Síndrome do impostor. 70% já se sentiu uma fraude pelo menos uma vez na vida (e é pior nas mulheres)

Existem cinco tipos. Sinais de alerta e estratégias para acabar de vez com a voz que o acusa de não merecer o sucesso.

Uma conversa interna negativa ou a necessidade de verificar várias vezes o trabalho feito são alguns sinais de que pode sofrer deste síndrome

Em setembro de 2015, Emma Watson confessou em entrevista à revista “Vogue” que se sentia uma “impostora”. Apesar da sua carreira de atriz e de modelo, bem como de ser um ícone do feminismo, não eram raros os momentos em que achava que não merecia nada daquilo.

Dois anos antes, já tinha falado sobre o assunto à revista “Rookie“. “Parece que quanto melhor me saio, maior é o meu sentimento de inadequação”, disse. “Penso que em qualquer momento alguém vai descobrir que sou uma fraude e que não mereço nada do que conquistei”.

Emma Watson sofre do chamado síndrome do impostor. E não está sozinha: na lista de celebridades, somam-se outros nomes bem conhecidos como Maya Angelou, Kate Winslet, Jodie Foster ou Michelle Pfeiffer. A todos eles, juntam-se, bem, quase todas as pessoas do planeta.

“Um estudo de 2011 sugere que aproximadamente 70% das pessoas experimenta pelo menos um episódio do síndrome do impostor nas suas vidas”, explica à MAGG a psicóloga clínica Cristiana Pereira, da Oficina de Psicologia. E qual é o segmento mais afetado? As mulheres bem sucedidas.

O que é o síndrome do impostor

Alguma vez questionou as suas conquistas? De uma forma em que, no seu íntimo, tenha a certeza de que não merece nada daquilo e que em breve alguém irá descobrir isso? Chama-se a isso síndrome do impostor.

“O síndrome do impostor é um sentimento generalizado de insegurança ou fraude”, explica a psicóloga. “As pessoas que sofrem deste síndrome tendem a sentir que não são merecedoras das suas conquistas e do seu sucesso, receando permanentemente serem descobertas e expostas como uma fraude — tal como acreditam que são.”

Quem sofre do síndrome do impostor não acredita no seu mérito. Pelo contrário, acham que não são inteligentes nem competentes e que apenas enganaram todas as pessoas que as valorizam.

Em casos mais levianos, o síndrome do impostor é apenas aquela vozinha chata que ecoa no fundo da nossa mente. Em situações mais graves, pode ser devastador. “A pessoa pode sentir-se impedida de partilhar as suas ideias, de se candidatar a uma determinada universidade ou de exercer determinadas funções no seu trabalho.”

Sinais de que sofre deste síndrome

Não existem regras únicas no que diz respeito ao síndrome do impostor — existem vários sinais de que pode sofrer deste sentimento de que é uma fraude, sinais esses que podem ser sentidos de forma diferente de pessoa para pessoa. No entanto, explica a psicóloga clínica Cristiana Pereira, estes são os mais comuns.

1. Conversa interna negativa;
2. Necessidade de verificar várias vezes o trabalho feito;
3. Adotar um low-profile no local de trabalho;
4. Necessidade de compensar no trabalho, como ficar até tarde ou não estabelecer limites em relação à carga de trabalho;
5. Sentimentos persistentes de insegurança e medo de serem descobertas como falsas;
6. Culpam-se por falhas, mesmo quando existem outros fatores externos;
7. Tendem a atribuir o sucesso à sorte, em vez de olharem para ele como mérito próprio e fruto do seu trabalho;
8. Podem adiar as suas tarefas até ao último minuto e, como receiam o fracasso, evitar novos desafios;
9. Receiam ouvir críticas ou opiniões, já que estas serão sentidas como um fracasso;
10. No que respeita aos elogios, estes são desvalorizados, sentidos como falsos ou exagerados.

Existem 5 tipos de impostores

“Valerie Young, que é considerada uma especialista neste tema, considera que existem cinco tipos de ‘impostores'”, explica Cristiana Pereira. Apresentamo-los de seguida.

O especialista. “O especialista não se sente satisfeito ao terminar uma tarefa se não sentir que sabe tudo sobre o assunto. Os especialistas procuram continuamente novas informações, o que impede que concluam tarefas e projetos. São também aqueles que evitam candidatar-se a um emprego porque não preenchem todos os requisitos.”

O perfeccionista. “As pessoas que procuram a perfeição muitas vezes sentem grandes níveis de ansiedade, dúvida e preocupação, especialmente quando não conseguem alcançar os seus objetivos máximos. Os perfeccionistas geralmente estão insatisfeitos com o seu trabalho e tendem a concentrar-se em áreas onde poderiam ter feito melhor, menosprezando o que fizeram bem.”

O génio natural. “Os génios naturais normalmente são capazes de dominar uma habilidade nova de forma rápida e fácil e, muitas vezes, sentem vergonha e fraqueza quando não conseguem. Estas pessoas não reconhecem que é necessário desenvolver as suas habilidades ao longo da vida para ter sucesso.”

O instrumentista. “Também pode ser conhecido como o individualista robusto. São pessoas que preferem trabalhar sozinhas e tendem a acreditar que pedir ajuda revelará a sua incompetência. Normalmente recusam ajuda para que possam provar o seu valor individual.”

O super-herói. “Os super-heróis geralmente destacam-se em todas as áreas, principalmente porque se esforçam muito. Um exemplo podem ser os ‘workaholics’. No entanto, esta sobrecarga de trabalho poderá conduzir a um cansaço extremo, o que pode afetar a saúde física, bem-estar mental e o relacionamentos com os outros.”

O síndrome do impostor está relacionado com uma baixa auto-estima?

“A baixa auto-estima geralmente alimenta o síndrome do impostor, já que as conquistas e o sucesso que as pessoas obtêm são constantemente questionadas por si próprias”, explica a psicóloga. Portanto, por mais bem sucedidas que as pessoas sejam, não conseguem ignorar a sensação de que estão a enganar os outros.

A partir daí é uma bola de neve: se por um lado a baixa auto-estima alimenta o síndrome do impostor, por outro o síndrome do impostor também alimenta a baixa auto-estima.

Estratégias para superar o síndrome do impostor

Em primeiro lugar, é importante falar sobre o assunto. Com um amigo de confiança, um membro da família ou um profissional de saúde mental, este primeiro passo é de extrema importância. “Assim, as pessoas poderão distinguir mais facilmente o que é a sua perceção e a realidade de uma determinada situação.”

Investigar mais sobre o tema também ajuda, de forma a conseguirem identificar os seus seus sintomas e os padrões de pensamento. A psicóloga Cristiana Pereira sugere que façam um registo por escrito das suas conquistas: “Poderá ajudá-las a ficarem surpreendidas com elas mesmas e a aumentar a sua auto-estima.”

Por fim, é importante compreender que ninguém é perfeito. “A aceitação de si próprio, das falhas ou dos erros é uma parte importante para uma auto-estima saudável e do valor próprio.”

“Caso a pessoa sinta que as estratégias que utiliza não são suficientes para lidar com este síndrome, é importante pedir ajuda profissional, já que os sintomas poderão persistir e afetar severamente a sua saúde mental e a sua qualidade de vida.”

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