O pedido de Francisca tem vindo a tornar-se norma.: “Mãe, não entres na casa de banho!” Segundo a mãe da rapariga de 13 anos, residente no Estoril, esta tem revelado alguns complexos com a imagem e muita vergonha do corpo em mudança. “Sabe a rapariga que não se despe nos balneários e que vai à casa de banho para trocar de roupa? Essa é a Francisca, mas não é a única. Ela e as amigas chegam até a usar roupas de tamanho L para esconder o corpo”, conta à MAGG Sónia Figueiredo, consultora internacional para organizações como as Nações Unidas, de 41 anos.

Os 11 e 12 anos foram os anos mais complicados, mas a insegurança da jovem ainda é uma questão que merece a atenção da mãe. “Eu cresci numa casa só de mulheres e a minha adolescência não foi nada assim, eu falo de tudo sem vergonhas, mas a minha filha não. Eu tento abordar as questões do corpo, da sexualidade a partir de histórias e exemplos que a Francisca vai contando em casa para conseguir puxar o assunto mais facilmente.”

O diálogo e a atenção têm sido essenciais para ultrapassar parte deste pudor de Francisca, mas é um trabalho constante. “Ainda não quer falar sobre rapazes e retrai-se em certos temas, como por exemplo o período”, diz Sónia, acrescentando que a filha tem uma particular aversão ao tema, tendo ficado horrorizada (e pálida) quando uma amiga partilhou a sua história e chorou quando chegou a sua vez de menstruar.

Para Bernardo, de Lisboa, a vergonha do corpo chegou mais tarde. Segundo a mãe, Joana Carvalho, de 36 anos, o período mais crítico foi aos 16 e 17 anos: “A privacidade dele era levada ao limite com toda a gente e comunicava muito pouco connosco em casa”.

“Ele era e é do grupo dos miúdos populares, por isso não me parece que existam problemas no balneário ou com os colegas. O seu comportamento mais tímido é sobretudo em casa”, diz a mãe. O não deixar entrar e não se expor ou comunicar eram demonstrações de um desconforto e um certo pudor que Bernardo tinha perante a família e a mãe. “Há um ano tivemos uma situação particularmente crítica quando o Bernardo chegou a casa ‘impróprio’, vomitou. Dei com ele nu da cintura para baixo na casa de banho. Durante uma semana não me encarou.”

Quando é que nos tornamos tão ciosos da privacidade do nosso corpo como estes jovens? Mas o que é mesmo o pudor?

Todos nós já nos encontrámos em situações em que foi preciso tirar a roupa em público. Praia, ginásio ou até mesmo no médico, existe aquele momento constrangedor em que, enquanto despimos peça a peça, não conseguimos parar de pensar nas pessoas à nossa volta.Nem sempre foi assim. Houve uma altura das nossas vidas em que fomos crianças despreocupadas que corriamos nuas pela praia e deixavamos as mães tirarem fotografias no banho.

Sérgio Neves, pediatra na Clínica Lusíadas, em Almada e Marta Calado, psicóloga da Clínica da Mente, no Porto

Como se desenvolve o pudor nas crianças até aos 12 anos

“O pudor é um sentimento de vergonha adquirido”, explica a psicoterapeuta infantil Marta Calado. “O termo ‘pudor’ assume significados distintos de acordo com o âmbito em causa a que nos reportamos, como sendo a salvaguarda do corpo e da nudez, a expressão de emoções pessoais, a exposição do confidencial e do privado”.

Segundo a especialista, nenhuma criança nasce com pudor. Para conseguir entender esse sentimento é necessário atingir uma maturidade em que consegue distinguir o seu corpo do outro, bem como percecionar o que é intimidade pessoal. Ora isto desenvolve-se precisamente a partir da puberdade: “À medida que vão crescendo, aprendem a valorizar a esfera privada dos outros e, ao mesmo tempo, a descobrir a própria”, continua a psicoterapeuta.

O pudor é, por isso, um processo — algo que vai sendo desenvolvido ao mesmo tempo que o nosso corpo se altera. Não existe uma data específica para isso acontecer, uma vez que cada pessoa é diferente. Esta ideia é reforçada pelo pediatra Sérgio Neves, que fala de um “contínuo de descobertas e etapas” que atribuem ao pudor diversos significados ao longo das idades.

Aos 1 e 2 anos, é comum as crianças terem comportamentos exploratórios do corpo, expondo-o e tocando-o, sem noção do que isso representa — logo, sem pudor. Um dos momentos de viragem ocorre entre os 3 e os 5 anos, em que a criança passa a ter consciência da diferença de género e em que se dá uma “repressão normativa do corpo”, esclarece o pediatra, e uma educação para o “recato”. É nesta altura que as meninas são ensinadas que devem fechar as pernas e não mostrar as cuecas.

A partir dos 10 ou 12 anos (ou até mais tarde), inicia-se a puberdade e o corpo começa a alterar-se significativamente. Há um desenvolvimento dos genitais e com ele um sentimento de estranheza e curiosidade que leva a que o jovem “se feche no próprio corpo”, continua o médico, criando uma esfera íntima segura.

Na opinião da professora de Educação Física Edite Gomes, com 36 anos de experiência no ensino, é aos “14 anos que o pudor em situações como o balneário, depois das aulas, é mais intenso e generalizado. Não se despem totalmente no banho e olham envergonhadamente para quem o faz; não querem fazer pares mistos [durante os exercícios nas aulas] quando existe contacto físico.”

Há também a questão da comparação e autoestima. “Neste caso, as questões físicas têm maior predominância, em que não tem que ver tanto com a exposição dos genitais, mas do próprio corpo em geral”, acrescenta o pediatra Sérgio Neves. O sentir-se bem consigo em todos os sentidos está relacionada com a forma como vemos o nosso corpo e como nos sentimos quando o comparamos ao dos outros. Esta é, na opinião do especialista, uma realidade que começa no pré-escolar mas que se intensifica na adolescência com as mudanças drásticas no corpo.

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A influência dos pais

A cultura e educação são também aspetos a ter em consideração neste assunto. “Se o pudor se relaciona principalmente com a manifestação da intimidade, claro está que ele advém da criação de crenças internas alicerçadas em certos pensamentos, sentimentos e comportamentos, que experienciamos”, diz Marta Calado.

Neste sentido, o ambiente familiar é de extrema importância para educar a criança, através do exemplo, e como se trata “a intimidade própria e dos outros elementos da família”, afirma a psicoterapeuta. “A temática da nudez familiar associa-se, desde logo, com a educação que os pais tiveram e com aquilo que decidem adotar agora, na família por eles construída.”

A forma como a família decidiu lidar com questões como a amamentação em público, muda de fraldas, o trocar de roupa em casa ou a permissão de entrada na casa de banho, vai influenciar a criança. E não é necessariamente de uma forma positiva ou negativa — o importante é que pais esclareçam, claramente, as dúvidas que possam surgir na mente da criança.

“Não há evidências de que a exposição da nudez em casa dos pais possa constituir um fator negativo. A criança apreende essa realidade como normativa, sente-se mais próxima dos pais, segura para colocar todas as perguntas, distingue os contextos e situações de nudez dentro e fora de casa e adquire maior confiança futura para lidar com questões relacionadas com a sua intimidade e sexualidade, e a dos outros”, afirma a psicóloga.

E a cultura?

Adicionalmente, a cultura pode também acrescentar um caráter pecaminoso à relação com o corpo e exploração do mesmo. Para Sérgio Neves, o meio em que o jovem cresce influencia muito a autoestima e noção do corpo: “Por exemplo, na etnia cigana há uma exposição natural do corpo (através da roupa utilizada) com 14 ou 15 anos que contrasta com as raparigas muçulmanas que não se expõem para nenhum homem (incluindo médicos) até ao casamento”.

Toda esta realidade cultural contrasta muitas vezes com as mensagens e imagens dos media. A exposição do corpo é algo comum em séries, videoclipes, filmes que as crianças e jovens consomem e que “vão querer imitar”. Assim, o pediatra afirma que “a sexualidade se cruza com a cultura e traduz-se numa mudança comportamental”, refletindo-se no guarda-roupa utilizado, numa maior exposição do corpo e da intimidade nas redes sociais e a aspiração de comportamentos e relações mais prematuras.

“Quando num programa televisivo as cenas íntimas são explícitas, tudo faz querer que seja natural mostrar o corpo, mas logo de seguida aparecem as famílias e os educadores a considerarem que a exposição é ‘feia’ e ‘errada’. É normal que tudo se baralhe nas cabeças dos mais novos que ao longo do seu crescimento acabam por ter ‘as linhas trocadas'”, acrescenta Edite Gomes.

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Mas então o pudor é bom ou mau?

“O pudor é necessário para atingir e conservar a autoestima, aspeto essencial do amor e respeito pela identidade própria”, responde Marta Calado. “Ter consciência e consideração pela intimidade, própria e alheia, é fundamental na consolidação da personalidade da criança, já que permite dar-se a conhecer na justa medida e com zelo e respeito pelos seus limites e os do outro, nos diversos contextos interpessoais em que se move. A interiorização da moral sexual deve ser transmitida pelos modelos observados diariamente, e sem duras advertências quando a criança não corresponde àquilo que o adulto pretende“, afirma Marta Calado.

É necessário agir com bom senso e informar a criança do “sucedido e do pretendido”, transmitindo normas sociais que a incluam e protejam na sociedade. Para a psicoterapeuta, “a forma mais oportuna de passar informação neste âmbito deve ter como ponto de partida as questões concretas que a criança vai formulando, que revelam as suas necessidades e interesses.”

A informação e diálogo é essencial, também, quando o jovem apresenta uma certa timidez e até mesmo insegurança com as partes do corpo em transformação, sustenta Marta Calado. “O comportamento envergonhado nessa idade é natural, a criança não deve ser forçada a cumprir uma conduta adversa à capacidade da sua mente dominar o obstáculo, só porque os colegas (já) o fazem de outra forma. Pelo contrário, deve ser ajudada a enfrentar a situação com superação, de forma gradual e transitória, até se sentir preparada para essa e outras tarefas de maior desinibição”, aplicando-se a situações como aulas de ginástica ou idas à praia.