Ararate. Especiarias, aromáticas, espetadas e ensopados: os sabores da Arménia chegaram a Portugal

Pão artesanal, sobremesas típicas, espetadas, tábuas de queijo e enchidos saem desta cozinha, onde há um forno de duas toneladas.

Aqui há carne em abundância. Servidos em espetada, em tábuas ou estufados, há a de cabrito, de vitela, de vitelão, ou de borrego, todas cozinhadas a baixa temperatura

Murad RM

A cultura gastronómica nunca tem raízes num só pais. Estas extrapolam fronteiras e recolhem influências de vários sítios. Vejamos a Arménia: é vizinha da Turquia, da Georgia, do Azerbaijão e do Irão, o que a liga à Ásia Oriental, Central, sem esquecer todos os anos em que esteve anexada à União Soviética. O que é que isto significa? Significa pratos recheados de especiarias (muito pimentão doce), de ervas aromáticas (muitos coentros), de vitelão, vitela ou borrego. Significa saladas com beringela, pimentos, pepino, cebola ou tomate. Significa espetadas e ensopados variados. E é tudo isto que nos chega à mesa no primeiríssimo restaurante arménio de Portugal, o Ararate, que a MAGG já foi visitar.

Os peixes são mais escassos (há truta e esturjão, dois peixes de rio consumidos muito neste país), mas carne há em abundância. Servidos em espetada, em tábuas ou estufados, há a de cabrito, de vitela, de vitelão, ou de borrego, todas cozinhadas a baixa temperatura, para que não se percam os sucos e os nutrientes. O grelhador do Ararate, com duas toneladas, é uma peça crucial para que os sabores correspondam ao país em questão. Foi desenhado por um fornecedor espanhol, o único capaz de criar um destas dimensões e tão raso que a grelha quase toca no carvão.

O primeiro restaurante com comida típica da Arménia fica na Avenida Conde de Valbom.

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Numa cultura em que o que chega à mesa é para partilhar, também aqui os pães são diferentes e tradicionais. Há o lavash (2,5€), feito com farinha de trigo, sem levedura, muito fino, grande, seco e crocante, e o matnakásh (2€), fermentando, oval, redondo, dourado e adoçado antes de seguir para o forno — e que nos chegou à mesa acompanhado por três molhos diferentes, a surpresa do chef (3€), que vai variando sempre. No nosso almoço havia de tomate, o mais tradicional, o de patê de feijão e o de queijo.

Há também os ensopados (do borrego, ao vitelo ou grão-de-bico), com um caldo muito líquido (sacia, mas não enche demasiado) que respeita as tradições da Arménia, um país em que se combate o frio comendo estes pratos ao pequeno-almoço. A influência mediterrânea também se sente e vem representada nos legumes, presentes em quase todos os pratos: há beringela, pepino, pimento ou tomate — muito tomate.

Karine Sarkisyan é a proprietária do restaurante, que abriu portas em setembro. Conheceu Portugal na sua lua-de-mel e desde então viajou para cá todos os anos, até se instalar definitivamente, em 2006, tendo então iniciado o seu percurso na área da restauração. Surpreendentemente, o primeiro espaço que abriu em Lisboa foi um restaurante de cozinha típica portuguesa, o Dom Afonso o Gordo.

Porquê comida portuguesa? A explicação tem sentido e revela cautela. Os sabores da Arménia são fortes, são intensos, portanto, primeiro toca de testar as papilas gustativas dos portugueses: “Não podemos trazer comida nova sem conhecer os gostos e o paladar de um povo”, explica. “É preciso estudar, viver, para ver do que é que gosta.”

Quanto à comida do Ararate, a proprietária dá a entender que poderia ser ainda mais forte. “Os nossos sabores são ainda mais intensos, mas não queremos chocar o freguês. Usamos ainda mais tomate, mas especiarias, mais pimentão doce. Suavizamos um pouco.”

Ainda assim, os pratos que se servem são capazes de comover quem há muito não vê o país de origem. “Há um casal cliente arménio que vive em Portugal desde os anos 60. O filho fez-lhes uma surpresa e disse-lhes que iam comer a um restaurante de comida típica portuguesa, mas quando chegaram aqui e viram que era arménio começaram a chorar.”

As mesas, a porta trabalhada e as tábuas que servem à mesa foram feitas pelo mesmo artesão português, de Rebordosa.

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Com mesas, tábuas e uma porta de madeira — todos encomendados ao mesmo artesão, de Rebordosa (no conselho de Paredes) —, há produtos que percorrem quilómetros e quilómetros (vindos da Arménia) para aqui serem servidos. É o caso da folha de videira. “Encomendámos 80 quilos, que já acabaram. Mandámos vir mais 80 e estamos à espera”, conta Karine.

A carta é vasta. Há ainda tábuas de enchidos tradicionais (com lascas de peito de pato, língua de vitela, lombo de vaca conservado em mistura de especiarias, carne picada com toucinho em especiarias, 15€), saladas, como o típico taboulé (com bulgur, tomate fresco e aromáticas, 6€) ou guisados, como o Tjvjik, (guisado de miúdos com cordeiro ou vitela, repleto de cebola e tomate, 6,5€). Porém, se aquilo que procura é comida de conforto, consistente, que reconforta, não deixe de provar o Khachapuri Barco (7,5€, significa pão de queijo), um pastel tradicional em forma de barco, com queijo e ovo ou o Khachapuri, que é semelhante, mas sem o ovo.

Karine Sarkisyan não escondeu a vontade de levar os sabores da Arménia a outros pontos do país. O Porto não está mesmo fora de questão. Mas resta aguardar. Até lá, temos sempre o número 70 da Avenida Conde Valbom.

Morada: Avenida Conde Valbom, 70
Horário: segunda-feira a domingo, 12h às 24h
Contacto: 925451509

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