Tudo começou no verão de 1975, quando Bill Hardy, 66 anos, e Marie-France Robert, 62, se conheceram num café no centro histórico medieval de Neuchâtel, na Suíça, enquanto Bill viajava pela Europa. Foi amor à primeira vista, mas foram precisos 32 anos e uma rede social pouco convencional para os juntar novamente.

A ligação foi imediata. Durante dois dias, Marie fez de guia turística pela sua cidade enquanto Bill se apaixonava por ela. Ele era demasiado tímido para lhe dizer como se sentia, por isso seguiu a sua viagem. Mas regressou no final do verão à pequena cidade para se despedir de Marie — e foi aí que finalmente se beijaram. Ainda trocaram cartas e chamadas durante algum tempo, até que Marie-France conheceu outro rapaz e perderam o contacto. 

“Por vezes pensava em Maïf [alcunha de Maria-France]”, conta Bill à MAGG. Quando surgiu a internet ainda pesquisou o nome dela algumas vezes, no entanto Marie-France Robert “é um nome muito comum em França e nos países em que se fala francês, por isso nunca encontrei nada promissor. Até que um dia, estava eu no Havai, voltei a pensar na tal rapariga suíça que conheci tantos anos antes e apareceu-me uma conta de LinkedIn”.

Bill Hardy e Marie-France Robert reencontraram-se três décadas depois

Mesmo sem certeza de que se tratava de facto de Marie-France, Bill decidiu enviar a seguinte mensagem: “Olá Marie-France. Daqui Bill Hardy. Por acaso lembras-te de um rapaz americano que conheceste no verão de 1975 em Neuchâtel? Sou eu. Tu és a Maïf Robert que conheci?”. Os dias foram passando e não havia resposta. Bill pensou que tinha encontrado a pessoa errada, ou que Marie-France simplesmente não estava interessada. Até que chegou a sua resposta via LinkedIn. A partir daí começaram a trocar mensagens diárias e “voilà, lá estávamos nós em contacto novamente”, recorda Bill.

Descobriram que estavam ambos divorciados e que tinham muitos interesses em comum. Ela vivia em Genebra e ele no Havai, por isso houve um período em que ambos viajavam para se encontrarem. Eventualmente Bill e Marie-France perceberam que ainda gostavam um do outro e decidiram que queriam ficar juntos. Casaram em 2009 e Bill mudou-se para Genebra. Já passaram nove anos.

A verdade é que tanto Bill como Marie-France resistiram em criar uma conta de LinkedIn, mas eventualmente cederam à pressão sob o argumento de que “seria bom para as nossas carreiras — eu sou jornalista freelancer, ela gerente de saúde e segurança.” Acabou por ter uma utilidade além do trabalho: “Se não tivesse sido assim, nunca nos teríamos conectado”.

O LinkedIn já não é apenas uma ferramenta de trabalho

Em meados de 2017, o LinkedIn alcançou a meta dos 500 milhões de utilizadores. Mas será que estamos lá todos para o mesmo? “A rede social só facilita a conexão entre indivíduos oferecendo recursos (chat, gravações de voz, partilha de fotografias, etc.) para promover relacionamentos na rede”, explica Pedro Caramez, autor do livro “Como ter Sucesso no LinkedIn“. Assim, o LinkedIn é um meio que nos permite replicar interações sociais que decorrem naturalmente entre pessoas, sejam elas colegas de trabalho, parceiros de negócio ou meros desconhecidos.

Há 11 anos no LinkedIn, Pedro Caramez afirma já ter tido conhecimento de alguns casos de pessoas que estabelecem “conexões sem foco profissional”, mas salienta “que isto não pode constituir uma tendência face ao elevado número de utilizadores”. É lógico que com um número tão elevado de pessoas possam existir diversos usos para a rede social, contudo o recrutamento, as vendas e o estabelecimento de redes profissionais são ainda os mais comuns.

Pedro Caramez é autor do livro "Como ter Sucesso no LinkedIn" e especialista nesta rede social, fazendo palestras, consultoria e recrutamento digital

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Histórias de casais que se conheceram através do LinkedIn

Num texto partilhado na sua conta de LinkedIn, a norte-americana Katie Ortman Doble, 36 anos, contou que passou a vida inteira à procura do amor — utilizando regularmente plataformas de online dating, sempre sem sucesso. Depois de um cancro ocular, decidiu focar-se na sua carreira. Katie Doble trabalhava numa empresa de recrutamento, o que lhe exigia um número de horas significativas online.

Uma das suas tarefas era estar atenta a propostas de emprego e estabelecer a ligação entre empresas e futuros funcionários. Com uma vaga para o cargo de produção de conteúdos, Katie enviou uma mensagem a Nicholas Doble, 35 anos. “Estava genuinamente a tentar perceber se havia uma oportunidade de negócio, mas também reparei que ele era atraente”, conta à MAGG.

Daqui começou uma “dança digital”, como a própria define, de mensagens sobre trabalho. “Estávamos ambos curiosos, fazíamos muitas perguntas um ao outro, queríamos conhecer-nos melhor. Ele parecia um homem muito simpático e profissional. Fui ficando cada vez mais intrigada e um dia decidi terminar a minha mensagem com: ‘Se alguma vezes quiseres beber um copo ou café, eu adoro networking’.”

O que me despertou mais à atenção não foi a sua aparência (ela não tinha fotografia de perfil), mas sim as suas capacidades desportivas”

Enquanto esperava por Nick no bar, a cabeça de Katie não parava de andar às voltas. “Ele pode ser gay, ou casado, quem sabe. Conheci este homem no LinkedIn. Mantém-te profissional. Sê tu própria. Baixa todas as expectativas. Tu adoras conhecer novas pessoas, ele é só outra pessoa — outra conexão”, recorda.

Ele chegou e a conversa fluiu fora do âmbito profissional. Mas seria mesmo um encontro? A certeza só chegou no final quando Nick insistiu para pagar: faltou o beijo, mas existiu um segundo convite para sair. O casal namorou durante um ano, casou em 2015 e hoje continuam juntos. Depois desta experiência, Katie Ortman Doble afirma que ainda vê o LinkedIn como uma plataforma profissional, mas acredita que com a tecnologia e sociedade atual, está tudo interligado.

Katie e Nick casaram em 2005, pouco mais de um ano depois de terem estabelecido conexão no LinkedIn

Outro casal que se conheceu através do LinkedIn foi Andrew Marcus e Rosalia Lopez de Alda, com 29 e 28 anos, respetivamente. Tudo começou em 2013, quando o CEO da marca MyTennisLessons.com procurava, no LinkedIn, funcionários para a sua startup de coaching desportivo. A empresa disponibilizava aulas de ténis por várias cidades dos Estados Unidos e ele precisava de novos professores no estado do Texas.

Durante a sua pesquisa encontrou Rosalia, uma jogadora profissional de Ténis que pertencia à Women’s Tennis Association, um grupo feminino de ténis muito conhecido pelos seus membros de Serena e Venus Williams. “O que me despertou mais à atenção não foi a sua aparência (ela não tinha fotografia de perfil), mas sim as suas capacidades desportivas”, contou Marcus ao “New York Post“.

Enviou uma mensagem para estabelecer contacto e a partir daí trocaram várias mensagens. “Eu estava mesmo curioso se a conseguia vencer [num jogo de ténis]”, disse, por isso decidiu convidá-la para “bater umas bolas no court de ténis local”. A partir daí criaram uma ligação e começaram a namorar. Continuam juntos.

E em Portugal? Também se descobre o amor pelo LinkedIn?

A história de Joana (nome fictício) aconteceu no ano passado, durante uma reunião da empresa de tecnologia onde trabalha, em Lisboa. A informática de 25 anos está habituada a trabalhar numa indústria com muitos homens. Por isso mesmo, não estranhou quando, no final do encontro com vários parceiros de negócios, e onde estavam presentes cerca de dez homens, foi contactada por um deles através do LinkedIn.

É habitual após as reuniões as pessoas ligarem-se nesta rede social profissional, pensou. Pedro (nome fictício), com 29 anos e também de Lisboa, enviou-lhe um pedido de conexão e uma mensagem a perguntar por uma caneta esquecida no escritório.

Segundo Joana, a conversa “manteve-se minimamente circunstancial”, apesar de ter notado alguma insistência para “puxar assunto e manter o chat ativo”. Pedro acabou por pedir-lhe para trocarem contas de Facebook, e aí sim o tom da conversa foi muito mais informal. Acabou por convidá-la para sair.

Foram ao cinema e no segundo encontro jantar. “Não surgiu qualquer ligação amorosa mas ficou a experiência e o conhecimento desta realidade paralela no LinkedIn”, conta à MAGG. Apesar de até então desconhecer este lado mais romântico do LinkedIn, admite que não ficou muito surpreendida. “Sempre que há um chat podem existir este tipo de abordagens”, diz, acrescentando que “é uma forma de usar a rede social como outra qualquer”.

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O lado menos bom dos engates através do LinkedIn: assédio e má reputação

O LinkedIn foi criado com o objetivo de estabelecer relações entre estranhos dos mesmos campos profissionais, com benefícios para as suas posições ou negócios. Contudo esta dinâmica pode complicar-se quando envolvemos outro tipo de interesses.

“Esta ambiguidade do conceito de conexão tem a ver com o próprio utilizador e a sua atitude face à rede: podemos ser muito seletivos quanto às pessoas que adicionamos, estarmos numa fase de expansão em que aceitamos todos, ou efetivamente podemos adicionar alguém só por considerarmos que é bonito ou atraente”, explica Pedro Caramez.

As fotografias são um dado crucial para entender as interações com um sentido extra-profissional. Na opinião de Pedro Caramez, o perfil de LinkedIn é como um “cartão de visita”, em que certos tipos de imagens, como “fotografias abaixo do ombro ou com determinadas poses”, podem dar a entender outras intenções além das meramente profissionais.

Outra questão tem a ver com o possível impacto na reputação profissional. Não há problema nenhum em conversar num chat ou tentar estabelecer uma relação mais próxima com um colega, contudo existem abordagens mais inconvenientes que, quando expostas, podem pôr em causa a pessoa.

Em 2015, Charlotte Proudman acusou Alexander Carter-Silk de comportamentos misóginos depois de este ter enviado a seguinte mensagem: “Eu sei que isto pode ser horrivelmente politicamente incorreto, mas essa é uma imagem impressionante. Definitivamente ganhas o prémio da melhor foto do LinkedIn que já vi”.

Um homem que aborda uma mulher de forma desrespeitosa dificilmente entenderá, por mais que lhe seja explicado, o quanto isso é inadequado.”

Para a advogada, conforme explica o jornal “The Guardian”, esta mensagem foi ofensiva. Charlotte Proudman defendeu que estava na rede social para fins profissionais, e não para ser abordada sobre a sua aparência física — “ou ser objetificada por homens machistas”. Em resposta, Alexander Carter-Silk defendeu-se: “A maioria das pessoas publica fotos pouco profissionais no LinkedIn, o meu comentário foi direcionado à qualidade profissional da apresentação no LinkedIn, que infelizmente foi mal interpretada.”

Outro caso de alegado assédio nesta rede social ocorreu com Nathália Cirne. Na sua página de LinkedIn, a marketeer expôs uma mensagem que recebeu de um homem, onde se lia: “Achei você doce e sexy”.

Esta situação foi exposta pela própria no seu LinkedIn

Acabou por bloquear o homem. “Acho que não valia a pena esperar uma reação após a minha recusa”, conta Nathália Cirne à MAGG. “Um homem que aborda uma mulher de forma desrespeitosa dificilmente entenderá, por mais que lhe seja explicado, o quanto isso é inadequado.“

Nathália Cirne diz ser uma pessoa muito desconfiada, uma vez que já sofreu assédio “fora da plataforma, por clientes, em ambiente de trabalho e algumas vezes através do LinkedIn”. Por isso mesmo, agora tem cuidados redobrados para evitar esta realidade: “Tento sempre ser séria para evitar que confundam com uma oportunidade sexual. Anteriormente deixava o meu número no LinkedIn, mas depois de contactos indesejados, retirei”.

Apesar do sucedido, Nathália Cirne não condena as relações que podem surgir no Linkedin: “Acho que relações amorosas podem começar em qualquer ambiente, inclusive por aqui. O importante é haver respeito e a outra parte ser capaz de perceber se houve abertura, se fazia sentido levar a conversa para um lado pessoal”. No final, é tudo uma questão de “bom senso”.

Como resposta a este e outros casos, o LinkedIn criou uma secção de Reconhecimento e Reporte de Conteúdos Inapropriados, Abusivos e Spam, sejam eles em conversas, comentários e posts. Na sua página afirmam “não tolerar atividades ou comportamentos inapropriados  como assédio, esquemas e informações erradas. Nós temos Políticas de Comunidades Profissionais e tudo relativo a essa área é aceitável na plataforma e o que não é será tratado.”

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E se quiser mesmo usar o LinkedIn para encontrar o amor?

Esta rede social é definida por Pedro Caramez como um “portentoso motor de busca, que nos permite não só avaliar e encontrar potenciais ligações, como pode ser utilizado para procurar utilizadores com base nas nossas preferências”. Como? Através de palavras-chave.

3 avisos de Pedro Caramez antes procurar o amor no LinkedIn

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  1. Há uma informação básica nas outras redes sociais que não é muito comum aqui: o estado civil. A maioria dos utilizadores expõe somente a sua vida profissional por isso não assuma logo à partida que toda a gente é solteira;
  2. Da mesma forma que avalia as pessoas mediante o perfil, os outros fazem o mesmo. Por isso mesmo, seja para fins profissionais ou pessoais, é essencial cuidar da sua rede social.
  3. Não seja muito insistente. Já lhe falámos de abordagens inconvenientes e do que isto pode causar, portanto aborde a pessoa uma ou duas vezes no máximo.

Pedro Caramez fez o teste para a MAGG e fez a seguinte pesquisa: encontrar pessoas que vivem em Portugal, que tenham estudado em Economia, empregadas, com experiência em voluntariado e capacidades de oratória e liderança. Sem filtro entre homens e mulheres, a rede social exibiu os resultados de 400 utilizadores em Portugal com estas características.

O LinkedIn acaba por oferecer um conjunto vasto de informações (como estudos, atividades profissionais, voluntariados, áreas de interesse), características ou aptidões (profissionais ou não) e até aparência das pessoas através das fotografias. A partir daqui pode estabelecer conexões e interações (como comentários e gostos), que vão criando aos poucos uma aproximação. Se pode culminar em alguma coisa ou não, bem, só mesmo testando.