Xi Jinping. As excentricidades do Presidente que alugou o Ritz todo e parou Lisboa

Viveu numa gruta e criou campos de reeducação para muçulmanos. Trouxe limusines blindadas que obrigaram a alargar o portão do aeroporto.

Xi Jinping tem 65 anos e é presidente da China desde 2012

AFP/Getty Images

Havia quem se perguntasse “mas que raio se passa em Lisboa hoje?”. Trânsito lento, Segunda Circular cortada e ruas sem acesso por toda a cidade. Isto sem aviso prévio, até porque o segredo faz parte, não do negócio, mas de uma visita inédita a Portugal.

É a primeira vez que o presidente chinês Xi Jinping está em Lisboa e, por questões de segurança, os percursos da comitiva são quase todos mantidos em segredo. Só os moradores e comerciantes tiveram acesso a esta informação privilegiada, mas apenas porque precisaram de pedir uma acreditação para aceder às ruas de todos os dias, mas que hoje e amanhã serão vias exclusivas para este líder.

E não só as ruas ficaram reservadas para a comitiva oriental. Pela primeira vez na história de um hotel com quase 60 anos, o Ritz ficou completamente reservado a um grupo, o de Xi Jinping.

Dois milhões de euros é quanto o presidente da China pagou para ter por sua conta o hotel todo durante dois dias, avança o “Jornal i”. Mas as excentricidades não se ficam por aí, assim como não chegam meia dúzia de linhas para contar a história de um presidente que, se quiser, pode ser eterno. Comecemos por aí.

Presidente por tempo indeterminado

O parlamento da China aprovou, em março, uma emenda constitucional que elimina os limites do mandato presidencial, permitindo que o presidente Xi Jinping permaneça no cargo por tempo indefinido.

Pelas regras da Constituição, em 1982, o atual líder poderia exercer a presidência até 2023, mas com a abolição dessa norma, Xi Jinping pode ser presidente até querer ou até morrer.

O poder nasceu consigo, uma vez que é filho de Xi Zhongxun, um revolucionário que fez parte da primeira geração da liderança do regime comunista. Pertence ao grupo dos chamados “príncipes do partido” e, com a acumulação de cargos ao longo dos últimos anos, é o Presidente com mais poderes desde Mao Tsé Tung.

Educação rígida

Quando tinha 15 anos, fez parte de uma campanha radical de massas lançada por Mao e que incentivava os jovens urbanos a viverem em aldeias do interior da China para que pudessem aprender com os camponeses. Em vez de se revoltar com a decisão como aconteceu com a maioria dos jovens na mesma situação, o atual presidente abraçou a experiência de tal forma que ainda hoje recorda esses anos como fundamentais para a sua formação enquanto pessoa e enquanto político.

Viveu numa gruta, trabalhou como agricultor durante sete anos e assumiu o papel de contador de histórias. É conhecido por ser um leitor voraz e um bom contador de histórias e, na aldeia, deixou quase trinta livros para serem consultados pelos habitantes.

Mais tarde, estudou engenharia química na Universidade Tsinghua e iniciou uma carreira política, primeiro quando aderiu à Juventude Comunista, em 1971, e depois ao Partido, em 1974.

Um presidente de contrastes

Por um lado, escolheu o combate à corrupção como um dos principais objetivos da sua liderança e mais de um milhão de pessoas foram já detidas no âmbito desta campanha, muitas delas altos dirigentes nacionais e regionais do partido.

Por outro, censura a internet ao ponto de o site da HBO ter sido bloqueado na China depois de o comediante britânico John Oliver, apresentador do “Last Week Tonight”, ter comparado o Ursinho Pooh ao presidente chinês.

Além disso, legalizou em outubro os chamados “campos de reeducação” de muçulmanos, integrados na “campanha de doutrinação” da minoria religiosa (constituída, em grande parte, pelos uigures). Para além dos milhões que estão detidos, os uigures em liberdade estão sujeitos a um sistema de vigilância apertado, com procedimentos que incluem câmaras colocadas em casas e bairros e redes de espiões.

Visita inédita a Portugal

Esta visita do presidente chinês a Portugal assinala os 40 anos de relações diplomáticas entre os dois países. Esta é a terceira vez que um chefe de Estado chinês se desloca ao País, mas nenhum deles conseguiu a exclusividade de Xi Jinping.

É que alugar o Ritz para dois dias já seria digno de nota, mas o presidente não se fica por aqui. Trouxe as três limusines blindadas em que costuma deslocar-se, o que obrigou ao alargamento quer da entrada da garagem do Hotel Ritz, quer do portão da saída de emergência do Aeroporto Humberto Delgado.

Além disso, Xi Jinping incluiu na comitiva o seu próprio cozinheiro e reservou para si uma das suites com vista para a cidade.

À volta do Ritz, o aparato obriga a que moradores e comerciantes sejam revistados à entrada e saída da zona e para amanhã esperam-se ruas fechadas na zona da Assembleia da República, onde a delegação chinesa será recebida pelo presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

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