“Um homem inteligente não quer uma dondoca tontinha que não sabe o que se passa no mundo”

Margarida Rebelo Pinto tem um novo livro, o 26º, com receita conhecida: mulheres, muitas; amor, sempre. Tramas que os homens leem à socapa.

É uma apaixonada por Lisboa, mas agora vive em Paço d'Arcos e prefere vir aproveitar a cidade enquanto turista

Carla Oliveira

Antes de tirar fotografias, saca do batom e abre o espelho pequeno que traz na mala. “Quero acabar com a ideia de que uma pessoa lá por ser intelectual não pode ser coquete. Veja a minha mãe, 81 anos, professora catedrática, e parece uma boneca. Não sai de casa se não estiver impecável”. E Margarida Rebelo Pinto também não.

Alimenta-se como deve ser, vai ao ginásio todos os dias, medita pelo menos uma vez por dia e escreve, muito. “Num dia bom são mais de oito horas a escrever”, garante.

O mais recente fruto desse exercício diário é lançado nesta terça-feira, dia 27 de novembro. Chama-se  “Vem Voar Comigo” e é o 26º livro de uma das autoras que mais vende em Portugal. Nesta obra dividida em três, conta a história de Maria, Inês e Beatriz, todas mulheres à procura de (mais um) amor.

Em conversa com a MAGG, no Hotel Evolution, em Lisboa, falou-se de mulheres, personagens sempre principais das suas obras e também da sua vida, mas também de homens. Há muitos que a leem às escondidas e, apesar de serem “de um planeta diferente do das mulheres”, como nos confidencia, inveja-lhes a capacidade de desligar e de relativizar os problemas.

É feminista nos ideias e feminina no trato, protege-se dos haters desligando-se das redes sociais e, de tanto escrever sobre o amor, não consegue deixar de acreditar que um dia vai encontrar o seu.

Este novo livro conta a história de três amigas que decidem dar uma segunda oportunidade ao amor. Quantas oportunidades é que já deu?
Demasiadas [risos]. Demoro sempre demasiado tempo a atirar a toalha para o chão.

Tem um filho de 23 anos e, como não teve mais nenhum, gostava de casar com alguém com muitos filhos

Carla Oliveira

E está disposta a dar mais?
Quando se acredita, uma pessoa dá sempre mais uma. Há pessoas que vivem em estado curioso, pessoas que vivem em estado furioso, eu vivo em estado amoroso. É a minha natureza. Sou uma pessoa extremamente afetiva, é a parte mais importante da minha vida, mais até que a profissional. Acima da profissão está a família, o amor, os amigos e como não sei viver sem essa parte afetiva, dou-lhe sempre mais uma oportunidade.

É por isso que escreve sobre o amor?
Claro. Todos os escritores têm um tema de vida e o meu é o amor. Ando sempre à volta de tudo o que é o universo afetivo, seja em contexto de família, de amizade entre homens, entre mulheres… É o meu elemento. Nunca me canso de escrever sobre isso. Os economistas também falam sempre de economia e nunca se cansam [risos].

E alguém que teoriza tanto sobre o amor, porque é que nunca voltou a casar?
Isso não quer dizer que esteja sozinha. Eu não sinto que faça grandes reflexões sobre o amor, o que eu gosto é de mostrar a vida como ela é e, sobretudo, trazer para o papel um retrato muito próximo e muito atualizado do que se está a passar. E, agora que penso, em todos os meus livros há pelo menos uma mulher à espera de um homem, uma Penélope ou uma Rapunzel. Eu acho que todas as mulheres têm um bocadinho de Penélope e de Rapunzel e ainda bem que é assim.

Gostava de voltar a casar?
Gostava. Não tive mais filhos e, por isso, se casasse, gostava que fosse com alguém com muitos filhos. Dois ou três.

Faz-me muita impressão ter amigas na casa dos 40 que não conseguem casar e não conseguem ter filhos, porque os homens, simplesmente, não querem assumir qualquer tipo de compromisso”.

Numa das conversas entre as amigas do livro, Inês diz que dantes as pessoas casavam, agora têm casos. Com qual das realidades se identifica?
Se as pessoas não voltarem um bocadinho atrás e não tiverem um espírito construtivo, um espírito de missão nas relações amorosas, caminhamos para uma sociedade que vai atirar-se para o abismo. Eu tenho uma visão muito radical sobre isso. Venho de uma família muito estruturada: pais, irmãos, cunhados, sobrinhos e acho que a base da sociedade é a família.

Eu sou tipo funcionária pública

Mas vê as relações agora muito diferentes do que o que eram?
Muito mesmo. Faz-me muita impressão ter amigas na casa dos 40 que não conseguem casar e não conseguem ter filhos, porque os homens, simplesmente, não querem assumir qualquer tipo de compromisso. Na minha geração, a geração X, nós tentámos. Sonhávamos que íamos conseguir ter tudo e conseguimos quase tudo. Quase toda a gente casou, quase toda a gente teve filhos, houve casamentos que aguentaram, outros que não aguentaram, mas houve uma construção que nas mulheres que têm agora 40 anos já é mais difícil de encontrar. Curiosamente, nos mais novos, antes dos 26/27, é mais fácil de encontrar.

Porque será?
São ciclos. Os miúdos que têm agora 20 anos, muitos deles, são filhos de mães sozinhas e que, por isso, tratam as mulheres de maneira diferente. Têm um sentido de proteção, de carinho, de admiração.

Vê isso no seu filho?
Vejo. Tudo o que o meu filho quer é que a namorada triunfe. Ele namora com uma manequim muito bonita e tudo o que ele quer é que ela chegue ao fim do mundo com o trabalho dela. É uma geração que não se sente ameaçada pelo sucesso das mulheres.

No livro, antes de cada capítulo, apresenta as personagens através de uma ficha técnica. Inês é a sonhadora, Maria, a espectadora e Beatriz a aventureira. Que palavra escolhia para si?
Nenhuma dessas. A minha maior qualidade e o meu maior defeito é a resiliência. A resiliência tem duas faces e o seu trade of é a teimosia. Mas a verdade é que quem escreve livros tem que ser teimoso. Estamos todos os dias a trabalhar a mesma história durante meses.

Qual é o seu método de trabalho?
Eu sou tipo funcionária pública. Durante quase vinte anos trabalhei em casa, agora vou mais para a editora, mas tenho sempre uma rotina. Escrevo sempre de manhã, acordo muito fresquinha, cheia de ideias e começo logo a escrever, às vezes antes do pequeno-almoço, ainda em casa. Se o dia for bom, paro à uma da tarde, se o dia for excecional paro às oito da noite e estou doze horas a escrever.

E há dias maus?
É completamente imprevisível. Posso ter dois dias bons, três dias maus, um dia bom cinco dias maus, nunca sei. Nos primeiros sete romances nunca tive nada disso, escrevia sempre, tinha muitas coisas para dizer.

E ainda tem?
Continuo a ter, sim. Eu tenho muitas musas. Eu adoro mulheres e escrevo muito sobre elas. Tenho amizades muito profundas com mulheres de todas as idades e falo muito com todas elas.

Há mulheres que não saem de casa sem batom, eu não saio sem blocos de notas.”

Continua a andar com um bloquinho a apontar as conversas que tem e que ouve?
Sempre. Também escrevo imenso no iPhone, mas tenho sempre um bloco na mala. [Vai à mala e tira dois] É o meu filho Lourenço que me costuma dar estes blocos, às vezes um bocado infantis, do Snoopy ou da Wonder Woman, mas o atual até é bastante sóbrio. Ando sempre com blocos. Sinto-me completamente perdida sem eles. Há mulheres que não saem de casa sem batom, eu não saio sem blocos de notas.

A nova PIDE instalada nas redes sociais

Voltando às personagens do livro, há alguma com a qual se identifique mais?
As duas primeiras, porque eu também sou bastante sonhadora como a Inês e também sou plácida, clássica nos meus gostos, como a Maria. Desta vez, senti necessidade de publicar uma espécie de ficha técnica de cada personagem, ainda que eu a faça sempre. É uma forma de ajudar à identificação. As pessoas leem e pensam ‘Eu tenho uma irmã assim, eu já passei por isto, a minha mãe é assim’.

E estas mulheres existem na vida real?
Não, são inventadas por mim. Eu adoro inventá-las, imaginar como é que é a cara delas, como usam o cabelo, que roupa escolheriam. Todas as minhas personagens são construídas para depois serem trabalhadas no livro. Eu imagino que doenças tiveram em pequeninas, em que escolas andaram, como se chamava o primeiro namorado. Estou sempre em viagem. Um escritor feliz vive no seu túnel e o seu túnel é um mundo encantado. Uma amiga muito pragmática que tenho costuma dizer que vivo no “mundo encantado das borboletas”.

É fácil voltar à realidade?
Uma ou duas vezes por dia vejo a Sic Notícias para perceber o que se passa no mundo. É aí que desço por uma escadinha e volto à realidade. Mas às vezes não me apetece nada voltar à terra, principalmente nos períodos mais intensos de trabalho.

Como é conviver com quem não está nessa realidade?
Eu acho é que é difícil para as outras pessoas conviverem comigo. Às vezes estou num mundo paralelo. Mas eu acho que essa capacidade de entrar e sair desse mundo também se treina, até porque a realidade é muito mais interessante do que a ficção.

Continua a ser?
Sempre. As histórias que eu ouço de amigas, de leitoras que me querem contar as suas histórias, as expressões que as pessoas usam são extraordinárias. É maravilhoso. E eu, é como se tivesse na mão aquela rede de caçar borboletas, estou sempre a apanhar coisas.

Disse uma vez que a imagem sua que prevalece é a de “superficial, beta e mimada”. É alguma dessas coisas?
Sou muito mimada no bom sentido. Preciso de atenção, preciso de imensa atenção, mas não preciso de elogios, não preciso de validação. O beto… o que é ser beto hoje em dia? Já ninguém sabe.

Porque é que acha que fica associada a essas características?
Porque tenho origens na alta burguesia, passava férias na praia dos betos, que era São Martinho do Porto. Eu não tenho nada para esconder nem nada para mostrar. O que é, é.

É um alvo fácil de crítica?
Claro, mas segundo o Miguel Sousa Tavares, tenho as costas mais largas de Portugal, mas passo sempre entre os pingos da chuva.

Suspendi a página de Facebook durante dez dias para me poupar ao bullyng gratuito e super violento. As redes sociais são um lugar perigoso.”

O que quer dizer com isso?
Para já, sou uma resistente, sou uma resiliente e uma maratonista. Estou aqui há vinte anos a escrever livros. E depois não dou importância ao que não é importante. Ataques injustos ou polémicas idiotas passam-me ao lado.

Estava à procura da sua página de Facebook…
Suspendi a página de Facebook durante dez dias para me poupar ao bullyng gratuito e super violento. As redes sociais são um lugar perigoso.

Nessa minha pesquisa encontrei uma página com três mil seguidores de uma página chamada “Não gosto da Margarida Rebelo Pinto”. Já lá foi?
Não. Tudo o que não é construtivo ou que não é importante, prefiro não ler. Eu só tenho 24 horas por dia e essas 24 horas têm que dar para fazer ginástica, ter a minha casa impecável, estar com os meus pais, o meu filho e os meus sobrinhos, escrever e cuidar de mim. Eu não tenho tempo para minudências.

É apologista do “falem de mim, mal ou bem, mas falem”?
Não. Acho que essa frase é uma estupidez. O que eu acho é que, antes do 25 de Abril sofremos com uma mentalidade de expiação, de acusação gratuita e agora acontece o mesmo nas redes sociais. Há uma nova PIDE instalada nas redes sociais de pessoas que, ou não têm nada para fazer, ou vivem em estado furioso. É doentio e triste. No dia em que a legislação preencher esse buraco e os insultos nas redes sociais forem passíveis de serem tratados como crimes, porque o são, talvez as pessoas se acalmem. As pessoas acham que podem dizer tudo e não se pode dizer tudo.

Já lhe disseram coisas muito más?
Na cara nunca ninguém me diz nada.

O fim da sua conta de Facebook está relacionado com a polémica com a Sara Tavares no programa do Herman José? [Margarida reagiu a uma piada do Herman dizendo que não é dada a etnias e Sara, que também estava no programa, exigiu, na sua página de Facebook, um pedido de desculpas da escritora].
Nem sequer houve uma polémica. É uma história empolada à qual nem quero responder. A minha vida não é responder a polémicas, a minha vida é escrever livros e ninguém me desvia do meu caminho.

Já fizeram notícia de quando criticou as manifestações na Assembleia, de quando disse que nunca tinha visto a sua mãe de pantufas ou de quando admitiu que a crise a fez deixar de viver numa casa com piscina. Quando diz essas coisas sabe, à partida, que vão ser polémicas?
Não, nunca precisei de criar polémica até porque eu sou da paz, não sou da guerra. Quem teve um AVC, medita todos os dias e segue o budismo como filosofia de vida nunca cria polémicas. Há pouco perguntava-me qual a palavra que me definiria? Olhe, sinceridade.

O que é que faz para cuidar de si?
Vou ao ginásio todos os dias, faço máscaras de pele duas vezes por semana antes de dormir, faço máscaras ao cabelo. De manhã faço uma meditação curta, de doze minutos e à noite, se tiver tempo, faço uma de uma hora ou cinquenta minutos. Tenho muito cuidado com o que como, bebo muita água, praticamente não bebo álcool. Ouço muito o meu corpo e aquilo que ele precisa.

O ter saído de Lisboa [vive em Paço d’Arcos] tem a ver com isso?
Tem. Lisboa cansa-me.

Eu tenho muita sorte em ter nascido em Portugal. Se eu agora reencarnasse voltava a querer nascer aqui. Não há povo mais meiguinho, mais brando, mais carinhoso do que o português. O português é um povo extraordinário, mas vejo o português a lutar muito.”

Mas era uma apaixonada por Lisboa.
E sou. Mas agora venho como turista e é a melhor coisa que há.

Consegue viver da escrita?
Sim.

Apesar de ser das autoras que mais vende em Portugal, há muitos leitores escondidos. "Homens, principalmente", conta a escritora

Carla Oliveira

Tem um nível de vida acima da média?
Claro que tenho, também não é difícil. O que eu gostava era que os portugueses tivessem um melhor nível de vida e que este Governo, em vez de empurrar para a frente e fazer medidas populistas para que as pessoas se sintam mais felizes a curto prazo, se preparassem para uma eventual recessão e que ajudasse mais a população. Os comboios estão pela hora da morte, o Serviço Nacional de Saúde está pela hora da morte, os professores estão em crise, os polícias vão agora iniciar uma greve. Há problemas estruturais em todos os sectores, mas há uma histeria de que, por causa do turismo e do investimento externo, isto é o máximo. Isto é o máximo não. Há centenas de lisboetas que saem da cidade porque não aguentam as rendas que aumentaram devido aos golden visa e à invasão de estrangeiros.
Eu tenho muita sorte em ter nascido em Portugal. Se eu agora reencarnasse voltava a querer nascer aqui. Não há povo mais meiguinho, mais brando, mais carinhoso do que o português. O português é um povo extraordinário, mas vejo o português a lutar muito.

Há pessoas que tiram férias para estar comigo na Feira do Livro

A política nunca a chamou?
A política já me chamou várias vezes e eu já dei várias tampas à política. Já dei tampas à minha cor e tampas a outras cores.

Qual é a sua cor?
Eu sou social-democrata.

Mas considera um dia entrar na vida política?
Se tiver um convite de um projeto sério, íntegro, digno e que encarne o espírito de missão que é preciso para governar qualquer país e se o convite for feito por um grupo de gente com cabeça e integridade para o fazer, considero. É que eu sou muito feliz aqui, este país deu-me tudo. Tenho uma família que adoro, faço o que gosto, tenho muito leitores…

É que, mal ou bem, continua a ser uma das escritoras que mais vende em Portugal. Consegue explicar esse fenómeno?
Eu acho que é a questão da identificação e da proximidade. As pessoas sentem-me como próxima, as minhas leitoras falam comigo como se eu fosse amiga delas.

Recebe muito feedback?
Todos os dias tenho emails, mensagens no Facebook. Na rua falam comigo, trazem-me crónicas dobradas no porta moedas, tenho famílias inteiras de avós, filhas e netas que me leem. A irmã mais nova de uma das minhas fãs chama-se Margarida porque, quando nasceu, pediu aos pais para porem o meu nome. Tenho pessoas que vivem fora de Portugal e que tiram férias de propósito para estarem comigo na Feira do Livro. Pessoas que quando vão viver para outro país mandam encaixotar os meus livros porque não conseguem deixá-los cá.

Os maridos, os namorados, os ex-namorados das mulheres de Portugal leem à socapa e depois mandam-me mensagens a dizer que gostaram muito.”

Mesmo assim, acha que tem fãs escondidos e que não admitem que leem Margarida Rebelo Pinto?
Tenho, homens principalmente. Os maridos, os namorados, os ex-namorados das mulheres de Portugal leem à socapa e depois mandam-me mensagens a dizer que gostaram muito.

O facto de os homens não assumirem que a leem, é sinal de quê?
Atenção que tenho muitos homens que assumem. Os mais velhos e os mais novos assumem, a geração ali entre os 40 e os 50 é que patina um bocado.

Acha que o mundo dos livros é muito masculino?
Pelo contrário, acho que é bastante feminino. As mulheres é que leem, as mulheres é que compram.

E que escrevem?
Escrevem, mas continua a haver um estigma m relação à mulher escritora. A Agustina Bessa Luís é das maiores escritoras de língua portuguesa de todos os tempos e ninguém fala dela. É um ser absolutamente brilhante, superior, tem uma obra magnífica. Onde é que está a divulgação da sua obra? A Agustina é tão boa como o Lobo Antunes.

Numa altura frágil para a dicotomia masculino/feminino, como é que vê o papel da mulher na sociedade?
Eu tenho uma visão bastante diferente da corrente habitual. Acho que as mulheres evoluíram tão depressa e conquistaram tantos lugares em tantas áreas que isso se tornou ameaçador para os homens e com razão. O paradigma foi alterado. Eu sou feminista para os direitos e as liberdades, mas sou feminina para a vida familiar. Uma mãe é uma mãe e uma mulher é uma mulher. Não há nada de reacionário nisto, é uma questão de bom senso. As mulheres não podem perder a capacidade de agradar à pessoa com quem estão e isso não é uma forma de submissão, é uma forma de poder.
Se as mulheres estiverem sempre a dizer aos homens que não precisam deles, há uma altura em que eles dizem que também elas não precisam de ser protegidas e aí o feitiço vira-se contra o feiticeiro. Atravessamos um momento difícil para todos.

Um momento de reajuste?
Sim e esse reajuste leva tempo. Esta geração criada por mulheres muito independentes já olha para as mulheres de outra maneira, já não vê as mulheres de sucesso como uma ameaça. Mas este reajuste é difícil, assim como é difícil para a cabeça dos homens imaginar que uma mulher pode ser muito bem sucedida profissionalmente e ser também uma ótima dona de casa. Mas isto só acontece num cenário em que o homem respeita a mulher e não a vê como uma empregada não remunerada. Nesses casos, o divórcio é uma estrada a seguir.

Um homem inteligente quer chegar a casa e ter uma mulher tão inteligente como ele e que o ajude a tomar decisões, não quer uma dondoca tontinha que não sabe o que se passa no mundo.”

Ser uma “loira com atitude” — como se definiu uma vez — continua a ser difícil em Portugal?
O que é uma loira com atitude? Uma loira com opiniões, com ideias, com coisas para dizer ao mundo?

Isso assusta os homens?
Homens inteligentes adoram mulheres inteligentes. Há aquela ideia falsa de que um homem muito inteligente quer é chegar a casa e não ter com que se chatear. Não. Um homem inteligente quer chegar a casa e ter uma mulher tão inteligente como ele e que o ajude a tomar decisões, não quer uma dondoca tontinha que não sabe o que se passa no mundo.

Admiro a capacidade que o homem tem para se fazer de morto

Acha o mundo das mulheres mais interessante do que o dos homens?
Não acho mais interessante, simplesmente conheço melhor esse mundo e por isso escrevo sobre ele. As mulheres não têm qualquer problema em falar sobre sentimentos, para os homens é um pesadelo. Há uma expressão brasileira que eu adoro que é o DR, que é o “discutir a relação” e os homens odeiam isso. A Helen Fisher [antropologista] diz que se queremos ter um confronto com o nosso par devemos sentá-lo ao nosso lado e não frente a frente. Ao lado estão os aliados, frente a frente estão os inimigos. Ou seja, se a ideia é ter uma discussão com o namorado, o melhor é ir ali para o Galeto e ficar ao balcão [risos].

O mundo masculino também a fascina?
Há coisas nos homens que eu admiro. A capacidade de desligar, a capacidade de se fazer de morto. São, com certeza, técnicas ancestrais adquiridas que disparam automaticamente sem pensar para aguentarem a guerra em casa. Aquele bom feitio de acordar no dia seguinte e estar tudo bem. Como é que eles conseguem? É espetacular.

O livro é do Clube do Autor e está à venda por 15,50€

Somos assim tão diferentes?
Homens e mulheres não são do mesmo planeta. Viemos cá para nos entendermos e para propagar a espécie. É por isso que espero que as pessoas continuem a ter filhos, mas para isso é preciso que continuem a ter relações sexuais que, ao que parece, está cada vez menos na moda.

Quem são as mulheres da sua vida?
A minha mãe. É das minhas primeiras leitoras. Tem um bom senso e uma lucidez, combinada com uma generosidade…é uma pessoa fora de série. Eu chamo-lhe a queen B, toda a família gira em torno dela. Todos queremos ser como ela. O meu filho diz até que tem duas namoradas, a namorada e a avó.

E tem também homens que admira?
O meu pai. O livro é-lhe dedicado porque é o homem mais querido que conheço. O meu irmão também é uma referência e depois os meus amigos. A amizade é o que nos salva deste pastel de nata em que se tornaram as relações. Parece que anda tudo a nadar num pastel de nata, onde é tudo muito difícil. No meio disso tudo, o que nos guia são a família e os amigos.

Diz no livro que depois dos 40 aprendemos a voar mais alto. Onde é que já chegou com 53?
Eu sou muito otimista, aliás, eu nasci otimista. O meu pai diz que até que eu nasci com os olhos abertos. Já fui ao céu muitas vezes. Já rasei o sol muitas vezes sem queimar as minhas asas de Ícaro. O nome do livro, “Vem voar comigo”, é um convite a saltar sem medo. E sim, depois dos 40 tudo se sente com mais profundidade, mais intensidade e é tudo mais completo. Mas eu ainda estou nos 40, tenho 40 e 13 [risos].

Otimista, lá está.
Otimista sempre.

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