Apesar de ser quase desconhecido quando se soube que seria o escolhido para substituir Jon Stewart no “The Daily Show”, o programa de humor norte-americano, a verdade é que com apenas 31 anos Trevor Noah já era considerado um dos melhores comediantes africanos de sempre. Mas mais do que a experiência na área da comédia e do stand-up, Noah parecia ter uma experiência de vida riquíssima e capaz de servir de base para várias reportagens e entrevistas. Fruto de uma relação entre a mãe, uma mulher negra, e um branco, Noah foi obrigado a viver e a conviver de perto com um sistema opressor que perpetuava a violência, a pobreza, a desigualdade social e um instinto de sobrevivência apurado.

O seu livro “Sou Um Crime — Nascer e Crescer no Apartheid”, editado pela Tinta da China, é um reflexo disso mesmo. Aqui, o humorista mostra todo o seu percurso num mundo onde, dadas as leis em vigor na altura do seu nascimento, não deveria existir. É um relato de um rapaz que se sentia deslocado quer nas zonas dos brancos, ou nos subúrbios dos negros, muito devido ao seu tom de pele mais claro.

Considerado um dos melhores livros de 2016 pelo “The New York Times”, chegou agora a Portugal onde já está disponível para compra por 24,90€.

A MAGG mostra-lhe 5 curiosidades mais surpreendentes sobre o humorista, tal como ele as revela no seu livro.

Trevor nasceu mesmo num crime

A primeira página do livro “Sou Um Crime — Nascer e Crescer no Apartheid” cita a Lei da Imoralidade implementada em 1927 na África do Sul, onde só viria a ser abolida cerca de 58 anos depois. “Qualquer mulher nativa que permita que um homem europeu tenha relações carnais ilícitas com ela (…), terá cometido um crime e estará sujeita a uma pena de prisão por um período não superior a quatro anos”, lê-se.

Trevor Noah nasceu em 1984, poucos anos antes de o apartheid enquanto sistema político e social ser derrubado na África do Sul, numa altura onde era ilegal negros e brancos manterem relações sexuais ou família. O comediante, filho de uma mãe negra e um pai europeu que nunca chegou a conhecer, sentiu na pele a influência de um sistema racista e opressor. No livro, descreve as vezes que a mãe tinha de agir como se não o conhecesse na rua, sob pena de ser acusada de um crime, presa, e levada para longe do filho.

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O tom de pele de Noah também foi um dos fatores que fez com que a sua infância fosse tudo menos normal. Ao longo do livro, o comediante recorda um dia em que estava a dar um passeio pelas ruas e foi abordado por um grupo de rapazes que, falando o dialeto local, insinuaram querer roubá-lo. Trevor Noah respondeu com o mesmo dialeto e os rapazes, que se tinham mostrado incialmente agressivos, mudaram para uma atitude mais amigável e sociável.

“Mais do que a cor, é a língua que nos define como pessoas. Posso não ser parecido a ti mas se falar como tu, torno-me igual a ti”, escreve.

A mãe chamou-lhe Trevor porque o nome não significa nada

É comum nas famílias Xhosa da África do Sul dar nomes com significados importantes ou messiânicos, tendo em conta o caráter e os valores das famílias em questão. O nome da mãe de Trevor, por exemplo, significa “aquela que dá de volta” e o humorista descreve-a como uma pessoa que sempre tentou ajudar todos os que se encontrassem à sua volta.

Mas quando o filho nasceu, esta decidiu dar-lhe um nome que não tivesse qualquer tipo de significado ou que pudesse corresponder a uma referência bíblica. “É só um nome. A minha mãe queria que a sua criança não tivesse um destino programado. Ela queria que eu fosse livre para ir para qualquer lado, para fazer qualquer coisa ou ser quem eu quisesse ser”, revela.

Um dos seus amigos chamava-se Hitler

Apesar de sofrer com uma infância complicada, isso não impediu Trevor de protagonizar algumas situações engraçadas e até insólitas. Como quando levou um dos seus amigos, que se chamava Hitler, a uma das festas que organizou e onde passava música regularmente enquanto DJ. Na festa, o comediante conseguiu que toda a gente começasse a gritar “vai Hitler” à medida que o amigo mostrava os seus dotes de dança na pista.

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Trevor Noah explica que, na África do Sul, as pessoas têm uma ideia muito superficial daquilo que foram algumas das figuras históricas mais importantes do Ocidente e que, por isso, são atribuídos nomes sem que seja dada grande atenção ao que realmente significam ou ao peso que aquele nome carrega.

Sabe falar várias línguas

O humorista revela ainda que a melhor forma que encontrou de sobreviver foi “falando a língua dos outros” e o inglês foi talvez a língua mais importante já que era a “língua do dinheiro”. Dominá-la e saber aplicá-la no seu quotidiano era abrir portas que não sabia muito bem onde iriam dar — mas iriam, certamente, dar a qualquer lado. Além disso, Noah aprendeu também a falar zulu, tswana, bem como os dialetos locais.

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Foi preso e nunca contou à mãe — mas ela soube de tudo

Trevor sempre foi um rapaz rebelde e capaz de todo o tipo de partidas para se divertir. Numa altura em que ainda trabalhava na oficina do padrasto, o agora apresentador do “The Daily Show” chegou a sair da oficina com um carro que não lhe pertencia para dar um passeio. Não foi muito longe até ser mandado parar por vários agentes da polícia que, assim que se aperceberam que o carro tinha sido roubado, o prenderam de imediato. Noah esteve na prisão durante uma semana até lhe pagarem a fiança.

À mãe nunca contou nada e justificou a longa ausência com uma suposta viagem a casa de um dos seus amigos que morava longe. O que Trevor Noah não sabia na altura, é que foi a mãe que contratou um advogado e pagou a fiança para que o filho fosse finalmente libertado.