Há uma razão para os miúdos gostarem mais brincar com uma chave do que com um brinquedo? Fizemos o teste

Por mais coloridos e engraçados que sejam os brinquedos, as crianças são sempre atraídas por objetos comuns? Fizemos a experiência.

Se tem filhos, de certeza que já lhes arrancou várias vezes a chave do carro, o telemóvel ou o comando de televisão, tentando substituir o objeto por um brinquedo mais apropriado à idade. Resultou? Provavelmente, não.

Impulsionados pela ideia de que as crianças preferem (quase) sempre os objetos do dia a dia aos bonecos de peluche ou a brinquedos coloridos e sonoros, fomos testar a teoria com o objeto de estudo mais fofinho de sempre: uma bebé de 19 meses.

À vez, colocámos em frente à nossa amorosa “cobaia” cinco pares de objetos, sendo que um deles foi sempre um brinquedo. Observámos a reação da bebé ao ser presenteada com uma chave de um carro e uma roca, com uma caixa de plástico e um tacho de brincar, com uma garrafa de água vazia e um urso de peluche, com um telemóvel e uns binóculos coloridos e, por último, com uma bola e uma embalagem de creme.

Das cinco oportunidades, a criança escolheu o brinquedo em primeiro lugar duas vezes, sendo mais seduzida pelos objetos comuns do quotidiano nas restantes três tentativas. Mas segundo uma especialista, há uma razão muito simples para tal.

Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica, explica à MAGG que as crianças são seduzidas pelos objetos que mais costumam ver no seu quotidiano, nas mãos de figuras significativas, tal como os pais. “As crianças pequenas descobrem o mundo pela observação do que as rodeia. Cognitivamente, não dividem os objetos à sua volta entre objetos triviais e brinquedos, simplesmente relacionam-se com o que existe em função dos estímulos sensoriais presentes: cores, sons, cheiros e texturas”, explica a especialista.

Dado que este tipo de objetos comuns, tais como garrafas de água, chaves ou telemóveis, estão permanentemente no campo de visão dos mais pequenos e são alvo de manipulação pelos pais ou outras figuras significativas, “acabam por apresentar-se como mais estimulantes e apetecíveis do que alguns brinquedos que só surgem em algumas situações e apenas dirigidos à criança”.

Por exemplo, se o seu filho tem uma adoração por comandos de televisão e já tentou arranjar uma réplica em brinquedo, não se admire se a troca não for bem sucedida e a criança continuar a preferir o comando real. “Os mais pequenos sabem instintivamente que aquele não é o objeto real logo, mesmo com um idêntico acessível, preferem o outro objeto mais usado pelos pais e mais restrito a si”, afirma Filipa Jardim da Silva.

No entanto, desde que assegure as condições de segurança do seu filho, o melhor é deixá-lo explorar livremente os objetos. “É importante permitir que as crianças explorem o mundo à sua volta e que aprendam a brincar com liberdade e criatividade”, frisa a psicóloga.

Filipa Jardim da Silva acrescenta que os miúdos precisam, acima de tudo, de estímulos e não de brinquedos formais: “Mais do que o brinquedo A ou B, o desejável é que sejam cumpridos os desafios de cada etapa de desenvolvimento e isso poderá ser feito com brinquedos específicos ou objetos do dia a dia. Quando queremos que a criança aprenda a agarrar um objeto e a manipulá-lo, é indiferente que seja uma boneca, uma garrafa de plástico ou uma colher de pau. Quando queremos que desenvolva competências motoras, tanto faz aprender a pontapear uma bola ou um rolo de papel higiénico”.

Para compreender melhor esta escolha curiosa das crianças, é também necessário entender que a forma como os mais pequenos olham para os objetos não é igual à dos adultos. “As crianças não ligam à função ou categoria do objeto, mas sim às suas características sensoriais”, afirma a psicóloga, sendo assim mais fácil perceber o porquê de os miúdos por vezes ligarem mais ao papel de embrulho do que à prenda em si. “Uma criança poderá ficar mais entretida a rasgar o papel de embrulho, perdendo-se na textura do papel, no som do rasgar, nas cores e figuras presentes do papel”, conclui a especialista.

Texto de Catarina da Eira Ballestero, vídeo de Samuel Costa.
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