Monica Lewinsky vai revelar tudo numa nova série documental: “Bill Clinton deveria querer pedir-me desculpa”

Antes da estreia de "The Clinton Affair", a ativista revela que o seu comportamento ainda hoje lhe "traz vergonha e arrependimento".

Monica Lewinsky decidiu participar na série por considerar que durante muitos anos as mulheres foram "silenciadas e submissas de uma história escrita, criada e controlada por homens"

Erik Madigan Heck/Vanity Fair

“Se quiserem saber o que significa ter poder, vejam um homem dar entrevistas durante décadas sem nunca se preocupar sobre se alguma vez terá de responder a perguntas que não quer responder.” Foi por estas linhas que Monica Lewinsky pautou o seu texto publicado na revista “Vanity Fair” esta terça-feira, 13 de novembro, onde, 20 anos depois, volta a falar do escândalo sexual que protagonizou e que culminou com um processo de impeachment (destituição), em 1998, do então Presidente dos Estados Unidos (EUA), Bill Clinton.

O texto, que revisita a experiência traumática da ex-estagiária da Casa Branca mais famosa dos EUA, surge três dias antes da estreia de uma nova série documental, chamada “The Clinton Affair”, que pretende dar a conhecer uma nova perspetiva sobre o que aconteceu. Bill Clinton, que na altura já tinha sido várias vezes acusado de ter relações sexuais com funcionárias do governo, manteve uma relação em segredo com Monica Lewinsky.

Os rumores do envolvimento entre os dois começaram a surgir em janeiro de 1998, obrigando à reação rápida de Bill Clinton que, numa conferência de imprensa, afirmou nunca ter tido relações sexuais com “aquela” mulher. Feitas as investigações, o então Presidente foi ouvido durante 21 dias pelo senado norte-americano que teve acesso a um vestido de Monica Lewinsky com vestígios de sémen do presidente, mas também ao seu testemunho. Este, entre outras informações, revelava que Bill Clinton tinha inserido um tubo de charuto na vagina da estagiária.

Face às novas revelações, Clinton foi acusado de perjúrio pelo senado que não se deixou convencer quando o presidente finalmente admitiu a existência da relação e a natureza consensual da mesma. O ex-Presidente considerou ainda não ter cometido perjúrio visto que, garantiu, sempre assumiu um papel de passividade na relação — argumento que Monica Lewinsky contrariou veementemente. Ainda assim, Clinton foi absolvido e terminou o seu mandato em 2001.

No seu texto, a antiga estagiária escreve que apesar de ainda hoje se debater a sua inocência, o que mais lhe importa é o facto de nunca ter recebido um pedido de desculpa de Bill Clinton, e que é por isso que decidiu voltar a remexer num caso que marcou tantas vidas, incluindo a sua. É que Lewinsky não esconde a vergonha e o sentimento de culpa ao recordar todos os momentos que protagonizou na Casa Branca com o então Presidente.

“Filmar este documentário obrigou-me a aceitar o meu comportamento que ainda hoje me traz vergonha e arrependimento. Foram várias as vezes em que me questionei sobre se participar nesta produção seria a melhor ideia, mas teve de ser. Nem que fosse para oferecer uma perspetiva feminina sobre o que aconteceu”, referindo-se à equipa de produção da série documental que é composta por seis editoras executivas.

“Durante uma sessão de terapia, disse à minha psicóloga que me estava a sentir muito deprimida. Ela disse que, muitas vezes, essa sensação é uma manifestação do luto. E sim, era luto o que eu estava a sentir. Todo este documentário abriu novas portas onde a vergonha e o arrependimento ainda não tinham sido explorados”, revelou.

Ainda assim, Monica Lewisky conta que o que mais lhe custou ultrapassar foi a sensação de traição por parte de Clinton, o homem que ela achava que em tempos teria sentido carinho por ela. É que em junho, numa entrevista à NBC, o ex-presidente afirmou não achar necessário oferecer um pedido de desculpa a Lewinsky visto que já o tinha feito publicamente há 20 anos.

Mas Monica Lewinsky não pensa assim e não esconde a desilusão face às declarações do antigo amante. “Bill Clinton deveria querer pedir-me desculpa. Revelaria ser um homem melhor se o fizesse e, por consequência, a sociedade também ficaria melhor e mais tolerável”, continua.

A agora ativista, envolvida em várias campanhas anti-bullying, conta que os seus últimos anos foram um inferno como consequência da exposição pública e da ostracização de que foi alvo. Diagnosticada com stresse pós-traumático, Lewinsky diz que tomou a decisão de avançar com este documentário “porque podia” e porque achava que “durante muitos anos as mulheres foram silenciadas e submissas de uma história escrita, criada e controlada por homens.”

“The Clinton Affair” estreia no domingo, 18 de novembro, nos Estados Unidos e vai contar com imagens e entrevistas inéditas a várias pessoas ligadas ao escândalo sexual, com o intuito de mostrar como uma investigação quase originou a queda de um Presidente.

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