As respostas mais mirabolantes que os alunos escrevem nos testes

Nas aulas ou nos exames, as crianças estão muito imaginativas. Mostramos-lhe em imagens as respostas mais engraçadas.

Há cinco anos, a professora de Português Zélia Barreto quase tremeu quando, numa visita de estudo ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, uma aluna levantou o braço com uma questão. Na frente do túmulo de Fernando Pessoa, a guia tinha explicado todo o processo de transladação dos restos mortais do poeta, e perguntava agora se alguém tinha alguma pergunta.

“A aluna diz: ‘Sim, eu tenho uma dúvida. Para que é que são aqueles quatro furinhos que estão no túmulo?'”, recorda à MAGG a professora de 50 anos.

Ninguém tinha reparado naquele pormenor. Os “furinhos”, explicou a guia, serviram para inserir as cordas que moveram o túmulo. “Ah, pensei que era para eles respirarem. Como eles são quatro, achei que cada um respirava pelo seu furinho”, disse a aluna do 6.º ano.

Como no túmulo estão os nomes dos heterónimos de Fernando Pessoa — Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis —, a aluna achava que repousavam ali quatro cadáveres. E que, por alguma razão, eles ainda precisariam de oxigénio para respirar.

“A guia não respondeu e olhou para nós. Eu e o meu colega de História fingimos que estávamos a desaparecer”, ri-se.

Os alunos não dão respostas mirabolantes para serem engraçados

Não é fácil ser-se professor. Até porque, garantem os profissionais da área, os alunos dão cada vez mais respostas sem sentido. “Eles não estão a tentar ser engraçados, eles não entendem mesmo o que lhes é pedido”, explica Zélia Barreto. “E isto tem vindo a piorar ao longo dos anos. Atualmente o problema é lerem um texto e não perceberam o que está lá, não conseguem interpretar.”

O professor de Português e Francês Mário Alves é da mesma opinião. “Também noto isso. Os alunos repetem sempre as mesmas questões: ‘O que é que quer dizer com isto?’, ‘o que é que quer perguntar com isto?’ A nível de interpretação, eles têm muita dificuldade em entender o que é pedido”.

Tal como Zélia Barreto e Mário Alves, a professora de Matemática Daniela Nunes também acredita que uma das maiores dificuldades dos alunos neste momento é a compreensão do que lhes é pedido. “Às vezes precisam de ajuda para interpretar, mas não propriamente para responder”.

Os erros ortográficos também têm vindo a aumentar. “Penso que agora é um bocadinho mais complicado do que há uns anos”, garante Daniela Nunes, 50 anos. “Em relação aos erros científicos da disciplina, é mais ou menos similar. Não considero que esteja pior”.

Não conseguimos trabalhar como devíamos. Não temos tempo”.

Mário Alves, 63 anos, também destaca o (enorme) problemas dos erros. “Antigamente havia outra preocupação. Hoje em dia é demais, dão imensos erros.”

Mas porque é que isto está a acontecer? Na opinião de Zélia Barreto, os professores não têm tempo para explorar a parte da interpretação. “Os conteúdos gramaticais são muito, muito grandes. Depois falta tempo para praticar a interpretação. Eu insisto muito nesta parte, mas sei que acaba por ficar para o final quando, na minha opinião, é mais importante até”, diz. “Não conseguimos trabalhar como devíamos. Não temos tempo”.

Mário Alves refere ainda o problema da falta de hábitos de leitura e escrita. “Eles leem muito pouco. É aquilo que lhes digo: ‘Para serem bons alunos, têm de ler e escrever’. E eles não gostam nem de ler nem de escrever.”

Qual é a região que se situa entre Marte e Júpiter? A região católica

Quase todos os dias, os professores deparam-se com respostas mirabolantes dos miúdos. Do ensino básico ao secundário, há respostas que deixam os docentes sem saber se devem rir ou chorar.

“Tente convencer um amigo sobre a utilidade da Filosofia”
Resposta: “A Filosofia abre portas. Tu és maneta. Logo, a filosofia vai-te ajudar.”

Qual é para ti a característica mais importante que uma pessoa pode ter?” “As mamas.”

“Em 711 chegaram à Península Ibérica os…”
“Linces-ibéricos.”

“Dá um exemplo de uma doença associada ao sistema digestivo, explica em que consiste e quais as causas mais frequentes.”
“Apendicite que faz as pessoas pensarem que estão gordas mas estão magras e que as faz não comer.”

“O que é a romanização?”
“É um jantar romântico.”
“Então porquê?”
“Rom-rom. Tem o mesmo radical. Palavras da família.”

“Qual é para ti a característica mais importante que uma pessoa pode ter?”
“As mamas.”

“Quais são os três estados físicos da água?”
“Líquido, ceco [sic] e viscoso.”

“Região que se situa entre Marte e Júpiter”
“Região católica.”

Zélia Barreto tem mais histórias. Na verdade, difícil é recordar todas as situações que já lhe aconteceram. Ainda este ano letivo ficou embasbacada com a resposta de um aluno sobre o porquê do anjo não falar no início da obra “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente.

“Contrariamente ao diabo, que está muito feliz, o anjo não fala. A resposta foi: porque o diabo não o quer levar para o inferno”. Confuso? O aluno achava que o anjo não falava porque queria ir para o inferno e o diabo não lhe fazia a vontade.

Há quatro anos, Zélia Barreto fazia parte do Clube Europeu e pediu para os alunos pesquisarem porque é que se celebrava o Dia da Europa. “Eu não preciso de pesquisar, professora”, respondeu uma aluna. “Eu sei. Foi o dia em que a Europa se tornou independente.” “Independente do quê?”, questionou a professora de Português. “Ó professora… obviamente que é da Ásia, não?”.

Mário Alves também se recorda de várias situações em que os alunos responderam de forma bizarra. A dar “Aparição”, de Vergílio Ferreira, o professor de Português questiona os alunos sobre o momento em que a personagem se vê ao espelho e vê a “aparição fulminante de mim a mim próprio”.

“Perguntei qual a simbologia e vários alunos responderam que era um milagre”.

Na obra “A Sibila”, de Agustina Bessa-Luís, perguntava qual era o papel da mulher. “A mulher? A mulher é a trabalhadora porque o homem é um malandro e vai para a taberna, e a mulher é que fica a trabalhar”, respondeu um aluno do 12.º ano.

Nos 41 anos de carreira, Mário Alves sente que os alunos têm cada vez mais dificuldade em compreender as outras épocas representadas nos livros. Na obra “Os Maias”, à pergunta “porque é que Pedro se suicida”, um aluno respondeu: “Porque era maluco. Fazia algum sentido suicidar-se só porque a mulher fugiu com outro?”.

Sobre Fernando Pessoa, também nunca faltam comentários a dizer que ele deveria ter procurado ajuda psiquiátrica — tanto por ser um tanto ou quanto depressivo, como por ter criado pessoas que não existiam.

Quando não são os alunos a dizer disparates

Há algumas situações frequentes nas aulas de Matemática. Por exemplo: 1,4 horas. “A resposta imediata, quando eles são pressionados, é 1h40 minutos. Claro que é um disparate, é 1h24.” Outro erro comum é pedir para determinar o valor de X e, em vez de fazerem isso, responderem apenas que X é uma variável.

Estes são os lapsos mais frequentes dos alunos, segundo a professora de Matemática que, este ano, está a dar aulas apenas a alunos do 10.º ano. Mas nem sempre são eles os autores dos disparates.

Daniela Nunes recorda-se de uma visita de estudo ao Museu de Lisboa, antigo Museu da Cidade, há mais de 20 anos. “O guia falava insistentemente sobre um sólido, um cubo, só que dizia quadrado em vez de cubo.”

Foi risada total entre os alunos: é que a professora de Matemática já tinha explicado várias vezes em contexto de sala de aula que era errado referir-se a um cubo como um quadrado. Um quadrado é uma coisa. Um cubo é outra. “De cada vez que o guia se enganava, eles riam-se.”

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