Web Summit. Uma pessoa que vale mesmo a pena conhecer: Simony César

A mãe era assediada, uma amiga foi violada e Simony criou uma app para devolver o poder às mulheres do Brasil. Mas o plano é a expansão.

"É horrível sair de casa sem saber se regressa", diz Simony acerca do Brasil e do clima de tensão que lá se vive

Samuel Costa/MAGG

A MAGG está na Web Summit, a maior conferência de empreendedorismo e tecnologia na Europa, e ao longo dos quatro dias do evento vai procurar pessoas com histórias inspiradoras que tenham vindo para o evento para dar a conhecer os seus projetos ou para ouvir o feedback dos investigadores no recinto. É o caso de Simony César, 26 anos, que em 2016 criou o serviço Nina Mobile. O objetivo? Alertar e denunciar situações de violência sexual que ocorram nos transportes públicos. A ideia, conta à MAGG, surgiu depois de ver várias pessoas que lhe eram próximas serem vítimas desse tipo de violência, nomeadamente a mãe e uma amiga próxima — que foi violada no campus da faculdade onde estudava.

Apesar de ser a irmã mais velha, numa família composta por dois irmãos, Simony diz que nem por isso aprendeu a viver com a ideia de que a qualquer momento podia ficar sem a mãe, que trabalhava como revisora de autocarro, e que várias vezes era vítima de assédio sexual.

“Eu era responsável por fechar a porta quando ela saía bem cedo de casa para trabalhar, às quatro da manhã, e cresci com a angústia de saber que ela ia passar o dia todo numa posição vulnerável já que estava durante 12 horas dentro de um autocarro onde tudo podia acontecer.” Mas houve outros dois casos que marcaram Simony de forma negativa, muito devido à violência utilizada e à imprevisibilidade e aleatoriedade das situações.

“Na minha rua, no Recife, vivia um revisor que ia todos os dias para o trabalho e que nunca teve problemas. Até que um dia foi assaltado e agredido com tanta violência que ficou paraplégico”, mas diz a empreendedora que mesmo naquele momento não conseguia exprimir o que sentia e deixou-se assolar pelo medo.

Sentia uma dor interna porque eu via todos estes casos a acontecer, toda a gente a falar disto mas nunca ninguém fazia nada”, recorda.

Foi na faculdade que tudo mudou, e não pelo melhor motivo. Uma colega sua tinha acabado de sair do autocarro quando, poucos metros depois, foi arrastada para perto de uma árvore por uma pessoa que não conhecia e foi violada. “Foi aqui que eu senti necessidade de pegar na minha experiência e nos meus conhecimentos para tentar mudar tudo o que estava mal. Foi altura de dizer ‘chega’.”

“Sentia uma dor interna porque eu via todos estes casos a acontecer, toda a gente a falar disto mas nunca ninguém fazia nada”, recorda. Por coincidência, em maio de 2016 Simony participou num festival educativo de hackers onde era estimulada a utilização de dados públicos e acessíveis por qualquer utilizador para o desenvolvimento de serviços e aplicações que propusessem solucionar problemas locais.

“Fui ao festival sem qualquer intenção ou ideia de fazer uma empresa, mas sim de pesquisar e aprender mais. Um desses dados disponibilizados era referente à geolocalização de vários autocarros na região do Recife”, e diz que a forma como associou o termo violência aos autocarros do Brasil foi quase instintiva.

(…) infelizmente isto nunca vai a acabar, muito menos agora tendo em conta o contexto político e social do Brasil

O desafio, conta, foi provar que havia um problema. “É que não existiam dados oficiais que provassem que havia assédio sexual nos autocarros. Fiz uma breve pesquisa pela internet e surpreendentemente, ou não, os resultados mais recorrentes envolviam sempre abusos coletivos nos autocarros ou em zonas onde os autocarros circulassem.”

Provada a problemática, e a inexistência de uma solução, criou a Nina mas a ideia acabou por morrer por falta de financiamento, motivo que a trouxe até à Web Summit, em Lisboa. Ainda assim, Simony diz que o seu grande sonho é que o seu serviço nunca chegasse a ser preciso, mas a quantidade de mensagens que recebe de amigas suas a dizer que vão cancelar o curso por ter medo de sair à noite mostra uma realidade diferente.

Simony tem 26 e criou a Nina Mobile para alertar e denunciar situações de violência sexual no Brasil

Samuel Costa/MAGG

“Eu gostava muito que o Nina Mobile não fosse preciso ou que, depois de ser implementado, chegasse ao fim pouco tempo depois. Significava que as mulheres estavam a salvo e que não era preciso este tipo de aplicações. Mas infelizmente isto nunca vai a acabar, muito menos agora tendo em conta o contexto político e social do Brasil”, lamenta.

Quando questionada pela MAGG sobre como é viver no Brasil, a CEO não tem dúvidas de que é difícil mas a resposta rápida e a voz firme não deixam esconder o medo e a tristeza da brasileira que diz que “é horrível sair de casa sem saber se se regressa”, principalmente numa altura em que o presidente eleito [Jair Bolsonaro] diz “querer ver mortas todas as ativistas brasileiras.”

Mas como funciona o serviço Nina Mobile?

O método de funcionamento do Nina Mobile é muito semelhante ao de um apito, só que virtual. A aplicação pretende interligar todos os utilizadores da aplicação em rede para que, quando uma pessoa sofra ou presencie qualquer tipo de assédio ou abuso, possa fazer uma denúncia. De seguida, todas as pessoas que se encontrem perto do local da ocorrência serão alertadas não só do autocarro onde isso aconteceu, da paragem ou do radio do percurso efetuado pelo transporte.

Além disso, sempre que seja feita uma denúncia, a aplicação permitirá que seja feito um pedido de acesso às gravações da câmara do autocarro ou das áreas circundantes — isso permitirá ter acesso a uma possível gravação do suspeito agressor, assim como identificar zonas e autocarros de risco para que os restantes utilizadores possam evitar certas rotas.

Apesar de já se encontrar em fase de testes em regiões como Fortaleza, Recife e Natal, no Brasil, o objetivo é uma “expansão gradual para a União Europeia.” O lançamento em Portugal está para breve, garante a CEO.

Texto de Fábio Martins, fotografia de Samuel Costa.
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