Dono do restaurante de “Pesadelo na Cozinha” diz que o chef fez teatro

Ljubomir Stanisic não falou com ninguém do Ninho dos Sabores com as câmaras desligadas. Houve gritos, mas acabou por não mexer na carta.

Bruno Martinho, 40 anos, é um dos proprietários de Ninho dos Sabores e lamenta não ter aprendido "grande coisa"

Carla Oliveira

No restaurante Ninho dos Sabores não há produtos fora do prazo ou falta de higiene. Não há intrigas familiares ou sequer uma situação financeira de risco. Quem o garante à MAGG é Bruno Martinho, 40 anos, um dos proprietários do espaço de Braga, a sua cidade natal.

Por que decidiu, então, a produção do programa da TVI “Pesadelo na Cozinha” socorrer este estabelecimento? É um enigma. “Eu chamei o chef na primeira edição, quando tinha o restaurante em Guimarães. Na altura da primeira edição, isto era tudo uma novidade para todos os restaurantes”, diz à MAGG o proprietário. “Na altura inscrevi-me, não fui seleccionado, entretanto fechei o restaurante e vim para aqui. Em Janeiro a produção ligou-me. Nunca pensei que o nosso espaço fosse passar as fases seguintes. Mas foi passando.”

Assim que se cruzam as portas e se ultrapassa a bruxa pendurada pelo teto, elemento decorativo a propósito do Halloween, aquilo que se vê é, de facto, um restaurante normal. Na passagem da MAGG pelo Ninho dos Sabores, a sala estava composta. Várias pessoas almoçavam. As mesas são as anteriores ao programa, bem como as cadeiras e quase todos os outros aspetos da decoração. A única alteração feita foi à pintura das paredes, que de brancas passaram a amarelas. Dois espelhos foram tapados e os candeeiros trocados.

Mas o mais estranho é que a carta está na mesma, por opção do próprio chef. “Depois das gravações ficaram-nos várias questões. No primeiro dia em que [Ljubomir Stanisic] está com a cozinheira, acusa-a de ela ser fraca. Mas, no fim, mandaram-nos trabalhar com a lista que tínhamos, com a ementa que tínhamos. Ficámos confusos.”

Bruno Martinho quer chegar a um tipo de público que faça pedidos da carta, porque é difícil viver só dos pratos do dia.

Carla Oliveira

A maior crítica ao estabelecimento do novo episódio de “Pesadelo na Cozinha” foi feita aos preços praticados. Os pratos do dia e o serviço take-away eram, segundo o chef, demasiado baratos. Mas Martinho explica que é uma questão de coerência, ainda que tenham subido os valores ligeiramente, mais 50 cêntimos.

“As listas não mudaram nada. Mandaram-nos trabalhar com os mesmos pratos, com alteração em termos de preço. Foi a maior crítica que o chef fez. Alguns preços atualizamos outros não, porque tendo em conta a zona em que estamos, não dá para praticar preços muito altos, porque as pessoas não podem pagar”, diz. Além disso, há a concorrência: “Estamos numa zona onde há cinco ou seis restaurantes, em que todos praticam mais ou menos os mesmos preços. O prato do dia era 5,5€ e agora estamos a levar 6€. Somos o único que cobra mais, mas não perdemos mais clientes por causa disso, porque não se importam de pagar mais 50 cêntimos por comida de qualidade.”

Produção não deixa receitas a Ninho dos Sabores

O bacalhau à Braga manteve-se. O pica no chão também. À oferta que já existia, vão acrescentar umas entradas (espetadas de coração de frango ou salada de pota), duas sugestões do chef. Problema: a produção não deixou as receitas e Bruno continua à espera de algumas.

Eu não tirei uma fotografia com ele, não tive uma conversa com ele em rec off. Ninguém teve. Foi sempre tudo com as câmaras ligadas.”

Ainda que as críticas possam parecer menores face ao que aconteceu noutros programas, houve gritos e as habituais asneiras. Apesar de na sala não se terem sentido, foi na cozinha que os ânimos estiveram mais exaltados. Tanto assim foi que, depois de conversarmos com Bruno Martinho, tentámos falar com Susana, cozinheira e também proprietária do espaço. Mas sem resultado. Recusou-se. Não quer ouvir falar mais do programa ou sequer do chef Ljubomir Stanisic. Mas Bruno adianta alguns pormenores daquilo que aconteceu.

A cozinheira e proprietária recusa-se a falar da participação no programa. Segundo Bruno Martinho, a relação com o chef não foi a melhor.

Carla Oliveira

“Aqueles gritos que se ouvem nos outros restaurantes, aqui não se ouviram, excepto no dia da reinauguração. Não estamos habituados a trabalhar com câmaras na cozinha que, ainda por cima, é muito pequena. Nesse dia, havia duas câmaras, o chef, a minha cunhada, a pessoa que a ajuda e dois operadores. A minha cunhada não sabe trabalhar sob pressão e com duas câmaras por cima. É normal. Com os nervos, ele falava e ela não o conseguia ouvir”, conta. “Ele gosta de atenção e houve ali um berro e um momento em que saiu porta fora. É teatro. Ele faz aquilo e nós ficamos sem saber se vamos atrás dele ou não. Ele faz em todos os programas igual. Para mim é um teatro.”

Fernando, um dos responsáveis pelo serviço de mesa, disse que tinha “detestado” a experiência, sem adiantar mais detalhes. Mas não é difícil entendê-lo. Trabalhar com uma dezena de pessoas desconhecidas e umas quantas câmaras num espaço pequeno é complicado.

“Queríamos passar com as travessas para levá-las para a mesa para o cliente comer e rapidamente não podíamos porque havia câmaras e gente por todo o lado”, conta Bruno. Na cozinha foi igual. “Há uma situação em que o chef diz à cozinheira que está tudo desarrumado. Mas é normal, porque não dava para passar. Não havia espaço. Havia uma câmara de um lado, pessoas do outro. Ela queria arrumar e fazer as refeições e não podia. As comidas não saíam nesse dia porque o chef estava a empatá-la. Venha aqui ver isto, venha aqui ver aquilo.”

Lubjomir não fala com ninguém de câmaras desligadas

Ainda que garanta não estar interessado em fazer televisão (como nos disse nesta entrevista), porque aquilo que importa é ajudar os proprietários dos restaurantes, Ljubomir Stanisic não falou com ninguém da equipa do Ninho dos Sabores sem que as câmaras tivessem ligadas.

Queria dar a conhecer o restaurante e aprender alguma coisa. Não sinto que tenha aprendido grande coisa.”

“Eu não tirei uma fotografia com ele, não tive uma conversa com ele em rec off. Ninguém teve. Foi sempre tudo com as câmaras ligadas. Ele entra e sai e acabou. Se ele cria amizades nos outros estabelecimentos não sei. Aqui não criou”, diz Bruno. “A certas alturas achei que ele estava aqui um bocadinho contrariado porque não encontrou o que dá audiência ao programa. Eu gosto de estar com a casa sempre limpa. Trabalhamos sempre com frescos. Tudo devidamente embalado. Ele não encontrou nada estragado. Não encontrou sujidade.”

A cor das paredes foi alterada, bem como os candeeiros. Na cozinha, não se trocaram equipamentos.

Carla Oliveira

O mais curioso está para vir. Segundo Bruno, houve clientes a gostarem mais da comida preparada por Susana do que aquela confeccionada pelo chef no habitual almoço de reinauguração. “O [caldo verde] que o chef serviu aqui não tem nada a ver com o que nós servimos. Alguns dos nossos clientes disseram-nos: Martinho, continuem a fazer o vosso caldo verde que é melhor.’ Com o cabrito aconteceu o mesmo.”

Houve dois motivos a levarem Bruno a chamar o chef: aprender e fazer publicidade à sua casa. “Queria dar a conhecer o restaurante e aprender alguma coisa. Não sinto que tenha aprendido grande coisa.”

Mas ainda falta fazer uma formação, com um cozinheiro que irá de Lisboa. “Está nos prometida uma formação. Já fizemos a da higiene no trabalho e ligaram-me estes dias para ver se podia vir um cozinheiro lá da Pontinha para nos dar uma formação de cozinha.”

Ainda sem ter visto o episódio, Bruno admite que se sente triste porque sabe que “a realidade que vai para o ar é aquela que eles [da TVI] querem”. A afirmação baseia-se nos episódios passados e ainda nas entrevistas que lhes foram feitas. “Somos bombardeados com perguntas e, a certa altura, acabamos por dizer aquilo que eles querem que se diga”, diz Bruno.”Há uma parte em que disse que se o chef não viesse aqui, passados 15 dias, estávamos fechados. Só que neste momento tenho capacidade para fechar o restaurante e pagar aos funcionários durante três meses.”

Não se arrepende de ter participado, mas diz que não voltava a concorrer. “Dá publicidade à casa, mas de resto o que é que ele fez? Nada. Disse que a cozinheira não valia nada, mas depois também não mudou nada.” E acrescenta: “Mas pronto, ele a mim não me mostrou o rabo.”

Texto de Ana Luísa Bernardino, fotografia de Carla Oliveira.
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