Comer placenta: bom ou mau para mãe e filho? Os médicos falam em efeito placebo

Kim Kardashian e Hilary Duff já ingeriram a placenta e acreditam que previne depressão pós-parto. As opiniões divergem sobre os riscos.

O uso da placenta como medicamento já existe na medicina tradicional chinesa 

Consumir placenta? Sim, acontece e não faz parte de nenhum ritual satânico. A placentofagia, ou seja a prática de consumir placenta para curar e prevenir determinadas patologias, é recorrente no Oriente e está a tornar-se cada vez mais comum nos Estados Unidos e na Europa.

São várias as celebridades de Hollywood que seguem a tendência, como Hilary Duff . Numa entrevista recente ao podcast “Dr. Berlin’s Informed Pregnancy“, a ex-estrela da Disney revelou ter consumido a sua placenta num smoothie misturado com frutos vermelhos e sumo de frutas, logo após o parto da filha Banks Violet Blair. “Deliciosa”, foi a palavra que usou para definir a bebida.

Outro caso muito conhecido é o de Kim Kardashian que explicou no seu site oficial ter congelado e transformado o órgão em comprimidos, esclarecendo que não “o fritaria como um bife”. A sua decisão foi tomada depois de ouvir histórias de mães que tiveram depressão pós-parto e que, adotando este método nas seguintes gestações, não tiveram mais esse problema. A socialite afirmou ter tido grandes resultados: “Senti-me com tanta energia, sem quaisquer sinais de depressão! Cada vez que tomo um comprimido, sinto uma onda de energia, e sinto-me realmente saudável e bem. Recomendo-o totalmente a qualquer pessoa que esteja a considerar fazê-lo”.

A placentofagia é feita de várias maneiras e há relatos de mães que consumiram partes do órgão grelhadas (que é a forma menos comum), crus (sobretudo em smoothies) ou em comprimidos. Se tudo isto parece excêntrico no Ocidente, o mesmo não se passa na China, na Coreia do Norte, na Coreia do Sul e no Vietname. Nestes países, a placenta é considerada uma fonte de energia vital e utilizada (depois de desidratada ou reduzida a pó), em preparados de medicina tradicional, como chás ou pílulas, utilizados pela população em geral e não só por recém mães.

Os defensores da prática afirmam que o consumo da placenta pelas mães melhora a produção de leite, diminui a fadiga, as hemorragias e os sintomas do “baby blues”. O órgão pode servir ainda a outras pessoas para tratamento de distúrbios do sono, inflamações e cicatrizes ou para regulação hormonal durante a menstruação e menopausa.

Mas esta prática pode trazer problemas: os médicos apontam para o risco de infeção e contaminação pelas toxinas e hormonas que se acumulam na placenta durante a gestação e realçam que a eficácia destes processos no tratamento de doenças não foi ainda demonstrada.

“Quando as mulheres me dizem que vão fazer isso eu não me oponho, de todo”, afirma à MAGG a obstetra Alexandrina Branco, acrescentando que algumas que o fizeram se sentiram realmente melhor.

Para esta médica, o importante é que a mulher se sinta bem no pós-parto, nem que seja por beneficiar do chamado efeito placebo. “Algo que é inócuo, mas que traz benefícios para a pessoa, não é necessariamente mau. A pessoa mentaliza-se que está bem, sem necessidade de tratamentos mais agressivos como antidepressivos”, frisou. O que não quer dizer que a mulher não tenha que se “informar adequadamente sobre os prós e os contras desta decisão”.

Já o “American Journal of Obstetrics & Gynecology”  publicou um estudo de revisão dos artigos científicos sobre o assunto em que se concluiu que ainda que haja um fascínio cada vez maior pela placenta “não existe nenhuma evidência científica dos benefícios clínicos da placentofagia humana”.

Segundos os investigadores, os nutrientes e as hormonas da placenta não são retidos em quantidades suficientes depois de encapsulados de forma a serem uma potencial ajuda para as mães no pós-parto.

Aliás, citam um alerta lançado este ano pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças, a agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, contra este consumo, depois de um recém nascido ter desenvolvido uma infecção generalizada após a mãe tomar comprimidos de placenta que continham a bactéria Streptococcus agalactiae.

O Centro recomendou que fosse evitado o consumo destes comprimidos já que não havia a garantia de erradicação eficaz de microrganismos patogénicos durante o processo de encapsulamento da placenta.

Por outro lado, o mesmo artigo refere o único estudo credível realizado sobre o efeito placebo, referindo que os resultados não revelaram particulares mudanças fisiológicas e no comportamento e humor dos dois grupos de mulheres (que tomavam os comprimidos de placenta e as que tomavam o placebo).

Alexandrina Branco prefere atribuir mais importância aos benefícios do que aos perigos. “Na minha opinião não coloca riscos; se assim fosse a medicação dada às mães no período de amamentação teria que ser muito mais cuidadosa. Para além disso, quando se fala de hormonas e toxinas acumuladas na placenta isso quer dizer que o bebé esteve em contacto com elas durante a gravidez, por isso não faz sentido”, reitera a obstetra. Na verdade, sublinha, não existem estudos suficientes para tirar conclusões definitivas relativamente ao assunto.

Contudo, o estudo publicado pelo “American Journal of Obstetrics & Gynecology” destaca a concentração de hormonas e toxinas associada à preparação da placenta a baixas temperaturas como possíveis fatores de risco para se contraírem doenças como a sida ou hepatites.

“Nós somos uns mamíferos especiais. Nesta altura da nossa existência podem não ser só questões sociais que nos levam a não consumir a placenta. Em princípio nós consumimos nutrientes e vitaminas na nossa dieta, que não precisamos de procurar na placenta”, acrescenta Alexandrina Branco. Muitos dizem que a placentofagia é muito comum nos outros mamíferos, um argumento que a obstetra não aceita para justificar a prática.

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