A pergunta que os clientes e os vizinhos fazem ainda hoje foi a mesma que Natália Simões fez naquele dia em que, já perto da hora de jantar, lhe ligaram da produtora Shine Ibéria a perguntar se gostava de participar no “Pesadelo na Cozinha”: “Mas porquê o Telheiro?”.

Ainda hesitou, perguntou se alguém os tinha alertado para algo que estivesse errado no serviço, mas da produção, a explicação foi simples: tinham já ligado para vários restaurantes de Vieira de Leiria e o Telheiro foi dos primeiros a atender.

Natália e o marido Manuel Simões não quiseram deixar escapar a sorte e disseram que sim à entrada do chef Ljubomir Stanisic no restaurante que abriram há 25 anos e que, apesar de cheio no verão, todos os anos ultrapassa um inverno rigoroso, e não falamos aqui do frio. “Estamos mesmo na linha da praia, que só enche no verão. No inverno temos que viver das economias e privamo-nos de muita coisa, até das férias”, explica a proprietária, que lembra que, se nos meses com mais movimento chegou a ter 16 funcionários em simultâneo, no inverno três dão conta do recado. E são muitas as vezes em que esse trio nem sai do seio familiar.

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À frente do restaurante estão Natália e Manuel, a quem se junta a filha Marlene que, aos 33 anos, se prepara, a partir de janeiro, para pegar no negócio que lhe calhou em herança.

“Eu já tenho 62 anos, o meu marido 63. Ela tem 33 e está em boa idade de levar isto em frente, com a minha ajuda sempre que for preciso”, explica à MAGG, aproveitando para lembrar que a presença do chef naquela cozinha deu a Marlene o impulso que lhe faltava para avançar. E é aqui que começa um rol de elogios a Ljubomir como nunca antes visto na história do programa.

“Por mim o chef tinha ficado mais tempo”

A primeira coisa que o chef disse mal entrou no restaurante foi “Parabéns”. Aquela era a cozinha mais bem equipada onde já tinha entrado durante o programa. “Por causa disso não tivemos direito a nada”, lamenta Natália, “só a uma fritadeira”.

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Mas nem por isso a relação entre a família Simões e o chef foi afetada. Natália não lhe poupa elogios. “Adorei conhecê-lo. Foi muito simpático e aprendi imenso. Só queria que o chef tivesse ficado mais tempo connosco”.

Não se pense, por isto, que a passagem do chef por Vieira de Leiria foi menos suave do que a do furacão Leslie, cujas consequências são ainda bem visíveis nas ruas que rodeiam o restaurante. “Por acaso não nos afetou muito, mas foi uma noite muito difícil”, lembra Natália.

Apesar de lhes elogiar o equipamento e algumas das receitas, Ljubomir não deixou de mandar para trás alguns dos pratos que lhe chegaram à mesa. “Aos rissóis de peixe disse que faltava um camarãozinho, notou que punhamos creme de pacote na sopa de peixe e o bacalhau, por azar, estava salgado nesse dia”, conta Natália.

Criticou a ementa demasiado grande e cortou alguns dos pratos. “Tínhamos lulas grelhadas e lulas à Telheiro, que só levavam mais uns camarões. Ele decidiu cortar essas variações para nos ficarmos pelo mais simples”, conta. Mesmo assim, atualmente o menu é feito de 26 pratos e outras 26 opções de lanches ou petiscos, desde tostas, saladas, cachorros e hambúrgueres. “Há coisas que não dá para cortar porque as pessoas estão habituadas”, justifica.

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É o caso da francesinha, que o chef não chegou a provar, mas que Natália tem como uma das especialidades da casa. “Foi o meu cunhado, que é do norte, que me disse para eu começar a fazer. Eu experimentei e olhe, toda a gente ma elogia”, diz, orgulhosa. Mais ainda quando, apesar de as fazer com gosto, nunca as tenha provado. “Não gosto de queijo nem de natas. Por isso, faço tostas, francesinhas e bacalhau com natas, tudo muito bem, mas não como”, admite.

Com o chef aprendeu a juntar umas ervas aromáticas à batata cozida para dar mais sabor, a fazer caldo de peixe em vez de usar o de pacote e ainda a preparar o molho demi glace — usado em carnes e que Natália e Manuel põem no Bife à Telheiro — mas sem ter que recorrer a preparados de supermercado. “Agora é uma cozinha muito mais natural”, garante.

O chef voltou para uma visita

Apesar de os clientes elogiarem o sabor da comida, nem sempre tinham palavras positivas para a qualidade e rapidez do serviço. “O chef reparou que éramos muito desorganizados e decidiu dar tarefas a cada um de nós”, refere Natália, o que nem sempre funcionou de feição. “Lembro-me de ele perguntar ao meu marido pela maionese e a minha filha ir buscá-la. Parou tudo e disse ‘Eu pedi ao teu pai”. E ainda com Marlene, deitou fora todo um pica pau que a filha dos proprietários tinha preparado, porque deitou a carne na frigideira ainda fria, e não aquecida como tinha ensinado.

Mesmo assim, Marlene não perdeu o ânimo e decidiu que, mesmo com os filhos pequenos de cinco e oito anos, estava na hora de avançar e, a partir de janeiro, é ela que passa a gerir o Telheiro.

“É agora que eu vou poder ir para a minha casinha, para o meu quintal”, suspira Natália, ainda que garanta estar sempre disponível para vir ajudar a filha que já impôs algumas alterações à casa.

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Vão deixar de ter a secção de guloseimas e, por isso, estão só a deixar escoar o que têm ainda em stock de chocolates, gomas e chupa-chupas.

Foi, aliás, esta parte do restaurante que deitou abaixo a moral do chef quando, uns dias depois de lá ter estado a renovar a cozinha, passou apenas para visitar, aí já na companhia da mulher.”Ele tinha trocado a vitrine das sobremesas pela do peixe e a das guloseimas pela da carne e quando veio, passado pouco tempo desta alteração, já eu tinha posto tudo como estava”, admite Natália, mas justifica: “Tenho tantos chocolates para vender ainda, mais vale estarem expostos”.

O chef não gostou, mas percebeu e, vendo a azáfama da hora de almoço, até porque ainda estávamos dentro da época balnear, decidiu entrar na cozinha. “Até ajudou a Marlene a grelhar um bife”.