As redes sociais criam-me ansiedade.

Acordo e vejo as notificações.

“Maria e mais 12 pessoas fazem anos”;

“Não te esqueças que tens 4 eventos esta semana”;

“A Catarina, O Pedro e a Frederica estão perto de ti”.

Vivemos numa era onde ainda nem nos espreguiçámos e já temos acesso a todo o tipo de informação. “Onde é que vamos almoçar no fim-de-semana?”, “Quem é que se inscreveu nos Pilates?”, “Que gira a nova namorada do meu primo João”. A verdade é que nada disso me interessa do ponto de vista prático — é conteúdo vazio, oco, tanto de leitura como de saber, mas eu ainda nem água bebi e já o assimilei.

Parece que dependemos de receber a aprovação de terceiros, precisamos de ser os primeiros a chegar sabe-se lá aonde, com o propósito de agradarmos a sabe-se lá quem. Somos o jogo do macaquinho do chinês do antigamente. Corremos até uma parede para sermos os primeiros, só pelo gosto de dizermos que fomos até lá em modo de velocidade furiosa.

Crónica. Porque é que já não há bitoques em Lisboa?

Aliás, já há órgãos de comunicação específicos com metas de publicações diárias, nem que posteriormente por esse motivo surjam notícias, como “sabia que o cebolinho tem vantagens para o crescimento das unhas dos pés?” Na verdade, não faço a mínima ideia se isso é verdade, mas é provável que depois de ter inventado isto alguém venha eventualmente a escrever um artigo sobre isso, até porque já há uma fonte, e isso é suficiente.

Nos restaurantes as crianças só sossegam com um tablet nas mãos e já aprendem desde o berçário 4 idiomas, isto é, “se querem ser alguém na vida”, dizem-lhes os pais.

Para quê? Que febre de crescer. Que correria pelo destaque, pela superação. Que austeridade em sermos os suprassumos em física-quântica, ainda assim dominando o português, a esgrima, tudo isso, claro, depois de termos acordado de madrugada, porque, obviamente, se não formos federados num desporto super in, não estamos aptos a coexistir nesta sociedade feita de mentes brilhantes.

Que vida aborrecida. Quem é que se lembrou de nos mandar galopar? Caminhando a passos largos os dias também passam. É a diferença que nos torna únicos. Ser bom em tudo deve ser uma seca. Para além de desgastante é agoniante esta sede compulsiva de superação.

O mundo digital trouxe-nos coisas maravilhosas: aproxima-nos, dá-nos oportunidades, dá-nos asas e novas ferramentas, mas tira-nos a paz de podermos esperar, respirar, aprender e, depois sim, executarmos com primazia e rigor o que nos foi ensinado.

Contra mim escrevo. Vivo dependente deste novo vício que nos consome, mas obrigo-me a fazê-lo sem pressa, continuo a caminhar, não tenho de chegar primeiro que ninguém. Quero desfrutar, absorver, observar.

Ainda por cima hoje, logo hoje de certeza que me vou atrasar, afinal estou a começar o dia com treze pessoas para parabenizar.