Deana Barroqueiro: “Aquela gente do Velho Testamento era faminta de sexo”

Casou virgem aos 27 anos, numa união que dura 45. Escreveu "Contos Eróticos do Velho Testamento" e vai processar João Botelho por plágio.

Deana Barroqueiro tem 73 anos e foi desde que se reformou, aos 55, que se dedicou por inteiro à escrita

Carla Oliveira

A entrevista começou mais tarde do que o previsto porque tinha em mãos uma pilha de livros para assinar. “Sou incapaz de escrever apenas obrigado e está feito. A dedicatória tem que ser feita com tempo”, justifica.

O atraso perdoa-se assim que se senta connosco e, sem filtro nem barreiras, fala de sexo, de homens, de mulheres, de uma Bíblia enfadonha, do seu casamento de 45 anos, dos jantares temáticos que prepara para os amigos, dos livros que ainda espera escrever e do plágio de que foi vítima e que, ainda que lhe tivesse tirado a concentração necessária à escrita, nunca lhe tolheu a capacidade de criar.

Assim é Deana Barroqueiro, uma mulher de 73 anos que viaja na história para explicar o presente. Assim o fez nos livros “Contos Eróticos do Velho Testamento” e no “Novos Contos Eróticos do Velho Testamento”, reeditados agora pela Editora Planeta num único volume a que voltou ao nome originalidade “Contos Eróticos do Velho Testamento” e que diz ser de leitura obrigatória para quem quer perceber a raiz da discriminação sexual.

Serve este livro para explicar esta relação de inferioridade/superioridade entre homem e mulher?
O que as mulheres têm sofrido ao longo de séculos vai buscar as suas raízes aos preconceitos, aos maus exemplos e à prepotência masculina que aparece no livro dito sagrado do Velho Testamento. São nessas histórias de exemplo, e que eu considero péssimos exemplos, habitadas por aqueles velhos patriarcas, libidinosos, hipócritas e cheios de vícios, que vemos as mulheres serem tratadas como se fossem objetos.

Indo à génese, conseguiu encontrar uma explicação para esta relação de superioridade masculina?
Eu não pretendia chegar a uma explicação, eu queria sim chegar de uma maneira quase física, quais as sensações das mulheres face a um mundo masculino que as aprisionou.

Os homens escritores têm a mania que sabem muito sobre as sensações das mulheres, mas duvido que tenham o conhecimento tão profundo que qualquer uma de nós possa ter”.

E ainda aprisiona?
Aprisiona, claro. Basta olhar para o islamismo, ou o fundamentalismo judaico. Eu queria também mostrar a mulher, literariamente falando, do ponto de vista de uma mulher. Ou seja, não só através de personagens mulheres, mas também da escritora mulher. Foram poucas as mulheres com a ousadia de pegar nestes temas ditos sagrados.

Este livro podia ter sido escrito por um homem?
Acho que não. Os homens escritores têm a mania que sabem muito sobre as sensações das mulheres, mas duvido que tenham o conhecimento tão profundo que qualquer uma de nós possa ter.

Fala no livro de mulheres “consideradas mercadorias e inferiores aos animais, conceito que perdura até hoje”. Será mesmo assim?
Em muitos sítios, sim. As mulheres ainda são vendidas. A escravatura sexual, o tráfico humano, são tudo temas muito atuais. E se formos a outras tradições, como a indiana, ainda há crianças que são vendidas pelos próprios pais e forçadas a casar. Mas basta recuar ao tempo da minha mãe, em que a liberdade das mulheres era quase nula e se formos buscar os assédios sexuais, isso aí então, era o pão nosso de cada dia. Em Portugal, não existia o piropo, existia a obscenidade.

Ninguém me fechou numa casa de banho para me violar. Mas o assédio do dia a dia, nos transportes públicos, os apalpões, vivi isso tudo”.

A Deana diz no livro que sofreu na pele o assédio sexual e a violência física e psicológica que é comum a muitas mulheres.
Todas sofremos. Tivemos foi que aprender a dizer que não e a levar com as consequências, como perder os empregos.

Foi o seu caso?
Ninguém me fechou numa casa de banho para me violar. Eu até casei virgem, embora só tenha casado aos 27 anos. Mas o assédio do dia a dia, nos transportes públicos, os apalpões, vivi isso tudo.  Só não senti isso no trabalho, talvez por ser professora. Como a Maria Teresa Horta disse uma vez, a nossa geração inaugurou o subir na vida pelo nosso talento e não deitadas de costas numa cama.

No século XVII, as mulheres vão para o convento para poderem ser livres, por estranho que isto pareça. Era a única forma de poderem estudar, para poderem ser músicas, médicas, cientistas, literatas”.

O movimento #metoo é algo de inevitável?
Chegamos ao momento de dizer basta. Foi bom esse movimento aparecer para que se fale abertamente do assunto, mas, como todos os movimentos, tenho sempre muito medo dos excessos. O que vejo acontecer é meterem no mesmo saco a violência sexual praticado sobre crianças que não tinham voz na altura e que anos mais tarde conseguem dominar o trauma e falar, outras que foram violadas sem se poderem defender e outras ainda, essas sim, que se aproveitam desses casos. Há muitas mulheres perversas, muitas mulheres que exercem um jogo sobre os homens.

Houve algum momento da história em que a mulher tenha sido figura dominante?
As persas na antiguidade, antes de aparecerem os muçulmanos, eram mulheres livres e guerreiras. Na nossa história, era tudo uma questão de posses. Se uma mulher tinha posses, tinha poder. Mas no geral, foram sempre subjugadas. Aliás, sobretudo no século XVII, as mulheres vão para o convento para poderem ser livres, por estranho que isto pareça. Era a única forma de poderem estudar, para poderem ser músicas, médicas, cientistas, literatas.

O novo livro "Contos Eróticos do Velho Testamento" vai estar à venda a partir de dia 16 de novembro por €18,85

Carla Oliveira

E hoje em dia essa inferioridade feminina vê-se em quê?
Basta ver que foi preciso arranjar quotas para que as mulheres tenham lugar na sociedade. Eu defendo as quotas enquanto as coisas não se modificarem de vez, visto que o processo é longo. O que libertou a mulher em Portugal foi o ter que trabalhar, o ter que ajudar o marido. A história do homem ganhar o pão e a mulher ter que ficar com os filhos acaba com as dificuldades financeiras que obrigam a mulher a começar a trabalhar. Esse dinheiro trouxe-lhe uma liberdade, mesmo quando subjugadas ao poder masculino.

Essa inferioridade é só culpa dos homens?
Não, as mulheres aceitam. Eu, por exemplo, quando casei, pensei para mim: ‘Vou dar-lhe três meses para que mostre as qualidades do dia a dia’. Se tentasse aprisionar-me não durava mais do que esses três meses.

E dura há quantos anos?
Faço 45 anos de casada no dia 10 de novembro.

Passou no teste.
Com distinção [risos].

Em Portugal temos muitas famílias matriarcais. Como é que se vive essa dualidade entre mulheres dominantes, mas subjugadas ao poder masculino?
A minha família é um exemplo disso. Eu fui filha de emigrantes e a minha mãe era viúva de um vivo, uma vez que o meu pai viveu praticamente toda a vida nos Estados Unidos e foi ela que criou os três filhos, completamente independente do meu pai.

Não sei como é que ainda há quem diga mal do 25 de Abril. Por amor de Deus, parece que não conheceram a ditadura”.

Essa superioridade masculina vê-se mais cá fora do que em casa?
É um preconceito herdado deste livro sagrado que os padres promoveram por todo o lado. Uma vez quase que saí a meio da cerimónia de casamento de uma amiga quando ouço o padre dizer que ela tinha que obedecer ao marido, nem que ele lhe batesse. Quando ouvi isso, tive que me segurar para não sair porta fora ou dizer alguma coisa ao padre.

Isso já foi há muito tempo?
Não há tanto tempo quanto isso. Aconteceu na minha geração. Só depois do 25 de Abril é que os horizontes se abriram, não sei como é que ainda há quem diga mal do 25 de Abril. Por amor de Deus, parece que não conheceram a ditadura.

Este livro, além de uma viagem histórica, é também uma viagem sexual.
É uma viagem maravilhosa feita através das sensações. O pretexto para o erotismo foi-me dado pelo próprio Velho Testamento. Aquelas histórias estão imbuídas de sexo, aquela gente era faminta de sexo. O sexo está em todo o livro do Génesis com uma força incrível. Quando comecei a escrever o primeiro livro tinha 55 anos, tinha acabado de me reformar e pensei: ‘Isto é capaz de ser um bocado escandaloso’. Mas era um desafio. Estas histórias contam as sensações das mulheres através dos olhares dos homens, algo que sempre me irritou. De maneira que decidi dar uma perspetiva diferente.

É fácil escrever sobre sexo?
Quando comecei a escrever o primeiro livro, escrevi cinco contos em 15 dias. Achei que tinha descoberto uma grande veia ou então era a raiva de ver a injustiça com que as mulheres eram tratadas naqueles textos. Entretanto rebentou o escândalo da Casa Pia e tudo aquilo enojou-me a tal ponto que deixei de escrever. Só quando a história acalmou é que escrevi os outros três contos e acabei o primeiro livro. E se este primeiro livro se focava na história dos homens, no segundo decidi dar voz às mulheres vencedoras, as mulheres que conseguiram dar a volta. Foi aí que surgiu “Os novos contos eróticos do Velho Testamento”.

Este novo livro é uma junção dos dois?
Mais do que uma junção dos dois, tentei fazer uma oposição dos dois. A primeira parte é sobre as mulheres sofridas, a segunda parte são as mulheres mais valentes, as sobreviventes.

Recorrer à história é uma forma de perceber melhor o presente?
Sim, nada como ler a  Bíblia para ter essa noção. Aliás, considero a Bíblia um texto muito fraco, muito repetitivo, com exemplos muito inferiores a obras como a Odisseia ou a Ilíada. Basta ver os provérbios bíblicos, que são arrasadores, e de onde vêm os nossos próprios provérbios. ‘Quanto mais me bates mais eu gosto de ti’ ou ‘ Entre marido e mulher ninguém mete a colher’. Como é que é possível alguém dizer isto? Só pode ser um homem a dizer isto. Aliás, basta ver a história daquele juiz anormal que disse que as mulheres na Bíblia eram apedrejadas e que justificou uma agressão dizendo que a Bíblia pune o adultério com a morte. Pois pune, é isso mesmo que quero denunciar com estas histórias. Acho que vou sugerir à editora que envie os meus contos eróticos para o tribunal da Relação do Porto para eles lerem.

Acho que as pessoas lessem mais, falavam menos, principalmente de coisas que não conhecem”.

Saber mais sobre a condição feminina alterou a forma como olha para os homens?
Eu gosto muito dos homens, um mundos sem homens era uma seca. Sou totalmente defensora do casamento homossexual, ainda que seja heterossexual e não ache piada nenhuma às mulheres, fisicamente falando. Quer dizer, sei apreciar um corpo bonito, mas aprecio muito mais o corpo de um homem, mesmo que não seja tão bonito. O meu marido é feio, mas é um homem inteligentíssimo, qualidade que aprecio muito num homem.

Entre romances e poemas, Deana Barroqueiro tem já 14 obras editadas

Carla Oliveira

Como é que faz a pesquisa histórica para os seus livros?
Viajo muito através dos rodapés dos textos, que me levam sempre a novos textos. Além disso, tenho uma grande biblioteca em casa e uma maior online. São gigas e gigas de documentos. Para este livro, por exemplo, cheguei a ler um livro do Egito sobre medicina com mais de três mil anos. Sou uma espécie de rato de biblioteca, ainda que não vá a bibliotecas porque vejo muito mal, sou praticamente cega. É através do computador que consigo chegar a tudo o que preciso. Acho que se as pessoas lessem mais, falavam menos, principalmente de coisas que não conhecem.

João Botelho e o caso do plágio

Em março, acusou João Botelho de plágio, depois de ter visto no filme “Peregrinação”, personagens que existem apenas no seu romance “O Corsário dos Sete Mares”.
Passei os piores momentos da minha vida por causa dessa história. Estive sujeita a ameaças da ArtFilms, produtora do João Botelho, que diziam que me iam processar e pedir uma indemnização, à grosseria do Botelho, que escreveu uma crónica no jornal Público, na qual chamou aos jornalistas hienas porque me apoiaram. O problema é que ele esquece-se que me escreveu uma carta a admitir o plágio e a pedir desculpas.

Fui imediatamente ver o filme e nem lhe sei explicar a sensação que é começar a ver as cenas que eu tinha inventado passadas à tela. As lágrimas caíam-me e, ao mesmo tempo, sentia-me violada”.

Só descobriu que tinha sido plagiada quando foi ao cinema ver o filme?
Não. Eu fui contactada por dois leitores que me escreveram a dizer que tinham gostado mais do livro do que do filme e eu, de boca aberta, questionei: ‘Mas que filme?’. Era o “Peregrinação”, de João Botelho. ‘Até tem o seu nome no genérico’, disseram-me. E eu sem saber de nada. Começo a pesquisar na internet e leio as  entrevistas do João Botelho em que fala das minhas personagens e episódios sem nunca referir o meu nome.

São personagens que só existem no seu livro?
Sim. Até chamei o meu marido, para que visse comigo que aqueles nomes, aquelas personagens não existiam na “Peregrinação”. Aquilo era meu. Fui imediatamente ver o filme e nem lhe sei explicar a sensação que é começar a ver as cenas que eu tinha inventado passadas à tela. As lágrimas caíam-me e, ao mesmo tempo, sentia-me violada.

Se tivesse sido avisada, aceitaria participar no filme?
Seria uma honra. Eu admirava o João Botelho. Mas assim, senti-me atropelada, porque, basicamente, o João Botelho não tinha filme se cortasse a parte que adaptou do meu romance. São 18 minutos de filme seguidos baseados na minha história. Se dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, imagine a quantidade de imagens que estão naqueles 18 minutos.

O que fez?
Cheguei à Leya, a editora do meu livro, e apresentei o caso. Eu não queria direitos de autor, não era isso que eu pedia.

O que queria então?
Queria que me dessem os créditos. O meu nome aparecia no final de toda a ficha técnica, na parte dos agradecimentos, quando, na verdade, o meu livro serve de guião ao filme. Eu não lhe pedi para alterar o filme, porque isso não era possível. Pedi-lhe apenas que, nas entrevistas, dissesse que o meu livro era uma das fontes de inspiração. Nunca fez isso.

E o filme é agora o candidato português ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Eu não deixo esta história morrer precisamente por causa disso. Em março, a Academia Portuguesa de Cinema nomeou o João Botelho para o prémio Sophia de melhor adaptação de uma obra literária, neste caso a “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto. Mas a obra que ele adaptou é “O Corsário do Sete Mares” de Deana Barroqueiro. Escrevi para a Academia, decidi denunciar a história nas redes sociais e a comunicação social acabou por pegar no caso. É que de repente, eu passei a ghostwriter.

Vai a tribunal?
Finalmente a Leya decidiu pegar no caso e acabou de me dizer que sim.

Que conclusões tira desta história?
Conclusões muito tristes. Isto foi uma canalhice, não tem outro nome.

Nada nesse episódio a fez ter vontade de parar de escrever?
Não. Bem, no início sim, eu nem me conseguia concentrar. Mas eu sem escrever morro. E há uma coisa que ninguém me pode tirar, que é a capacidade de criar.

E essa capacidade vai levá-la, em 2019, a lançar para o mercado mais um livro histórico, desta vez sobre cozinha, que sei ser uma das suas muitas paixões.
Costumo fazer uns jantares temáticas para os meus amigos, nos quais recrio pratos do século XVI ou XVII. Eu até cozinho bem e adoro organizar jantares, mas este não é será um livro de receita, será sim um livro de cozinha. Histórico, claro.

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