Há várias hipóteses que justificam o facto de os atletas de corrida do Quénia e da Etiópia serem sempre os primeiros a cortar a meta — com uma perna às costas, muito antes dos outros. Há investigações que afirmam que estes, ao dormirem em altitudes elevadas, são capazes de produzir mais glóbulos vermelhos, o que faz com que tenham mais oxigénio a circular na corrente sanguínea quando estão em níveis mais baixos. Há também o fator cultural: os habitantes destes países estão habituados a percorrer longas distâncias todos os dias, tendo, naturalmente, muito mais resistência. E ainda o facto de o fazerem descalços, um dos aspetos abordados no livro de Adharanand Finn, “Correr Com os Quenianos” (livro do ano do “Sunday Times Sports”), cujo objetivo era perceber porque é que os atletas deste país conseguiam correr mais.

“Os africanos, ao correrem descalços, desenvolveram uma técnica muito refinada e natural, sem apoiar o calcanhar, de modo a aproveitar a energia elástica gerada em cada suporte no tendão de Aquiles, arco plantar, [músculo] sóleo, gémeos, etc. Isso catapulta-os a cada passo, permitindo que corram com muito mais eficiência.”

Foi a partir desta ideia que a startup espanhola FBR, formada por investigadores em biomecânica, designers, pedólogos, treinadores e fisioterapeutas desenharam uma sapatilha muito peculiar, sem sola na zona do calcanhar — a parte deste tipo de calçado para onde, regra geral, se desenvolvem mais novas tecnologias. A motivação não terá sido puramente estética. Tanto que, segundo Finn, “cair na parte de trás do pé não é o mais natural, nem é, claro, o mais ideal.”

“Infelizmente, boa parte dos personal trainers e pessoas que estão nos ginásios a dar aulas de fitness não têm qualificações”

Franc Beneyto, diretor do projeto e treinador de atletismo, conta ao “El Mundo” como é que tudo começou. Um dia questionou-se sobre como é que seria correr sem o amortecimento do calcanhar. Com a mulher a filmar tudo, pegou nos seus ténis de corrida, numa faca e cortou as sapatilhas, “num ponto anatomicamente estratégico”, que lhe permitisse “boa mobilidade no tornozelo.” Saiu e foi treinar. As sensações foram de “poder e liberdade”, porque “o tornozelo agia como uma mola que impulsionava para a frente, a cada impulso.”

Javier Gámez, médico de biomecânica, surge na história meses depois, após reconhecer o “potencial do conceito”, como descreve o “El Mundo”. Segundo o jornal espanhol, o especialista propôs analisar a ideia numa das melhores instituições em engenharia desportiva, a Universidade Sheffield Hallam, em Inglaterra, onde as sapatilhas foram comparadas às convencionais. “Os resultados foram surpreendentes, tanto que foram exibidos em congressos internacionais de biomecânica e pedologia, como o de Poitiers, em França, em 2015”, diz o médico.

A Faculdade de Fisioterapia de Valência também começou a estudar aqueles ténis, junto de atletas lesionados, e notaram que corredores com várias lesões voltaram a treinar normalmente após um uso progressivo dos protótipos FBR, graças à minimização do impacto de cada etapa e de uma alteração positiva na técnica de corrida.

Os esforços no desenvolvimento de ténis de corrida focam-se muitas vezes na zona do calcanhar. Podem ter sido contraproducentes, uma vez que “a melhor técnica de corrida e menos prejudicial é aquela que é feita apoiando o metatarso, a parte mediana do pé, mas os ténis convencionais incorporam mais e mais amortecimento, o que significa que modificamos o nosso modo natural de correr e nos magoamos mais.” Porque é que este amortecimento é prejudicial? Porque ele “não elimina o impacto.” Diminui um pouco, mas “continua a danificar as articulações.”

Quanto à produção das sapatilhas da FBR, depois de a startup ter tentado fechar parcerias junto das principais marcas desportivas espanholas, mas sem sucesso, foi a própria empresa que ficou encarregue do fabrico do calçado, na zona de Alicante. As sapatilhas estão à venda online, por 139€.