Armário cápsula. Como viver com menos peças de roupa? Conselhos e sugestões

Era capaz de ter (só) 50 peças de roupa no seu armário? Quem o faz diz que nunca mais dirá o clássico "não tenho nada que vestir".

A ideia é cingir-nos a peças intemporais e que se conjuguem entre si, mas sem perder o seu estilo

O armário cápsula é um conceito criado em 1970 pela estilista Susie Faux com a premissa de um armário funcional com peças essenciais e intemporais, que pudessem ser usadas com algumas peças-tendência de dada estação. A ideia foi recuperada e popularizada nos últimos anos tendo novas regras, práticas e também motivos que nos levam a tentar reduzir o nosso armário a um número limitado de peças de roupa.

A premissa da estilista é simples e ainda se mantém: “Ninguém precisa de mais do que 30 ou 40 peças de roupa para viver, portanto, tudo o resto é acumulação”. À MAGG, Maria Gonçalves, adepta desta prática e autora do blogue Armário Cápsula, afirma que a funcionalidade é a palavra de ordem. “O armário cápsula é um armário com número de peças limitadas (sejam 30, 50 ou mais) que facilitam o nosso dia pois tudo combina com tudo e nos assenta bem.”

A stylist conta no seu blogue que o conceito de um armário mais pequeno, simples e funcional já se tem vindo a instalar, mas foi cimentado depois de ser mãe em que todo o seu tempo era precioso.““Desde outubro de 2017 que tenho um armário cápsula de forma consciente. Já não perco tempo a olhar para o armário, a experimentar vários looks e a dizer que não tenho nada para vestir. Tudo é mais simples porque tudo foi pensado e casa bem”.

Ao longo desse ano, a blogger ganhou conhecimento sobre o seu corpo, aprendeu a fazer escolhas mais pensadas na hora de ir às compras (o que acaba por representar alguma poupança de dinheiro) e poupou tempo a arranjar-se manhã.

Parece tudo perfeito, mas como colocar em prática? Tem dúvidas? Nós também, mas Maria Gonçalves explica.

“Há um número certo de peças de roupa a ter no armário?”

Existem vários modelos e regras que podem ser seguidas na hora de começar este projeto. A mais conhecida é a regra dos 3-3-3, ou seja o seu armário dura três meses e tem 33 peças de roupa (que inclui não só a roupa em si, como acessórios, calçado e joalharia).

Para Maria Gonçalves o número de peças e tempo de renovação do armário depende de pessoa para pessoa, mas “o ideal são 100 a 120 peças para todo o ano. Eu tenho o meu armário dividido em dois: um para o tempo quente e um para o tempo frio.” A blogger está neste momento no seu terceiro armário, mas existe quem tenha um só armário cápsula “que funciona com camadas que se vão adicionando ou retirando conforme a temperatura” ou quem altere a cada três meses – isso depende do estilo de vida e conjunturas de cada um.

“O meu guarda-roupa passou por uma revolução, de três armários cheios de roupa passei a ter pouco mais que um armário e duas gavetas”. Neste espaço tem peças específicas da estação, peças transversais (como t-shirts, calças de ganga ou blusão de cabedal) e alguns acrescentos nesta contabilidade como acessórios, pijamas/roupa de ficar em casa e os sapatos.

“Não vamos vestir todos o mesmo, pois não?”

A verdade é que criar um closet intemporal não é tarefa fácil e existem peças e cores comuns nos vários armários que encontrará online, como as calças de ganga, a camisa branca ou um vestido preto. As peças básicas que tanto ouvimos falar em artigos de moda são a base deste tipo de armários, mas desengane-se se acha que estas pessoas vestem todas o mesmo e não têm estilo.

“A criatividade é a chave de tudo. O facto de ter menos roupa força-me a pensar novas formas de usar e conjugar determinadas peças”, acrescenta Maria. No blogue, mostra como é possível formar 44 looks com apenas 10 peças de roupa e que desmistifica a preocupação de “parecermos que estamos sempre a usar a mesma roupa”.

Relativamente ao estilo, a blogger diz não existirem propriamente regras “cada um tem de saber o que gosta e o que fica bem. Por exemplo, eu tenho algumas peças, duas ou três, estampadas no meu armário, mas como têm cores que combinam com o resto da roupa que lá está são perfeitas para dar um toque diferente aos looks. Se escolher padrões é importante saber que somos capazes de construir pelo menos 5 looks diferentes combinando com as peças que já temos”, reiterou. Tudo é permitido desde que haja coerência no armário como um todo.

Podem existir alguns aspetos a ter em conta quando selecionamos e compramos roupas, como o esquema de cores (com tons neutros e uma ou duas cores de destaque e apropriadas para a estação para dar um toque diferente e pessoal); o formato do corpo; os tecidos e o corte e padrão das peças (aposte em modelos intemporais).

Maria Gonçalves conclui que o seu estilo é o reflexo de um conjunto de mudanças na sua vida, como ser mãe e ter um armário cápsula. “Tudo isto condicionou o meu gosto, mostra uma nova fase da minha vida”. O estilo vai-se alterando ao longo dos anos e o armário cápsula muda também, é importante “alterar o que precisa de ser alterado, desfazer-se das peças que deixam de fazer sentido e ir adquirindo outras que nesta fase da vida sejam as ideais para si”.

“Poupamos mesmo dinheiro?”

O armário cápsula é apontado como uma alternativa mais simpática para as nossas carteiras. A verdade é que o facto de termos um guarda-roupa fixo por três ou seis meses, leva-nos a evitar algumas compras e gastos supérfluos.

Não podemos dizer que se evitem as compras em absoluto, “mas estas são feitas no início da estação e são pensadas e possíveis de conjugar com todo o armário”. Maria Gonçalves já não compra nem tem “aquelas peças muito bonitas mas que não combinam com nada ou que só podem ser usadas um vez por mês por serem demasiado vistosas”. Na verdade, as compras são o mais difícil de resistir em todo este processo: “Há coisas lindas nas lojas, vejo coisas lindas nos looks no Instagram e é preciso estar mesmo muito bem com a minha decisão para conseguir não ir a correr comprar e estragar tudo”. Apesar disso, afirma que vale a pena o esforço.

A questão económica pesa muito na vontade de manter o seu armário cápsula, sobretudo tendo um filho pequeno e “outras prioridades em que gastar o dinheiro”. Desde que aderiu a este conceito compra menos roupa e valoriza muito aquilo que possui, não tendo aquela sensação constante de não ter nada para vestir.  “Em geral reduzi drasticamente os meus gastos em roupa”, garante Maria Gonçalves.

A sustentabilidade é também uma das razões apontadas para adotar esta tendência. Um artigo da BBC revelou que a indústria da moda ocupa o segundo lugar do ranking das que mais impacto ambiental causa, devido à produção de tecidos (como o poliéster, viscose e algodão) e à falta de alternativas na reciclagem das roupas.

“Por onde começo?”

Antes de reduzir o seu armário a 50 peças e de ir comprar calças de ganga e camisas básicas, leia três conselhos muito importantes dados por Maria Gonçalves:

  1. “Pensar que as memórias não são roupa”  – é necessário quebrar a ligação emocional que temos com a roupa ou outros objetos, sobretudo quando não os utilizamos. Claro que há exceções mas esta questão tem que ser tida muito em conta na hora de fazer a limpeza do seu armário.
  2. “Pesquisar, pesquisar, pesquisar”  –  é essencial compreender a sua rotina, o seu gosto e o seu corpo na hora de montar o seu armário.
  3. “Viver com aquilo que já temos. Reduzir em vez de substituir” – numa primeira fase faz sentido diminuir o número de peças do guarda-roupa e perceber quais usamos ou não. Muitas pessoas têm tendência a montar um armário cápsula do zero e comprar muita coisa nova, acabando por cair à mesma no consumismo.

“E ideias de looks?”

Tanto no blogue como no Instagram, Maria Gonçalves vai mostrando os seus conjuntos do dia e mostrando algumas inspirações. Da experiência acumulada, confessa: “O meu melhor amigo para isto é sem dúvida o Pinterest”, existe muito conteúdo deste género que nos permite ter ideias de cores, cortes ou combinações invulgares.

“O realismo é mais uma vez obrigatório”, acrescenta. “Todas adoramos looks aspiracionais, mas não somos Chiaras Ferragnis e portanto temos de nos vestir para o mundo em que vivemos. Um armário cheio de peças fancy, sapatos giros mas desconfortáveis e demasiados brilhos e cores dificilmente será um armário adaptado ao estilo de vida de uma pessoa normal em Portugal”, finalizou a blogger.

Juntámos 20 peças inspiradas no armário cápsula de inverno de Maria Gonçalves. São sugestões para a ajudar a escolher aquilo em que deve investir ou o que deve tirar do armário ou nem sequer chegar a comprar na hora de adoptar esta tendência minimalista.

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