As lágrimas não param de cair, a respiração torna-se ofegante, os pulmões parece que deixaram de cooperar. É assim há um, quatro, sete, talvez dez dias, e a esperança de dias melhores deixou de existir. Será apenas um período mau, de grande tristeza? E se for uma depressão?

Os números da depressão em Portugal

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Segundo dados da Direção-Geral de Saúde (DGS), Portugal é o país da Europa com maior prevalência de doenças mentais. Entre 2011 e 2017, o número de portugueses inscritos nos centros de saúde passou de 6,85% para 9,8%. O consumo de medicamentos como benzodiazepinas e antidepressivos também subiu.

“Podemos começar por uma importante diferença”, explica Cristina Sousa Ferreira, psicóloga na Oficina de Psicologia, em Lisboa. “A depressão é uma doença, a tristeza não. A depressão é uma perturbação psicológica e a tristeza é um estado do humor. A tristeza, no entanto, está presente na depressão.”

Parece confuso, mas a principal diferença é esta: pessoas com depressão não são apenas tristes. Como perceber então se está depressivo ou apenas triste? Cristina Sousa Ferreira identifica os sinais.

O tempo ajuda a tristeza a passar, a depressão não

“A tristeza tende a atenuar-se ao longo do tempo”, começa a psicóloga. Consoante a intensidade dos acontecimentos que levaram a este estado, bem como a personalidade de cada um, este período pode ser mais curto ou mais longo. Ainda assim, a tristeza vai tendo oscilações ao longo do dia ou das semanas, “agudizando-se habitualmente com pensamentos ou memórias da perda ou das situações que originaram a tristeza.”

“Na depressão a tristeza é persistente e duradoura; é profunda, intensa e ‘sem objeto’, estendendo-se a todas as áreas da nossa vida e afetando de forma negativa o nosso funcionamento no dia a dia”. A depressão afeta as áreas da saúde, família e vidas profissional e social. “Mais ou menos severa, há sempre uma significativa redução do bem-estar e da capacidade para nos mobilizarmos e vivermos a vida.”

Na depressão estamos sempre infelizes, na tristeza ainda conseguimos sorrir

“A tristeza não é constante, vai e volta, e não impede a capacidade de dar uma gargalhada quando nos contam uma anedota. Na depressão nem o melhor comediante nos arranca um sorriso.” A tristeza pode de facto afetar a nossa capacidade de apreciar a vida, mas não nos impede de sentir prazer com as coisas, pessoas ou situações. Na depressão já não é bem assim.

“Perdemos a capacidade total de ‘gozar’ os prazeres da nossa vida como um jantar de amigos, um passeio com o nosso filho, uma manhã na praia ou o som de uma música.”

Na depressão os pensamentos negativos são como uma nuvem negra

É normal que a tristeza possa trazer pensamentos negativos e sentimentos de culpa face a um acontecimento, mas não nos fazem pôr em causa todo o nossos valor e auto-estima. Também não nos levam a querer fazer mal a nós próprios ou, em casos mais dramáticos, acabar com a nossa vida. Além disso, com o tempo esses pensamentos e sentimentos vão-se desvanecendo.

“Na depressão os pensamentos negativos instalam-se como uma nuvem negra sobre a nossa cabeça e permanecem escurecendo as nossas lentes e comprometendo o nosso olhar sobre nós, os outros e o mundo.”

A depressão afeta o sono, o apetite e o sexo

“Na tristeza, necessidades básicas como o sono e a alimentação podem sofrer algumas oscilações mas conseguimos mesmo assim descansar e alimentar-nos convenientemente.” Na depressão, explica a psicóloga, já não é bem assim: o sono fica afetado por excesso ou defeito (insónia ou hipersónia); a nossa alimentação muda (perda de apetite ou ingestão compulsiva); e o interesse e atividade sexual sofrem alterações.

A depressão e a tristeza afetam a vida social de forma diferente

Quanto estamos tristes, é normal evitarmos alguns contactos ou situações sociais. Assim que a tristeza passa, porém, tudo volta à normalidade. “Na depressão as relações tornam-se mais distantes. Vamos ficando cada vez mais calados, pouco disponíveis a encontros e conversas com os outros e é frequente começarem a aparecer impactos no trabalho e na família.”

Histórias de mulheres que tiveram uma depressão antes dos 30 anos

A depressão afeta o nosso sistema cognitivo

“Na depressão, o cansaço, perda de energia, diminuição da concentração e da capacidade de pensar e a incapacidade de tomar decisões provocam dificuldades no trabalho.” Então e na tristeza? ” Mesmo que estas dificuldades surjam, são passageiras e vão-se atenuando à medida que a tristeza se desvanece.”

“Em resumo, depressão e tristeza estão bem longe uma da outra. A tristeza dói e é desagradável, mas é normal e vai passar”, salienta a psicóloga Cristina Sousa Ferreira. “A depressão não é normal, é mais dolorosa, provoca perturbações importantes na vida do dia a dia, deixa a pessoa sem energia, nada consegue mudar o seu mau humor ou fazer passar a irritabilidade, as necessidades básicas não são satisfeitas”.

Este estado mantém-se durante pelo menos duas semanas consecutivas “e muitas vezes não se resolve sem intervenção de um profissional de saúde.”

Faz sentido tentar combater a tristeza?

“A tristeza é uma emoção natural, adaptativa, que cumpre uma função e transmite necessidades”, explica a psicóloga. Portanto, não faz sentido tentar combatê-la — é necessário chorar e estar triste. “É natural que a perda de algo significativo e fundamental para nós como um familiar ou amigo seja traduzido com tristeza e não alegria, por exemplo. Se chumbamos num exame é natural que fiquemos tristes”, exemplifica.

Deixem-me chorar, por favor

A tristeza é uma forma de expressar, a nós e aos outros, o que estamos a sentir em termos físicos, psicológicos e interpessoais. “Se não permitirmos que a tristeza se expresse depois de uma perda, com receio da dor, não deixamos processar as emoções de forma adequada”.

Quando é que devemos procurar ajuda?

Acima de tudo, quando já não conseguimos lidar com a situação sozinhos — e isso aplica-se à depressão, claro, mas também à tristeza.

“Quando o sofrimento é grande e está comprometido o funcionamento do dia a dia em alguma ou todas as áreas da nossa vida (saúde, família, amigos e trabalho), eu diria que devemos pedir ajuda. Quando não somos capazes de gerir as nossas emoções, ansiedade, stresse, pensamentos e comportamentos de modo satisfatório precisamos de ajuda.”