As histórias mais emocionantes com crianças contadas por Severino, o homem que é Pai Natal no Colombo há 18 anos

Trabalhou 32 anos na banca e quando se reformou virou Pai Natal. Já lhe pediram droga, irmãos e já lidou com a morte e insinuações sérias.

Apesar do cansaço no corpo depois das festividades, convive muito mal com a ideia de um dia ter de abandonar a personagem

Samuel Costa

Severino Moreira, 60 anos, já é conhecido pela sua branca e longa barba e pelo sorriso que lhe valeu o cognome Pai Natal do Sorriso. Depois de se reformar da área da banca, onde trabalhou durante 32 anos, apostou no teatro e já fez telenovelas, filmes e anúncios de publicidade, mas o que mais o preenche é fazer de Pai Natal no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, há 18 anos. É aqui que, segundo conta à MAGG, aprende verdadeiras lições de vida.

Já viveu situações tristes e dramáticas, como ter visitado uma criança um dia antes de ela morrer — que considera o momento mais devastador da vida — mas recorda muitos outros divertidos. Um deles foi o momento em que uma criança, para provar aos amigos que a barba de Severino Moreira era real, esteve durante muito tempo quase que pendurado na sua barba enquanto acenava e gritava aos amigos para o irem comprovar por eles mesmos. Ou quando um outro miúdo, bem mais rebelde, lhe deu um puxão tão grande nos pelos da barba por duvidar de que aquele era mesmo o Pai Natal.

Ao ver que a barba era verdadeira, conta Severino Moreira, aquela criança converteu-se. “Naquele momento passei mesmo a ser o Pai Natal e lembro-me de ele me dizer com os olhos bem abertos: ‘Pai Natal, eu vou dar um murro ao Rodrigo porque ele disse que tu não existias’ [risos].”

A propósito da chegada do Pai Natal ao Centro Comercial Colombo este sábado, 1 de dezembro, a MAGG foi conhecer as suas histórias e todos os momentos por que passou até hoje.

Como é que chegou a Pai Natal do Colombo?
Foi uma situação muito curiosa e até aleatória. Como me reformei muito cedo da banca e como sou, por natureza, uma pessoa muito dinâmica que gosta de se mexer, não queria estar parado. Embora tivesse aproveitado logo a reforma porque estava ansioso por ela já há muito tempo, depois de 32 anos na banca, achei que não ia suportar estar em casa de chinelos a ver televisão. Não é a minha natureza.

Como sempre fiz muito teatro amador quando era jovem, houve quem me alertasse para me inscrever em agências de publicidade ou figuração. Assim fiz e tive a sorte de ter ganho um casting para fazer de Pai Natal. Mais tarde soube que o Colombo estava a precisar de alguém para encarnar a figura mas lembro-me de que recusei porque não me via a fazer aquilo. Depois de muita ponderação, e até porque gosto de desafios, acabei por aceitar e disse que fazia aquilo por um ano.

O Natal é uma mensagem, uma postura, uma atitude, e isso tudo percorre as gerações que passam por mim.

Entretanto, um ano já se transformou em 18 [risos], e tem sido uma experiência repleta de coisas novas e de contacto com muitas gerações. Aliás, há uma coisa que me comove muito que é o facto de jovens mães virem ter comigo com os seus bebés quando, elas próprias já tiraram fotografias comigo antes.

Quando diz que se reformou muito cedo, isso teve alguma justificação?
Foi uma consequência natural da situação da banca na altura. Muitos bancos sofreram fusões e o meu foi assimilado por um outro, o que gerou excesso de pessoal. Na altura, foi até interesse do próprio banco começar a dispensar algumas pessoas e perguntaram se alguém estaria interessado a sair com alguns bónus. Eu, que tinha já 32 anos de experiência na área, aproveitei a oportunidade e saí.

Há crianças que vêm ano após ano ao Colombo e o reconhecem?
Sim, essa relação é muito gira e isso acontece-me muito. É outra situação que gera afetos, porque são pessoas que, de uma forma ou outra, cresceram comigo. Tenho até casos de jovens, agora mais crescidos, que apesar de já não acreditarem na versão infantilizada do Pai Natal, continuam a visitar-me e temos conversas muito engraçadas.

Severino Moreira deixa crescer a barba para chegar a este nível de comprimento

Samuel Costa

O Natal é uma mensagem, uma postura, uma atitude e tudo isso percorre as gerações que passam por mim. Os pais vão-me trazendo os miúdos e eles vão ficando por aqui à conversa.

Os pedidos mais estranhos e os momentos embaraçosos

O que é preciso para encarnar esta figura?
Em primeiro lugar, é preciso gostar porque, e ao contrário daquilo que as pessoas pensam, isto é muito mais cansativo do que parece. Mas é um prazer fazer de Pai Natal porque há muito enriquecimento humano envolvido. As vivências são puras e intensas, e isso satisfaz-me e realiza-me muito. Costumo dizer que se houve alguma coisa que os deuses, Deus ou alguém superior me tenha dado como prémio na última etapa da minha vida, foi precisamente a oportunidade de poder fazer de Pai Natal. Aprendo todos os dias.

Alguma vez lidou com crianças mal educadas?
Preferia antes chamar-lhes meninos que vêm contrariados ao Pai Natal. Às vezes são os pais que querem aquela fotografia e o que eu noto é que, quando essas crianças vêm com os pais, têm um comportamento completamente distinto de quando vêm com os amigos. E isto explica-se muito facilmente: é que quando vêm com a família, têm receio que as pessoas que passam os tenham como ingénuos por ainda acreditarem no Pai Natal.

Quando vêm com os amigos já é num outro contexto, vêm com vontade de gozar com a situação. E são eles próprios que se propõem a situações um bocadinho mais fatigantes. Quando é malta jovem que me aborda, gosto muito de tirar fotografias mais brincalhonas, ao contrário daquela mais convencional com o bebé.

Apesar de viver muito esta época, nem imagina o cansaço que sinto no corpo depois de terminarem as festividades. É um esforço muito grande, mas a minha família não me perdoaria se, depois de ter feito para milhares de outras pessoas, não fizesse para elas também.

Qual é que foi a coisa mais estranha que lhe pediram?
Já me pediram 200 quilos de droga, por exemplo, mas aí não eram miúdos. Eram jovens que tentavam, nitidamente, provocar e até desestabilizar o ambiente. Com muita calma e condescendência, acabei por contornar a situação ao ponto de eles chegarem mesmo a tirar uma fotografia comigo e a desabafar sobre aquilo que estavam a passar.

O Colombo tem essa particularidade de atrair uma população muito heterogénea e distinta, e temos de saber lidar com todas as situações e ir contornado à medida que vão surgindo.

E situações embaraçosas, há muitas?
Claro, mas foi mais grave há uns anos, na altura em que se falava muito sobre pedofilia. De vez em quando aparecia alguém que dizia que, como eu estava com uma criança ao colo, recomendava cuidado às pessoas que ali estavam. Mas nunca era uma coisa que me dissessem diretamente. Era sempre de fugida, com um ar cobarde. Mas mesmo aí o Pai Natal tem de se preocupar em defender a personagem e procurar cativar.

Geralmente demora uma hora a prepara-se e a vestir o fato completo

Samuel Costa

Mantém algum contacto ou conhece os restantes Pais Natais da cidade?
Conheço, mas os mais marcantes já morreram e é um desgosto que vivo muito intensamente. Ainda no ano passado morreu um a poucos dias de eu começar aqui a fazer de Pai Natal aqui no Colombo, por isso vivi esse Natal com a imagem dele bem presente na minha mente.

Além de fazer de Pai Natal aqui no Colombo, desempenha essa personagem para a família?
Claro. Eu sou o mais velho de nove irmãos e sempre fui pessoa de usar barba por isso tocava-me sempre a mim encarnar a personagem. Apesar de viver muito esta época, nem imagina o cansaço que sinto no corpo depois de terminarem as festividades. É um esforço muito grande, mas a minha família não me perdoaria se, depois de ter feito para milhares de outras pessoas, não fizesse para elas também. Imagine se o Pai Natal dissesse que não fazia. Esfolavam-me vivo [risos].

Há muitas crianças que lhe pedem um irmão, por exemplo?
Chega a ser preocupante a regularidade com que isso acontece, mas suspeito que seja um sinal dos tempos. Cada um tem as suas dificuldades e as pessoas têm de fazer contas à vida, mas parece que não se dá a devida importância ao assunto.

As crianças sentem-se muito frustradas por não terem um irmão ou uma irmã, de tal maneira que ficam irritadas quando eu não tenho uma resposta para lhes dar. No ano passado, chegou-me um menino que dizia que queria uma irmã, e eu perguntei-lhe se não podia ser um irmão. Ele disse que não, porque já tinha nome para ela. Queria que se chamasse Joana e não aceitava qualquer outra prenda.

O que é que se imaginaria a fazer se não fosse o Pai Natal?
Não faço ideia. Estou tão rodado nisto que nem penso na possibilidade de fazer outra coisa. Mas durante o resto do ano não estou parado. Faço figuração, publicidade e de vez em quando até me convidam para fazer algumas aparições extra. Não sou ator, mas já fiz algum teatro amador, apareci num filme ou noutro e até já tive uma participação numas telenovelas.

Se é uns ténis que queres, é o que tens de pedir”, disse-lhe carinhosamente. Ele, para que eu tivesse a certeza da necessidade dele, mostrou-me o sapato dele onde a palmilha já estava toda desfeita e o pé quase tocava no chão

Tenho também um outro grande prazer que é escrever. Não importa o mérito com que o faça mas gosto muito. Aqui há uns anos, o Colombo pagou a edição de um livro sobre histórias reais que aqui vivi, e todo o dinheiro reverteu para a Casa do Artista. Mas quando não tenho filmagens, tenho sempre obrigações editoriais. A reforma garante-me o sustento por isso posso, finalmente, fazer o que gosto.

Lembra-se dos melhores momentos enquanto Pai Natal?
São autênticas lições de vida que eu recebo aqui, especialmente quando são crianças deficientes. Não imagina a satisfação que me dá tirar fotografias com eles. Algumas têm uma dificuldade motora tão grande que tenho de os ajudar.

Isso são momentos muito graciosos, mas depois há aqueles hilariantes que aparecem de vez em quando. Tudo isso acaba por me trazer um sentimento de muita realização.

O momento mais difícil foi consolar uma criança muito debilitada

Quando são crianças com vários problemas, é difícil digerir e continuar em personagem?
Muito. Tenho situações que me pesam muito porque, tal como Carlos Drumond de Andrade dizia, nunca se perde tempo com uma criança, só se ganha. Há muitos casos que eu levo sempre para casa, devido ao impacto que têm em mim. Lembro-me de um miúdo que um dia me disse que não queria brinquedo nenhum, só uns ténis. “Se é uns ténis que queres, é o que tens de pedir”, disse-lhe carinhosamente. Ele, para que eu tivesse a certeza da necessidade dele, mostrou-me o sapato onde a palmilha já estava toda desfeita e o pé quase tocava no chão. Consegue imaginar como é que eu fiquei? É que depois há um problema muito grande: a incapacidade de o Pai Natal acompanhar esta situação, visto que só pode reconfortar e transmitir uma mensagem de esperança.

Leonardo Da Vinci dizia que as mensagens mais carinhosas e mais fortes são aquelas que às vezes são transmitidas no silêncio de um olhar. E às vezes basta apenas uma participação humana mais intensa por parte de alguém que veja o nosso sofrimento. Não há nada mais agradável do que um abraço intenso e fraterno na hora certa. É muito isso que tento fazer com o Pai Natal.

Alguma vez sentiu necessidade de acompanhar certos casos?
Não quero abordar muito esta questão, mas sim, já houve situações dessas. Coisas tão doridas e sofridas que é impossível ficar indiferente. Fico com o contacto das pessoas e depois peço para virem falar comigo e vejo o que consigo fazer. Claro que não podem ser muitos casos e, felizmente, nem são assim tantos. Mas há alguns que nos tocam a alma e nos arrasam por completo, mas tenho de ser capaz de lidar com elas.

Caso contrário, deixaria de fazer de Pai Natal.

A criança, que apesar de estar naquele estado lastimável, ainda falava e disse-me: “Pai Natal, não precisavas de ter vindo porque já me disseram que estou a ficar melhor e que para a semana já vou para casa.” Minutos antes, tinha acabado de ouvir o que ouvi, e fiquei transtornado.

Alguma vez considerou essa hipótese?
Não, nunca. E vou ficar muito triste quando tiver de deixar de o fazer, porque me preenche muito.

E quais foram os piores momentos?
Também tive alguns. Lembro-me de um em especial que me emociona sempre que tenho de o recordar. Uma vez fui a um hospital e a enfermeira, como já me conhecia e sabia que eu me emocionava facilmente, aconselhou-me a não entrar num dos quartos porque a criança que lá estava dentro estava muito debilitada. Estava por uma questão de horas, ou dias.

Tive um rebate de consciência e pensei que, se não estivesse para estas crianças mais debilitadas, não poderia alguma vez estar para todas as outras. Interiorizei que tinha de suportar e entrei no quarto. Numa situação destas tem de se arranjar um argumento para a conversa então disse-lhe que tinha uma prenda para lhe dar mas que, como tinha passado por casa dele e me tinham dito que ele estava no hospital, fui de propósito ali para o ver.

A criança, que apesar de estar naquele estado lastimável, ainda falava e disse-me: “Pai Natal, não precisavas de ter vindo porque já me disseram que estou a ficar melhor e que para a semana já vou para casa.” Minutos antes, tinha acabado de ouvir o que ouvi, e fiquei transtornado. Foi o momento mais difícil da minha vida porque tentei conter-me para não me desfazer em lágrimas.

Samuel Costa

Apesar de tudo, ainda estivemos um bocadinho a conversar e a sorrir. No dia seguinte, telefonei para o hospital para saber da crianças mas ela tinha morrido naquela noite. Ainda hoje me recordo disso com muita dor, mas o Pai Natal não pode ser só uma figura que veste o fato vermelho. Tem de encontrar uma mensagem.

Chamaram-lhe o Pai Natal do Sorriso, por estar sempre a rir

E qual o momento mais fofinho?
Apesar de estarmos a falar de crianças, recebo muito adultos. Há seis anos vez falei com uma senhora que, na altura, tinha 80 anos, e me perguntou se podia tirar uma fotografia comigo. Recebia-a com toda a simpatia e ela lá acabou por desabafar comigo, e revelou ter uma série de netos e falta de dinheiro para lhes dar prendas. Mas quis tirar a fotografia porque dizia que sempre falava de mim, me chamava o Pai Natal do Sorriso, porque eu me estava sempre a rir.

Fiquei muito consolado e achei muito fofo. A verdade é que os netos acharam piada à fotografia e todos os anos vêm com ela para tirar uma fotografia.

A primeira experiência foi essa: um fato de treino vermelho, uma barba de algodão mal feita e muito mal ajeitada

Há também uma criança que vem de propósito dos Açores para me ver. Apesar de sofrer de autismo, assim que me vê corre a praça do Colombo aos gritos para me abraçar. Lembro-me especialmente de uma outra situação, com outra criança, onde eu tinha uns balões para oferecer e quis fazer uma surpresa. Aproximei-me da mãe e do seu filho e, quando eles passaram por mim, eu saltei para a frente deles e dei um balão à criança. Quando ela levantou os braços, não tinha nenhuma mão. Os braços acabavam nos pulsos. Pode imaginar como eu fiquei chocado… até que a mãe percebeu e disse-me “Pai Natal, tenha calma. Esta criança vai ser muito feliz na mesma.”

Lembra-se da primeira vez que vestiu o fato? Qual foi a sensação?
Foi hilariante porque, da primeira vez que decidi fazer de Pai Natal para a família, ninguém tinha um fato. Então perguntei se alguém tinha um fato de treino vermelho e alguém mo deu. A primeira experiência foi essa: um fato de treino vermelho, uma barba de algodão mal feita e muito mal ajeitada, uns sapatos pretos que nem eram botas, e outra coisa qualquer a fazer de gorro [risos].

Que cuidados é que tem com a barba?
Imensos. Aliás, eu como Pai Natal sou um bocado vaidoso. Quando esta época começa, tenho sprays para tudo e produtos para as maçãs do rosto. Enquanto for esta figura, nunca mais posso cortar a barba, apesar de em janeiro lhe dar um desbaste ainda grande.

Entre maio e junho começo a deixar crescer para chegar ao tamanho que vê agora. Claro que isto me cortou as pernas a nível de figuração, porque não sou chamado para trabalhos mais variados onde as barbas longas não ficam assim tão bem. A juntar à barba, à medida que vou ficando cada vez mais velho também me vão selecionando menos vezes. Com o Pai Natal é o inverso, porque o Pai Natal é sempre o velhinho [risos].

Quantas vezes é que as crianças lhe tentaram puxar a barba para ver se era verdadeira?
Demasiadas vezes. Lembro-me até de uma situação em que um grupinho, que andava pelo Colombo, fez uma aposta sobre a minha barba. Uns diziam que a barba era verdadeira, outros diziam que não. Um deles chegou-se atrevidamente ao pé de mim, perguntou se podia puxar, e eu deixei. O rapaz ficou, literalmente, pendurado na minha barba e só gritava para os outros verem que a barba era mesmo verdadeira.

Valorizo mais aquelas cartas que são escritas pelas próprias crianças e não pelos pais

Também aconteceu uma criança, pequena mas muito rebelde, se sentar ao meu colo e dizer que eu não era o Pai Natal e que a minha barba era feita de pelos falsos. Eu estava à vontade, porque sabia que era real e disse-lhe para ele puxar, mas com pouca força. Ele deu-me um puxão valente, daqueles que doem mesmo muito, e a partir daquele momento converteu-se. Naquele momento eu passei mesmo a ser o Pai Natal e lembro-me de ele me dizer com os olhos bem abertos: “Pai Natal, eu vou dar um murro ao Rodrigo porque ele disse que tu não existias.” [risos].

Alguma vez alguém o reconheceu na rua?
É muito comum. Ainda há uns dias ia no metro e um senhor levantou-se e perguntou-me se eu não era o Pai Natal do Colombo. Disse que sim e cumprimentei-o. Há uns tempos, e já fora de Lisboa, fui a um restaurante almoçar e lembro-me de que o prato que queria pedir até já estava esgotado. O funcionário disse-me para eu ir escolhendo enquanto ele atendia outra pessoa, e eu lembro-me que referi isso mesmo: que aquilo que eu queria comer já não havia.

O que aconteceu a seguir foi surpreendente. Ele chegou-se ao pé de mim e sussurrou-me ao ouvido: “Para o Pai Natal arranja-se sempre” [risos].

Alguma vez perdeu a compostura?
Não, felizmente, não. Por princípio sou uma pessoa muita calma e tenho sempre muita preocupação em manter essa imagem serena. Ali, naquele momento, deixo de ser quem sou para ser a personagem que quero representar. Se eu quero representar, tenho de respeitar e fazer o melhor possível.

E pais complicados, existem?
Os pais às vezes são mais complicados do que as crianças. Lembro-me de que uma vez já passava um quarto de hora ou 20 minutos da hora de regressar ao meu turno, depois de uma breve pausa para almoçar, e uma das funcionárias alertou o pai que ia ser atendido e que estava com pressa, que o Pai Natal estava no Colombo desde as dez horas da manhã e que ainda não tinha comido.

“Mas eu quero lá saber se o Pai Natal comeu ou não. Eu estou aqui só para tirar a fotografia”, gritou. São casos de insensibilidade que, infelizmente, também aparece.

É o Pai Natal do Colombo há 18 anos, e diz que vai ter muita pena quando tiver de abandonar a personagem

Samuel Costa

Costuma ler todas as cartas que lhe enviam?
Eu leio as possíveis. Até porque sou um apaixonado pelo Pai Natal, como já reparou. Todos os anos faço um dossier com tudo o que vivi nesse ano, cheio de fotografias e cartas. Leio as cartas até para escolher as mais bonitas.

E quais são as mais bonitas? Lembra-se de alguma?
Valorizo mais aquelas cartas que são escritas pelas próprias crianças e não pelos pais. Há uma carta que achei muito engraçada em que a criança faz o pedido dela e, no final, faz uma observação com este comentário: “Não faças como no ano passado em que me trocaste as prendas todas quando eu te tinha pedido outras coisas.” [risos]

Isto passa-se mais vezes do que se pensa, mas tem boa intenção. Se o miúdo lhe diz que quer um carrinho e o pai pensa em dar-lhe o carrinho mas mais complexo ou com mais funcionalidades, ele é capaz de ficar chateado porque queria o mais simples. Às vezes dão o melhor, com as melhores intenções em mente, mas não é aquilo que a criança quer.

Texto de Fábio Martins, fotografia de Samuel Costa.
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