É capaz de amar alguém que escreva ‘voçê’ na mensagem que lhe envia?

Um novo estudo diz que homens que dão erros têm poucas hipóteses. Mas e se for disléxico? Um grande matemático? Ou altamente criativo?

Ou um artista magnífico, um grande pensador, uma pessoa iluminada pela razão?

Há uns dez anos fui acusada de estragar o casaco de um rapaz, num contexto não romântico. Ou como ele escreveu, “extragar”. Até hoje, sempre que o meu núcleo profere este verbo, é assim que o pronuncia.

Erros ortográficos dão piadas maravilhosas, mas são capazes de destruir o potencial de uma nova relação. Vivemos numa altura em que as primeiras impressões são feitas de palavras escritas, porque existe o Tinder, o Happn, o Cupid, o Facebook ou Instagram. É nas janelas de chat que o flirt começa e é também aí que nascem os primeiros juízos de valor. A graça e o cavalheirismo do primeiro jantar foram transferidos para as vírgulas bem postas, verbos bem conjugados e riqueza do vocabulário da primeira conversa.

Tanto assim é que um estudo feito com mulheres, realizado por AdopteUnMec, uma plataforma online de relações amorosas francesa, divulgado pelo “Le Parisien“, concluiu que saber escrever é fundamental para o sucesso das futuras relações. Segundo o inquérito, há apenas 30% de probabilidades de mensagens com muitos erros ortográficos e abreviaturas terem resposta, contrariamente às que apresentam uma “ortografia impecável”, em que este número aumenta para 60%.

Erros ortográficos flagrantes provocam-me comichão e arrepios em todo o corpo. Mas, numa proporção ainda maior, julgamentos precipitados também. E se aquela pessoa for uma nódoa a português, mas um génio a matemática? E se for um artista incrível, um ator magnífico, um grande pensador? E se em causa estiver uma dislexia? E se não for bom em nenhuma das matérias, mas for bem-disposto, com sentido de humor, generoso e todas essas coisas que também importam muito?

Dividida entre a compreensão e alguma revolta por saber que as relações começam com base neste tipo de julgamento precipitado, consultei as minhas amigas e parei o diálogo permanente que corre naquele grupo de WhatsApp para lhes perguntar porque é que isto nos afeta tanto.

“À partida, se dá erros, não cumpre o básico”, disse uma delas. Portanto, na génese da coisa está um determinado estatuto. Pressupõe-se que quem sabe escrever estudou até onde devia. Pressupõe-se que leu os livros certos, para saber o lugar do sujeito, predicado e complementos. Para pôr vírgulas, pontos finais, travessões e dois pontos nos sítios certos. Que escreveu o suficiente para saber distinguir se as palavras têm um “s”, dois ou ainda um “c” e para saber o significado de termos como “capcioso” ou “procrastinar”.

Nisto das relações procura-se uma compatibilidade não só intelectual, mas também social, onde “saber escrever faz parte dos mínimos olímpicos.” A realidade é esta. Seduz-nos quem nos traz vantagens que nos permitam evoluir. E é uma exigência termos ao nosso lado pessoas que cumpram requisitos básicos, aqueles de que provavelmente também somos dotados. Mas tomar decisões com base em mensagens pode ser precipitado — exceto se as abordagens entrarem na categoria do “Oix. Es memuh linda, bora aí curtir” — , porque há outros critérios importantes, incompreensíveis numa frase com erros ou sequer numa janela de chat.

Os erros ortográficos não são sexy, mas os julgamentos precipitados também não. Ainda dividida entre a compreensão e a revolta, termino este texto desejando não ter dado nenhum erro (porque, meus amigos, toda a gente daria, não fosse o Priberam) e que os critérios na matéria do engate bem sucedido jamais sejam transferidos para o âmbito da Matemática, da Física, da Química, da Anatomia ou da Geologia. É que nisso sou mesmo um calhau.

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