Mário (nome fictício) engordou mais de dez quilos em dois anos, porque deixou de fazer exercício físico. Em causa não estava nenhuma lesão, incapacidade ou preguiça. Era um medo de morrer tão grande, que uma simples caminhada o fazia entrar em pânico. Atualmente tem 56 anos e sabe que é hipocondríaco. O caminho para reconhecer que o problema estava na sua mente foi longo e doloroso.

“Sempre fui uma pessoa preocupada com a morte”, diz Mário. “Sofri muito com a morte dos meus avós, na minha juventude, e com doenças graves que a minha família foi tendo. Mas foi só há dez anos que perdi o controlo sobre os medos e receios.”

A hipocondria ou “‘perturbação de ansiedade relacionada com a doença’ é uma preocupação irracional em estar ou vir a estar com uma doença grave’”, explica a psicóloga Carla de Oliveira, da Clínica da Mente. Apesar de ser muitas vezes descrita como uma doença, a hipocondria “não passa de um estado forte de ansiedade, ou seja, do resultado de um medo excessivo de podermos ter uma doença grave que culmine na própria morte.

Chorava todas as noites porque dentro da minha mente havia uma certeza: ‘Eu tenho um problema no coração, a que ninguém está a dar valor e eu vou morrer a qualquer instante.’”

Na cabeça de quem sofre desta perturbação ansiosa — também chamada de “mania das doenças” — as dores são sinais de patologias graves, potencialmente terminais. Só que nos resultados das análises, dos eletrocardiogramas, da medição da tensão, elas não existem. Apesar de estar tudo bem, as manifestações que sentem não são inventadas. São apenas encaradas de forma exagerada. “As pessoas não fingem qualquer sintoma nem mentem, porque a crença de que têm um problema de saúde crítico é verdadeiramente real”, acrescenta a especialista.

Ansiedade. O perigo de deixar uma emoção evoluir para uma perturbação

Para Mário, o pavor de morrer despertou num dia em que o batimento cardíaco dispara, sem motivo aparente. “Comecei a suar, a sentir o braço dormente e entrei em pânico”, lembra. “Naquele momento sabia que estava a ter um enfarte ou um AVC e fui logo para o hospital, fiz os exames todos e não descobriram nada.”

A partir daqui, começou a medir a tensão arterial todos os dias (um dos comportamentos típicos de quem sofre deste problema), e a ideia de que algo de grave se passava consigo tornou-se permanente. “Chorava todas as noites porque dentro da minha mente havia uma certeza: ‘Eu tenho um problema no coração, a que ninguém está a dar valor e eu vou morrer a qualquer instante.’”

Bastava sentir um batimento cardíaco mais acelerado, que ia para o hospital. “Recorri às urgências 20 vezes e não fui mais por vergonha, mas o sofrimento era real.”

Este é também um dos comportamentos que caracteriza os hipocondríacos: “Quem sofre de hipocondria interpreta qualquer alteração física como um sintoma de uma doença grave. Sintomas normais como batimento do coração, por exemplo, podem fazer com que a pessoa hipocondríaca detete um sinal de doença”, diz. Por ter origem num distúrbio ansioso, a própria ansiedade pode “induzir certos sintomas corporais, como dores de cabeça, tensão muscular, diarreia, obstipação (prisão de ventre) e tonturas.”

Conheci muita gente que tinha os mesmos sintomas e medos. Percebi que tinha que procurar um psiquiatria, porque de facto começava a tomar consciência que estava alguma coisa errada com a minha mente.”

O homem de 56 anos não levava a bem quando lhe diziam que o problema era psicológico. “Alguns cardiologistas a que recorri diziam-me que estava a sofrer de hipocondria, e que era a mania das doenças. Estas palavras no início, em vez de me descansarem ainda me revoltavam mais, por sentir que ninguém me entendia”, relata. Carla de Oliveira explica que as sensações resultantes deste comentário são normais, porque, em primeira instância, “pessoas com hipocondria têm dificuldade em encarar o seu problema como uma perturbação emocional”, apresentando “relutância em procurar ajuda psicológica”, sentindo-se até “ofendidos” quando encaminhados para essa ajuda.

Foi só quando pesquisou a hipocondria na internet, que Mário percebeu que não estava sozinho, que o problema era real, que outros passavam exatamente pelo mesmo. “Conheci muita gente que tinha os mesmos sintomas e medos. Percebi que tinha que procurar um psiquiatria, porque de facto começava a tomar consciência que estava alguma coisa errada com a minha mente.”

E assim foi. Recorreu a um médico e hoje sabe que o episódio que desencadeou o medo permanente tinha sido um ataque de pânico. No entanto, não se sentiu confortável com a medicação, o que o fez recorrer a um psicólogo. “Na psiquiatria receitavam-me medicamentos que me paravam o pensamento, mas não resolviam o problema, acho que fiquei pior até, como se isso fosse possível”, conta. “Fiz o tratamento psicológico e há um ano que recuperei a minha alegria de viver, o bem-estar. Hoje, um ano após tratamento, olho para trás e percebo que caí numa teia emocional que me ia retirando a vida e a minha felicidade.”

O primeiro passo é a internet, o segundo é começar a enviar mensagens aos amigos médicos e o último é ir ao hospital

Ana Garcia Martins, autora do blogue “A Pipoca Mais Doce”, também não lida bem com reações do corpo atípicas, por mais pequenas que sejam. Faz análises várias vezes ao ano e procura na internet o significado para qualquer sintoma.

Não consigo desvalorizar. O pensamento é negativo e trágico. Isto é muito cansativo e consome-nos.”

Este medo surge ao mínimo sinal. Nem é preciso sentir. Basta ouvir falar. “Ninguém me pode contar nada sobre doenças, nem posso ver reportagens. Começo a assumir os sintomas. Acho imediatamente que estou a sofrer do mesmo”, conta. Qualquer sintoma é suficiente para achar que está doente. “Uma dor de cabeça é sempre muito mais grave do que na realidade é”, diz. “As coisas mais inócuas são potencialmente fatais. Se eu tenho uma dor no joelho ou nas costas, para mim é sempre mais do que isso.”

De acordo com Carla de Oliveira, pessoas com hipocondria, “medem constantemente os sinais vitais, como a tensão arterial e o ritmo cardíaco e ficam alarmados quando ouvem que alguém ficou doente ou leem alguma notícia relacionada com a doença, identificando-se com os sintomas e pensando que os podem ter.

Não confirma os valores todos os dias, mas Ana já teve um aparelho para medir a tensão em casa. Percebeu que não a ajudava: “Dava valores muito dispares, por isso,pela minha saúde mental, parei de a usar.”

O primeiro passo é internet, o segundo é começar a enviar mensagens aos amigos médicos e o último é ir ao hospital. “Não consigo desvalorizar. O pensamento é negativo e trágico. Isto é muito cansativo e consome-nos.”

Há cerca de sete anos, numa sala de cinema a ver o filme de animação “Up”, sentiu, durante alguns segundos, os batimentos cardíacos mais acelerados. Saiu da sala, foi para casa em lágrimas e foi com o marido para o Hospital de Santa Maria. Os quatro piscas iam ligados e os sinais vermelhos eram ultrapassados. “Dessa vez nem fui ao Google, nem liguei a ninguém. Fui disparada no carro, a chorar baba e ranho.”

Só que estava tudo normal. “Achava que tinha um problema grave no coração, mas mandaram-me para casa”, relata a blogger. Apesar de estar sempre tudo como é suposto, fica a desconfiança. O medo, apesar dos especialistas garantirem que nada se passa, persiste. “É recorrente não confiar, mas tento controlar. Os sintomas estão lá, eu não os estou a inventar. A reação é que é dramática, portanto desvalorizam. Olham para nós como se fossemos maluquinhos.”

Estes comportamentos encaixam naquilo que a psicóloga clínica explica. Por um lado, “a pessoa acredita que está mesmo doente e perde a capacidade de discernimento” e, por outro, depois de recorrerem a médicos e hospitais para “despistar as patologias que acreditam ter”, “dificilmente acreditam nos diagnósticos que o negam.” A atribuição da “incompetência” é comum.

Assumimos as histórias das outras pessoas. Aquilo fica na nossa cabeça e se calhar também vai começar-nos a doer alguma coisa.”

Só que, no caso de Ana, que assume que o seu caso não será o mais grave, existe a consciência do exagero e, consequentemente, há o esforço para controlar o medo. Noutra ocasião, por exemplo, pouco tempo depois de ter sido mãe do primeiro filho, a blogger começou a sentir tonturas. Ligou para a linha de apoio Saúde 24 e ouviu aquilo que ninguém com pavor de doenças quer ouvir: “Vá para o hospital num prazo de duas horas”.

“Comecei a chorar, comecei a achar que não ia conseguir acompanhar o crescimento do meu filho”, lembra. “Não fui ao hospital, porque lá consegui controlar e as tonturas passaram. Mas dizerem isso a uma pessoa com medo de doenças é absolutamente assustador.”

Tal como Mário, Ana veio a desenvolver uma perturbação do pânico. “Sou uma pessoa extremamente ansiosa. Os episódios foram-se repetindo e eu recusava um quadro de pânico ou de ansiedade. Até que fui a uma psiquiatra que me confirmou que eram ataques de pânico”, lembra. “Aconteciam com tanta frequência que eu já tinha medo de sair de casa, de estar com muita gente. Já era o medo do medo.”

A psiquiatra Elisabete Albuquerque explica que é normal a hipocondria coexistir com a perturbação do pânico, apesar destas duas perturbações de ansiedade não terem de andar sempre juntas. Uma pode existir sem a outra. “Em psiquiatria as coisas não são lineares. É raro haver só um diagnostico. Estas duas categorias não são mutuamente exclusivas, mas faz sentido que convivam.” Carla de Oliveira acrescenta que “o medo excessivo de ter doenças é elevado, e os pensamentos de as poder ter, elevam a própria ansiedade. As pessoas hipocondríacas estão presas neste modo de pensamento.”

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Ana começou a ser medicada, mas acabou por desistir, optando por controlar o problema sem este recurso. Hoje já tem domínio sobre a ansiedade e é acompanhada por uma psicóloga, ainda que “menos do que gostaria”, por falta de tempo: “Dá-se pouca importância à saúde mental em Portugal. Preocupamo-nos com o físico e com a mente não. Acho que devíamos fazer todos terapia.”

“Qualquer dor que tenha é um cancro terminal, é algo terrível. Não consigo controlar”

Foi há sensivelmente dois anos que Nuno Pinto, 35 anos, foi infectado com H pylori, uma bactéria que afeta a mucosa do estômago. “Como tenho antecedentes familiares com problemas de estômago — o meu pai e tio faleceram de cancro neste órgão — explodiram todos os medos e receios.”

Nuno trabalha como administrativo num hospital, o que poderá ser o sonho ou o maior pesadelo de um hipocondriaco. Por um lado, estão lá os médicos para despistarem qualquer sintoma, por outro, estão os doentes a relembrarem-no que o seu estado também poderá ser grave.

A vida antes e depois de ter este problema é muito diferente, porque até então nunca tinha encaixado num quadro de ansiedade. Agora, sofre por antecipação, achando que alguma coisa lhe vai acontecer. A sensação de que tem uma doença é diária, seja porque sentiu uma tontura, uma pontada, um batimento mais acelerado. “Qualquer dor que tenha é um cancro terminal, é algo terrível. Não consigo controlar.”

Hipocondríacos evitantes

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Mário, Ana e Nuno são hipocondríaco que estão constantemente a despistar eventuais doenças. Mas existe outro tipo: são os evitantes. “Ao contrário da maioria, estes evitam a todo o custo hospitais e médicos, com medo que os resultados dos exames indiquem alguma doença grave”, explica Carla de Oliveira.

Basta a cor da urina mudar para ficar alerta, porque, na sua mente, poderá significar vestígios de sangue. “O facto da urina mudar de tonalidade é o suficiente para ir pesquisar ao Google”, relata, com a ressalva de que as visitas à internet em busca de justificação cessaram, medida que reflete a tentativa de controlo que está a tentar impor. E aquilo que os outros sentem também o afeta. “Assumimos as histórias das outras pessoas. Aquilo fica na nossa cabeça e se calhar também vai começar-nos a doer alguma coisa.”

Os ataques de pânico também entraram na sua vida. “Já tive para cima de dez ataques”, relata. “É horrível. É desesperante mesmo. Quando tive o primeiro estava a trabalhar, fui falar com um médico e aparentemente estava tudo bem, mas mandou-me para casa descansar.”

No espaço de dez anos perdeu dez quilos, porque começou a ter “mil e um cuidados com a alimentação” e a apostar no exercício físico. Só que os efeitos destes esforços são traiçoeiros para a sua mente. “Ao mesmo tempo penso que não posso estar bem por ter emagrecido tanto.”

Ao contrário do que é costume acontecer, Nuno não tem problema em assumir e encarar o seu problema como uma “perturbação emocional” como lhe chama Carla de Oliveira. A equipa de trabalho está a par, mas o administrativo assume que a sua vida profissional mudou, porque está mais isolado e recatado. O médico de família, que visita com muita frequência, já o começa a “olhar de lado”, porque “já não sabe que tipo de exames é que há-de passar”, sugerindo o apoio psicológico, que ainda não procurou.

Quem sofre de hipocondria deve procurar ajuda de um psicólogo ou psicoterapeuta que o ajude a diminuir o medo, através de psicoterapia. O doente deve ser descansado e ser tratada a sua doença de base, que não é física, médica, mas psicológica.”

“Estou a tentar segurar-me. Sei que não tenho nada porque já fiz mil e um exames”, diz. “Mas não estou a conseguir e eventualmente hei-de tentar procurar ajuda”, acrescenta, salientado que a mulher tem sido um elemento de apoio imprescindível. “Ela está comigo. Pergunta-me se quero ir ao hospital, mas também me tenta chamar à razão. Tenho uma mulher espetacular que me ajuda.”

A psicóloga Carla de Oliveira garante que “o sofrimento de quem vive com hipocondria pode ser minorado e até eliminado com psicoterapia, em que são identificados e trabalhados os pensamentos perturbadores de forma a substitui-los por pensamentos saudáveis.”

O preconceito relativamente a esta “mania das pessoas” não está só em que assiste de fora. Quem sofre do problema, olha para ele de lado. Mas, como diz a mesma especialista, o fundamental é não ter vergonha em falar sobre o assunto.

“Quem sofre de hipocondria deve procurar ajuda de um psicólogo ou psicoterapeuta que o ajude a diminuir o medo, através de psicoterapia. O doente deve ser descansado e ser tratada a sua doença de base, que não é física, médica, mas psicológica.”