Com que então Leonardo Da Vinci era estrábico? Teria sido útil saber isso em miúdo

Mais do que ser diferente, esta coisa de ter os olhos tortos tem a inconveniência de deixar os outros confusos. Mas nós não fazemos por mal.

O grande inimigo dos estrábicos é a ideia de ter de tirar fotografias

Com que então Leonardo Da Vinci pode ter sido estrábico, é isso? Pelo menos é essa a conclusão de um estudo realizado por um especialista em neurociência da Universidade City de Londres, e cujos resultados foram publicados num jornal da área da medicina. O investigador analisou alguns dos quadros e concluiu que, devido à posição dos olhos de cada figura retratada, o artista sofreria de estrabismo divergente — o que justifica o uso acentuado das sombras ou a representação da profundidade, técnicas que definiram os trabalhos do artista italiano. Apesar de ser só uma hipótese, ser estrábico passou a ser fixe. Giro era isto ter-se sabido há uns anos, quando eu ainda estava na escola.

Isto de ser estrábico foi uma coisa que aconteceu por acaso após ter nascido e que me definiu a vários níveis. É que com apenas 5 anos fui obrigado a fazer uma operação para corrigir um olho que estava demasiado torto. Reparem, o problema não foi a operação em si, sabia lá eu o que era ser operado ou por que motivo os médicos me tinham pedido para deitar e contar de um a dez devagarinho.

O problema foi mesmo o período de recuperação que envolveu estar com os olhos vendados durante uma semana, numa altura em que tinha acabado de sair o filme “Rei Leão 2” em Portugal. Lembro-me perfeitamente de estar deitado na sala, de olhos vendados, a ouvir o filme enquanto os meus pais me descreviam o que estava a acontecer a cada momento.

Além de não ver o filme pelos meus olhos, perdia constantemente a noção do tempo e achava sempre que os dias já não tinham manhã por estar sempre tão escuro. “Já é hora de jantar?”, perguntava eu dez minutos depois de tomar o pequeno-almoço. Não era para tentar ser engraçado, é que para mim era sempre de noite. Fora isso, a recuperação fez-se bem e nunca tive complicações a nível visual e o facto de usar óculos nada tem a ver com o facto de ser estrábico — servem apenas para não cansar os olhos quando estou a trabalhar, a ler ou a ver televisão.

Sempre fui um miúdo privilegiado: nunca fui gozado na escola e não sei o que é sofrer bullying por ser diferente dos outros, mas a consciência de que era diferente estava bem presente em tudo o que fazia. Atualmente é menos frequente, mas há momentos em que deixo que essa diferença interfira na minha rotina, principalmente na relação com os outros.

São raras as vezes em que me sinto confortável em estabelecer contacto visual direto durante um diálogo com pessoas desconhecidas, o que é paradoxal e irónico tendo em conta a profissão que escolhi. Mas não é por mim, mas sim por respeito à pessoa com quem estou a falar. É que isto de ter um olho virado para Beja e outro para Setúbal tem essa inconveniência de deixar os outros confusos. “Mas para onde é que este está a olhar quando eu estou aqui mesmo à frente dele?”, terá pensado alguém, num determinado momento, durante uma conversa comigo. Mas nós não fazemos por mal, garanto.

Outra coisa aborrecida de se lidar é com fotografias, esse grande inimigo dos estrábicos. Além de ficarem horríveis, a menos que o fotógrafo seja excecional, ainda temos de ouvir aquela boca típica do “olhe para a câmara”. E como explicar sem deixar o fotógrafo desconfortável que estou, de facto, a olhar para a câmara? Não tenho culpa que num universo com 7 mil milhões de pessoas, me tenha calhado a mim ter os olhos tortos.

A maneira mais fácil de lidar com uma parte de mim que não me incomoda, mas que pode causar uma certa estranheza inicial nos demais, é através da piada fácil que tem como único propósito quebrar o gelo. Quando entrei para a MAGG, por exemplo, o primeiro desafio foi tirar fotografias para os perfis de cada jornalista. Enquanto as minhas colegas se maquilhavam e preparavam as poses, uma delas comentou que tinha “um olho mais estrábico do que o outro.”

“Queres mesmo falar sobre isso?”, respondi com um sorriso e, a partir daquele momento, não foi mais preciso voltar a falar no assunto. Quem não se tivesse apercebido, tinha ficado a saber e nenhum dos meus colegas se iria sentir desconfortável com o facto de olharem para mim e verem uma diferença.

Ainda assim, tenho para mim que apesar de ser uma condição bem conhecida e investigada, talvez se fale pouco do que é o estrabismo e do impacto que pode ter nos miúdos — principalmente naqueles mais inseguros e com baixa autoestima. E daí que a notícia de que Leonardo Da Vinci possa ter sido estrábico seja boa para eles.

A confirmar-se, e bem sei que existem outros pintores estrábicos, o estrabismo passaria a ser cool e irreverente. E sempre que alguém usasse a expressão “olhos tortos” como insulto, a ideia de que esses mesmos olhos tortos poderiam idealizar uma Mona Lisa seria reconfortante.

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