verdade, a crítica conseguiu ser muito pouco simpática — a revista “Time” escreveu que “infelizmente as letras dos Queen não são material de sonetos”, o “New York Times” descreveu a banda como sendo capaz de produzir músicas “pretensiosas e irrelevantes”. Na análise ao álbum “A Night at the Opera”, a “Rolling Stone” nem sequer comentou a canção.

Parece que estavam todos enganados. Mais de 40 anos depois, “Bohemian Rhapsody” tornou-se na canção mais ouvida do planeta. Os Queen conseguiram bater os Nirvana nos serviços de streaming, e tornaram-se na música mais ouvida do século XX nestas plataformas. Estamos a falar de mais de 1,6 mil milhões de reproduções. Não é para qualquer um.

“Foi o bebé de Freddie desde o início”, contou o guitarrista Brian May na sua biografia, “Brian May: The Definitive Biography“. “Ele entrou e sabia exatamente o que queria.

Grande parte da canção foi escrita por Freddie Mercury na sua casa em Holland Road, Kensington, no Reino Unido. Em entrevista ao “New York Times” em 2005, o produtor de música Roy Thomas Baker recordou o momento em que ouviu pela primeira vez uma versão ainda muito provisória de “Bohemian Rhapsody”.

“Ele tocou o início no piano. Depois parou e disse: ‘É aqui que entra a parte da ópera’. Depois saímos para ir jantar”.

“Bohemian Rhapsody” era tudo menos convencional. Dividida em três segmentos, a canção começa com uma balada que termina com um solo de guitarra de Brian May. De seguida, começa uma pequena ópera composta por Freddie Mercury; por fim, vem a parte de hard rock.

No documentário “Queen: Days of our Lives”, de 2011, o pianista Chris Smith, amigo de Mercury, contou que o artista começou a desenvolver “Bohemian Rhapsody” em 1960. A versão original chamava-se “The Cowboy Song” e a frase “mama, just killed a man” foi escrita enquanto o músico estava na escola de arte, em 1968.

Brian May, John Deacon (de pé), Roger Taylor e Freddie Mercury a 8 de setembro de 1976

Getty Images

Com dificuldade em compor algo que encaixasse com aquela frase, Freddie Mercury costumava cantar esta frase enquanto tocava ao piano “A Day In The Life”, dos Beatles.

Foi na década de 70 que a música começou finalmente a ganhar forma. No verão de 1975, os Queen estavam a preparar o seu quarto álbum quando Mercury mostrou pela primeira vez “Bohemian Rhapsody”. A apresentação foi feita com pedaços de papel escritos.

“Nós achámos o rascunho de Freddie intrigante e original. Valia a pena trabalhá-lo”, contou Brian May ao “New York Times”. “Este foi um projeto bem planeado por Freddie, para o qual todos contribuímos o melhor que pudemos”.

Estavam todos contra “Bohemian Rhapsody”

Usando a tecnologia das 24 pistas disponíveis à época, a parte da ópera levou cerca de três semanas a terminar. Em outubro, a banda concordou que “Bohemian Rhapsody” seria o single do próximo álbum. Foi uma decisão arriscada — não tanto pela letra, explica Brian May na sua biografia, mas porque a música tinha seis minutos de duração. Nunca se tinha feito algo assim.

O manager da banda, John Reid, ficou pasmado. Pete Brown, coordenador da banda, também. “Muitos de nós pensámos que os Queen estavam loucos por considerar esta canção como o seu single”, contou na biografia de Brian May. “Tentei dissuadi-los, disse-lhes que a música era demasiado longa. John Deacon [baixista] concordou comigo em privado, mas o Brian, Freddie e Roger foram irredutíveis.”

Durante dois dias, ele passou ‘Bohemian Rhapsody’ praticamente sem parar. Ele dizia: ‘Ops, o meu dedo escorregou’ e lá vinha a canção.”

O produtor Gary Langhan também se recorda bem dessa resistência. Uma música tão longa seria um problema para as rádios, uma vez que “Bohemian Rhapsody” ocuparia dois slots em vez de apenas um. “Eu estava sentado na parte detrás da cabine no dia em que ‘Bohemian Rhapsody’ ficou terminada e sabia que tinha ouvido a melhor canção que alguma vez iria ouvir na minha vida.”

Kenny Everett, amigo de Freddie Mercury há alguns anos, ficou preocupado quando soube que os Queen iam lançar uma música tão grande. Quando a ouviu, porém, as suas dúvidas dissiparam-se. Antes mesmo da estação de rádio Capital Radio aceitar a canção, Everett, conhecido por ser pouco respeitador das regras, colocava-a no ar.

“O Kenny era incrível”, contou Pete Brown na biografia de Brian May. “Durante dois dias, ele passou ‘Bohemian Rhapsody’ praticamente sem parar. Ele dizia: ‘Ops, o meu dedo escorregou’ e lá vinha a canção.” Kenny Everett passou a música 14 vezes em dois dias. Os telefones da estação entupiram de chamadas — toda a gente queria saber quando é que o próximo álbum de Queen seria lançada.

Os Queen em finais dos anos 70

“A Night at the Opera” chegou ao público no último dia de outubro. Críticos e público dividiram-se. Literalmente: uma estação de rádio de Midlands, no Reino Unido, lançou um inquérito para eleger a melhor canção. “Bohemian Rhapsody” ganhou nas duas categorias: Melhor e Pior Canção.

Talvez tenha sido um daqueles casos em que primeiro estranha-se e depois entranha-se. Certo é que o single começou a ganhar cada vez mais seguidores, até se tornar num sucesso comercial. Ficou nove semanas no UK Singles Chart. Até ao final de janeiro de 1976, o álbum tinha vendido mais de um milhão de cópias.

Mas afinal qual é a mensagem de “Bohemian Rhapsody”?

Ninguém sabe. Mercury, que morreu em 1991, sempre se recusou a explicar a letra, dizendo apenas que estava relacionada com relações. Alguns interpretaram a letra como uma forma de lidar com os seus problemas pessoas, considerando que ele nunca admitiu oficialmente a sua bissexualidade.

“Tenho uma ideia perfeitamente clara do que estava na cabeça do Freddie”, disse May ao “New York Times”. “Mas ficou claro entre nós que o verdadeiro núcleo de uma canção é um assunto privado para o compositor, seja ele qual for. Portanto, respeito isso.”

À mesma publicação, o produtor de música Roy Thomas Baker respondeu com uma gargalhada. “Se lhe disser, tenho de o matar a seguir”.

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